Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

O DINHEIRO ou AS RIQUEZAS

 

O pobre que toma ares de rico

 

Ecl 6, 7-11:

                Bíblia de Jerusalém

 (7) Todo o trabalho do homem é para sua própria boca e, contudo, seu apetite nunca é satisfeito.

(8) Que vantagem leva o sábio sobre o néscio, ou sobre o pobre aquele que sabe vencer na vida?

(9) Mais vale o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Também isso é vaidade e correr atrás do vento!

(10) O que já foi, o nome já foi pronunciado, e sabe-se o que é o homem; e que não pode contestar ao que é mais forte do que ele.

(11) Quanto mais palavras, tanto mais vaidade. Que aproveita o homem?

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

6.7 Todos trabalham duro para ter o que comer, mas nunca ficam satisfeitos.

6.8 Que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Que vantagem tem o pobre em saber enfrentar a vida?

6.9  Isso também é ilusão, é correr atrás do vento. É muito melhor ficar satisfeito com o que se tem do que estar sempre querendo mais.

6.10 Tudo o que se passa neste mundo já foi resolvido há muito tempo. Antes de uma pessoa nascer, já está decidido o que vai acontecer com ela. E nós sabemos que não podemos discutir com quem é mais forte do que a gente.

6.11 Uma coisa é certa: quanto mais falamos, mais tolices dizemos; e não ganhamos nada com isso.

Almeida Revista e Atualizada

6.7  Todo trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite.

6.8 Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou o pobre que sabe andar perante os vivos?

6.9 Melhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da cobiça; também isto é vaidade e correr atrás do vento.

6.10 A tudo quanto há de vir já se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem, e que não pode contender com quem é mais forte do que ele.

6.11 É certo que há muitas coisas que só aumentam a vaidade, mas que aproveita isto ao homem?

 

Os meus amigos haverão de me perdoar, mas estou com dificuldade em enquadrar esta porção bíblica com a ideia que lhe atribuíram ou doutos tradutores da Bíblia de Jerusalém: “O pobre que toma ares de rico”. E ainda como exemplo: deveria ser lúcido e transparente para justificar e aclarar alguma afirmação do escritor – relevemos, contudo, pois foi destinado a um público que viveu milhares de anos antes de nós, quiçá mais culto que este pobre comentarista e certamente mais familiarizado com sua linguagem (vale notar que os experientes tradutores em mais de um momento indicam dificuldades no entendimento de algumas passagens).

 

O verso 6:7, nas 3 versões transcritas  afirmam a mesma coisa: “Todos trabalham duro para ter o que comer, mas nunca ficam satisfeitos”  Se lembrarem de uma informação da Cabala inserida no SERMÃO…XXX, o trabalhador está lutando para atender o mais básico de seus desejos: “A aspiração pela sustentação de sua existência corresponde ao nível inanimado de desenvolvimento.” Ora, a nossa capacidade de ingerir alimento é limitada, por mais que os nossos exageros a tenham distendido. Mas se o Coélet insiste em afirmar que   nunca ficam satisfeitos, devemos imaginar que estão experimentando um segundo nível de desejo: “A aspiração pela fartura (riqueza) corresponde ao nível vegetativo de desenvolvimento.”, o que devo acreditar que é bom.

 

O verso 6:8 pede-nos uma comparação. Mas cada versão trás nuances que precisamos considerar.

Bíblia de Jerusalém: “Que vantagem leva o sábio sobre o néscio, ou sobre o pobre aquele que sabe vencer na vida?

Nova Tradução na linguagem de hoje: “Que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Que vantagem tem o pobre em saber enfrentar a vida?

Almeida: “Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou o pobre que sabe andar perante os vivos?”

Primeiramente eu pergunto: de onde apareceu este sábio? Estamos falando sobre riqueza e pobreza, ricos e pobres. Mas, paciência, está aí. E só para nos situarmos, vamos lembrar que Nilton Bonder, em seu livro O Sagrado, menciona um trecho da Ética dos Ancestrais, onde está definido: “Quem é sábio? Aquele que aprende de todos”.

