Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Alegria versus Tristeza

Eclesiastes:

2 – Mais vale visitar a casa em luto que a casa em festa, porque tal é o desfecho de cada homem; quem está vivo deveria refletir sobre o fato.

2 – Melhor é à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.

2   É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde há festa, pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso.

 

3 – Mais vale sofrer que rir, pois, enquanto o semblante se entristece, o coração se alivia.

3   Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração.

3   A tristeza é melhor do que o riso; pois a tristeza faz o rosto ficar abatido, mas torna o coração compreensivo.

 

4 – O coração do sábio está na casa em luto, o coração do néscio está na casa em festa.

4   O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria.

4   Quem só pensa em se divertir é tolo; quem é sábio pensa também na morte.

Versões: Bíblia de Jerusalém, Almeida revista e atualizada, Nova tradução na linguagem de hoje.

Não me lembro quando nem onde, mas já deixei anotado neste Blog que muito me marcou um ensinamento quando me preparava para minha admissão na Igreja Metodista de Ribeirão Preto, sob a orientação do Rev. Benedito Quintanilha. Duas verdades deveriam ser consideradas diariamente: 1) que sou eterno; 2) que poderia falecer a qualquer momento. Não há dúvida que este aprendizado está perfeitamente de acordo com o que recomenda o livro de Eclesiastes. Ainda que sejamos eternos (ou exatamente porque o somos) devemos pensar com seriedade que nossa vida, isto é, a nossa estada neste estágio terrestre é de curta duração, mais ainda, não temos a mínima possibilidade de gerenciar a essa duração. O “ir à casa em luto” tem uma finalidade marcante: refletir. Quem somos, para onde iremos, por que viemos, quanto tempo nos resta…

Quando estamos em uma festa, costumamos pensar sobre estas coisas? Estamos em um casamento (coisa rara, hoje em dia!), bebemos algum vinho (que alegra o coração – Salmo 104:15), vamos lembrar à audiência que amanhã poderemos estar prestando conta do que fizemos aqui nesta Terra? Fora de propósito.

Não é assim na casa em luto. Todos circunspetos – o respeito (ou medo) do desconhecido nos deixa assim. Quem partiu sempre será, nestes momentos, excelente pessoa (ou pelo menos, sempre foram as melhores as suas intenções) – é por que sabemos intimamente que deveria ser assim e, quando chegar a nossa vez, desejamos que assim pensem.

 

Mais vale sofrer que rir” – O verso 3 continua no mesmo diapasão, apenas substituindo o caso extremo da morte pelo sofrimento e afirma ainda que este “faz melhor o coração”.

Sabia que a tristeza pode estar classificada  em pelo menos duas grandes categorias? Escutem o apóstolo Paulo:

2 Coríntios
7.10   Pois a tristeza que é usada por Deus produz o arrependimento que leva à salvação; e nisso não há motivo para alguém ficar triste. Mas as tristezas deste mundo produzem a morte.

Nós, criados sob qualquer um dos ramo do cristianismo, muitas vezes entendemos que do Bom Deus só podemos esperar coisas boas, agradáveis, que nos deixam felizes. Quando somos machucados, feridos, magoados, entristecidos, culpamos o danado do diabo. Mas atentem para o ensino bíblico: Deus está sempre utilizando as tristezas esperando que nos arrependamos de algum procedimento egoísta. Correções é coisa a que devemos nos submeter cotidianamente.

O que seriam as “tristezas deste mundo”? Não seriam exatamente aquelas que não nos causam “arrependimento”, “correção”? Então o problema está em nós: se o acontecimento nos magoou, nos feriu e não conseguimos tirar dele a lição do “Papai do Céu”, estamos nos afastando d’ELE, pois, “magoados” nos afastamos, às vezes odiamos, o nosso próximo, que também é filho de Deus.

 

Por consequência “O coração do sábio está na casa em luto, o coração do néscio está na casa em festa”. É o mais prudente.

 

A leitura desavisada dos versos acima pode levar ao entendimento de que o aspirante à espiritualidade é uma pessoa sisuda, circunspeta, triste. Creio que não. Deve ter muita consideração pelas casas em luto, pensar diuturnamente a respeito do que chamamos morte e procurar conhecer o que isto significa para si mesmo. Mas não precisa afastar-se dos ambientes alegres, festivos, mesmo porque o reconhecer as “bênçãos” recebidas desde a hora em que nos levantamos até o momento em que nos recolhemos ao leito, é, necessariamente, uma atitude de alegria.

 

Seria adequado, talvez, traçar um paralelo entre “Alegria-Tristeza” e “Felicidade-Infelicidade”. Entendo que esta última dupla se refira a algo mais profundo, arraigado em nosso ser, em nossa alma. As duas primeiras seriam manifestações tanto daquelas como de sentimentos passageiros ocasionados, via de regra, por fatores externos.  Sabendo-se “filho de Deus” como insiste em ensinar a Seicho-No-Ie, a Felicidade deveria se constituir em uma espécie de armadura para o ser humano. Permitir, este ser humano, que a Tristeza, por qualquer evento que lhe atinja, direta ou indiretamente, permaneça em seu íntimo por algum tempo sem a necessária explicação ou, sendo o caso, sem a correção ou arrependimento, pode vir a incrustar-se naquela armadura e causar a Infelicidade – o que significa o afastamento do Criador. Por exemplo, faleceu um ente querido e você pode sim sentir-se muito triste, por algum tempo, pois a ausência repentina daquele lhe causa dor – mas trata-se, queira ou não, de fato corriqueiro e natural e a aguda tristeza da ocasião deverá dar lugar à saudade quase gostosa dos melhores momentos vividos juntos. Outro exemplo: você teve uma difícil altercação com seu filho e ouviu dele muitas “inverdades” que o machucaram profundamente – a tristeza vem pesada e por algumas horas, ou alguns dias, você vai curti-la, mas convém rever, no seu íntimo, o acontecimento em si e perquirir se todo o seu desempenho foi adequado e oportuno; se no que ouviu havia algum “mal-entendido”, presente ou passado, que pudesse ser esclarecido; se havia um laivo de verdade na mágoa do filho, ainda que, à época sua decisão baseara-se na melhor das intenções; o que, de sua parte, é possível fazer para corrigir o mal-estar.

O melhor momento de alegria é quando esta brota da alma, isto é, quando a felicidade extravasa e se manifesta ao mundo. Que coisa mais gostosas quando você passa por alguém, mesmo desconhecido, e este abre-se em um sorriso que ilumina o rosto e diz com vivacidade “Bom dia!”. Esta é a Alegria que deveria estar conosco, sempre.

Mas, ainda que os olhos vertam lagrimas, a Felicidade deveria estar conosco, pois “todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus”.  Lembrem-se também do Salmo 23: ”Ainda que eu ande pelo vale da morte, não temerei mal algum…”

Porém é perigosa a alegria de “quem só pensa em se divertir”. È tolice pretender mascarar a ansiedade da alma que não está em harmonia com seu próximo, com seu Criador. Abismem-se:

Hoje, a felicidade é uma obrigação de mercado. Ser deprimido não é mais “comercial”. A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória. É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Esta “felicidade” infantil da mídia se dá num mundo cheio de tragédias sem solução, como uma “disneylândia” cercada de homens-bomba.

A felicidade hoje é “não” ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não sofrer pelas desgraças, não olhar os meninos malabaristas no sinal, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a proposta que se esconde sob a ideia de felicidade é ser um clone de si mesmo, um andróide sem sentimentos.

A FELICIDADE É UMA OBRIGAÇÃO DO MERCADO – JABOR, Arnaldo

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-felicidade-e-uma-obrigacao-de-mercado,589550,0.htm

 

Já falei demais. Prometo, nos próximos dias, postar alguns artigos, pensamentos, versículos bíblicos, sob o tema Alegria versus Tristeza”. Só para finalizar esta primeira parte, um ensinamento de Sêneca (que já entrou no Sermão…VIII):

A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que não és ainda um sábio. O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os deuses. Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, não buscas senão o prazer, fica sabendo que tão longe estás da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falharás o alvo se pensas vir a alcançá-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso será o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da angústia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfação e prazer, são apenas motivos para futuras dores.

Toda a gente, repito, tende para um objetivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfação das ambições, na multidão assídua dos clientes; outros, na posse de uma amante; outros, enfim, na inútil vanglória dos estudos liberais e de um culto improfícuo das letras. Toda esta gente se deixa iludir pelo que não passa de falacioso e breve contentamento, tal como a embriaguez, que paga pela louca satisfação de um momento o tédio de horas infindáveis, tal como os aplausos de uma multidão entusiasmada – aplausos que se ganham e se pagam à custa de enormes angústias! Pensa bem, portanto, no que te digo: o resultado da sabedoria é a obtenção de uma alegria inalterável. A alma do sábio é semelhante à do mundo supralunar: uma perpétua serenidade. Aqui tens mais um motivo para desejares a sabedoria: alcançar um estado a que nunca falta a alegria. Uma alegria assim só pode provir da consciência das próprias virtudes: apenas o homem forte, o homem justo, o homem moderado pode ter alegria.

Sêneca, in ‘Cartas a Lucílio’

 

ESPERO CONTINUAR

 

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