A primeira parte da indagação é sempre esta: “qual a vantagem do sábio sobre o néscio (ou tolo)? Entendo que o sábio, sendo pobre ou abastado, saberá gerir melhor a sua vida, obtendo em cada momento e em cada circunstância, o resultado mais favorável para alcançar a sua meta maior de ser humano. Mas não seria sobre coisas muito “elevadas” que o Pregador pretende fazer a comparação? Se fala sobre seres humanos, quaisquer decisões não desembocariam no objetivo final de sua existência?

A segunda parte do versículo apresenta traduções ligeiramente distintas que convém considerar. Na Bíblia de Jerusalém somos instados a comparar “o sábio”, “o néscio” e o “pobre (aquele) que sabe vencer na vida. Ou seria este aquele “pobre que toma ares de rico?”No caso, não seria este uma espécie de aprendiz de sábio? Cabe aqui apresentar uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém sobre este versículo: “Sentido incerto, mas talvez possa haver aqui uma comparação ousada entre o sábio e aquele que vive de ilusões.“

Já a NTLH só pede para ser considerada a vantagem do sábio sobre o tolo. Na segunda parte do versículo a pergunta é outra: ”Que vantagem tem o pobre em saber enfrentar a vida?” Ora, acredito que muitas. Este aprendiz de sábio será mais feliz! Ou o que é que não entendi?

A versão de Almeida já se compara a da Bíblia de Jerusalém. Somos instados a comparar “o sábio”, “o néscio” e o “pobre que sabe andar perante os vivos.

 

Seria no verso 6:9 que encontraríamos a referência mais aguda do “pobre com ares de rico?

Bíblia de Jerusalém: “Mais vale o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Também isso é vaidade e correr atrás do vento!”

Nova Tradução na linguagem de hoje: “Isso também é ilusão, é correr atrás do vento. É muito melhor ficar satisfeito com o que se tem do que estar sempre querendo mais.”

Almeida: “Melhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da cobiça; também isto é vaidade e correr atrás do vento.”

As expressões “mais vale o que vêem os olhos…” e “melhor é a vista dos olhos” não estariam indicando a ilusão do pobre apresentando-se como abastado?

Já a versão da NTLH foge desta linha e apresenta um ensinamento que já temos repetido:

É muito melhor ficar satisfeito com o que se tem do que estar sempre querendo mais.

Comparem:

Lao TséSer rico é saber contentar-se com o que tem

Nilton Bonder: “Quem é rico? Aquele que se satisfaz com o que é e tem

 

Ecl 6:10 O que já foi, o nome já foi pronunciado, e sabe-se o que é o homem; e que não pode contestar ao que é mais forte do que ele. A Bíblia de Jerusalém faz uma referência aos versículos 1:9-11: “9 – O que foi será, o que sucedeu, sucederá: nada há de novo debaixo do sol! 10 – Mesmo que se afirmasse:”Olha, isto é novo!”, eis que já sucedeu em outros tempos muito antes de nós. 11 – Não há memória dos antepassados, e também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros.”

Daí meu entendimento de que o Pregador, após tantas situações incompreensíveis para si mesmo, tenha voltado, inconsolado, à sua tese de que estas coisas se repetem ao longo da história e que o homem não dispõe de recursos para modificá-las. A versão da NTLH parece ser mais explícita na afirmação de um destino pré-definido para cada ser humano: “10 Tudo o que se passa neste mundo já foi resolvido há muito tempo. Antes de uma pessoa nascer, já está decidido o que vai acontecer com ela. E nós sabemos que não podemos discutir com quem é mais forte do que a gente.

Logo, teremos que falar alguma coisa sobre este controverso assunto do livre arbítrio. Se tiverem coragem, dêem uma olhada na Wikipédia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Livre-arb%C3%ADtrio

 Coisa linda que atende todos os gostos. Logo de cara:

A expressão costuma ter conotações objetivistas e subjetivistas. No primeiro caso indicam que a realização de uma ação por um agente não é completamente condicionada por fatores antecedentes. No segundo caso indicam a percepção que o agente tem que sua ação originou-se na sua vontade. Tal percepção é chamada algumas vezes de “experiência da liberdade”.

Saberão que este conceito tem implicações religiosas, morais, psicológicas, científicas… Aprenderão o que é Determinismo mecanicista, Determinismo Teológico, Libertarianismo, Incompatibilismo…

Brindo-os com “palhas” de dois figurões:

Spinoza compara a crença humana no livre-arbítrio a uma pedra pensando que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Ele diz: “as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições”; “não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito”; “os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar” (respectivamente Spinoza, Ética, livro 3, escólio da proposição 2; livro 2, proposição 48; apêndice do livro 1).

 

Schopenhauer, concorrendo com Spinoza, escreve: “cada um acredita de si mesmo a priori que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver […]. Mas a posteriori, através da experiência, ele descobre, para seu espanto, que não é livre, mas sujeito à necessidade, que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta, e que do início ao fim da sua vida ele deve conduzir o mesmo caráter o qual ele mesmo condena.”

E que tal Paulo de Tarso:

Paulo de Tarso, na “Epístola aos Romanos” 9:21, põe a questão da responsabilidade moral da seguinte maneira: “Porventura não é o oleiro senhor do barro para poder fazer da mesma massa um vaso para uso honroso e outro para uso vil?” Nessa visão os indivíduos podem ser desonrados pelos seus atos mesmo embora esses atos sejam, no final das contas, completamente determinados por Deus

A Cabala, transmitindo o mais básicos de seus ensinamentos em O LIVRO ABERTO, dedica um capítulo (13º – A Liberdade escolhida) ao assunto e de lá pescamos isto:

Se nascemos com todos os parâmetros dados adiantadamente: nossas emoções, sensações, caráter, cada pessoa “sob seu signo”, assim por dizer, e visto que é dito: “Não existe sequer uma folha de grama abaixo que não tenha um anjo acima que a afete e diga: cresça!”, podemos então sequer falar de algum tipo de escolha?

Se toda a natureza à nossa volta, todas as mudanças cosmológicas, as mudanças sociais, não dependem de nenhum de nós, existe alguma liberdade de escolha?

A vida nos é dada, independentemente de nosso desejo, não na época que escolhemos, em condições iniciais que não definimos. Surgimos numa família que não escolhemos, numa sociedade que não escolhemos… assim, o que podemos escolher então?

Se todos esses parâmetros são predefinidos, sobre qual liberdade de escolha podemos falar? Existe uma certa medida de liberdade de escolha? E se não existe, sobre o que então devemos falar, escrever, ou mesmo pensar? Nós apenas seguimos ordens e desempenhamos nosso fim por meio das leis da natureza? E se é assim, é impossível entender com qual propósito existe o mundo que nos cerca?

O Rabino Yehuda Ashlag mostra neste ensaio, que existe um componente da realidade que está dentro de nós, que através dele podemos afetar tudo mais, se soubermos como alcançá-lo e controlá-lo. Saberemos então precisamente como o alterarmos para melhor ou para pior, iremos parar de ser completamente dependentes da natureza.

Pg. 57

No último parágrafo é indicado que existe um meio de nos livrarmos de nossa total dependência do mundo à nossa volta. Eu até gostaria de fazer um resumo de como chegar a esta nova situação, mas seria totalmente desastroso. Está intimamente ligada à correção pessoal, que não dá para ser condensado em poucas palavras. Por isto, o jeito é ler Michael Laitman – o livro em PDF está disponível na Internet.

 

Chegou a hora de falarmos sobre o último versículo da porção bíblica em estudo – 6:11. Falarmos? Deixe que ele fale por ele mesmo:

 

Quanto mais palavras, tanto mais vaidade. Que aproveita o homem?

ESPERO CONTINUAR