Ainda sou Cristão! Recebi um piedoso ‘email’ esta semana e nem sabia se deveria respondê-lo. Por algum motivo catei um livro em minha minúscula biblioteca e e lá fui para este texto de Rohden.  Não há como não compartilhá-lo.

Nenhum judeu, nenhum muçulmano, nenhum chinês, nenhum persa estará disposto a aceitar esta afirmação categórica de Jesus, no sentido em que certos cristãos costumam tomá-la. A maioria da humanidade não pertence ao cristianismo eclesiástico, organizado. Reconhecem como seus chefes espirituais a Moisés, Maomé, Krishna, Buda, Zaratustra e outros.

Afirmação categórica como a que encima este capítulo, quando tomada no sentido costumeiro, desune a humanidade, criando ódios sectários e guerras de religião.

Entretanto, a culpa desses males não cabe ao inspirado autor destas palavras, mas à falsa interpretação dos que se dizem seus discípulos, sem possuírem o espírito do grande iluminado.

Todo o mal está na confusão de dois elementos distintos: Jesus e Cristo.

O Divino Logos, ou Verbo, se uniu inseparavelmente ao humano Jesus, mas essa união não aniquilou a distinção entre os dois elementos, divino e humano.

O eterno Logos, depois de se unir a Jesus, filho de Maria, chama-se o “Ungido”, ou, em grego, o “Christós”.

Nenhum homem que não receba essa mesma unção (“chrisma”) do espírito de Deus pode ir ao Pai. Ninguém vai a Deus a não ser através da unção do espírito de Deus. A nossa natureza humana deve ser tão penetrada e permeada do espírito de Deus que possamos dizer com Jesus Cristo: “Eu e o Pai somos um”.

É nisso que consiste a verdadeira redenção e salvação do homem na realização dessa suprema cristificação.

Por espaço de diversos anos fui discípulo de um grande mestre espiritual oriental, e nunca ouvi de lábios cristãos maiores apoteoses ao Cristo do que da parte desse gentio. Nas aulas de filosofia e nas funções litúrgicas, esse hindu só falava no Cristo, e o volume de 101 orações por ele compostas só falam do Cristo como único caminho à comunhão com Deus. Nenhuma estranheza nos causava a nós, discípulos do brâmane hindu, essa sua atitude essencialmente cristã, porque todos nós sabíamos que pela palavra “Cristo” não entendia ele algum indivíduo humano, fundador duma determinada religião ou igreja: não entendia a Jesus de Nazaré, filho da Virgem Maria, mas sim o eterno Logos, o espírito de Deus de que fala o princípio do quarto Evangelho, o espírito eterno, absoluto, infinito, que se fez carne e habitou – e continua a habitar – em nós. “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”, “ Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estou eu no meio deles”.

Em tempo algum da história da humanidade deixou o divino Logos de habitar em nós; mas nem sempre encontra veículos humanos assaz receptivos e puros para se manifestar com tamanho esplendor como fez na pessoa de Jesus de Nazaré, “cheio de graça e de verdade”.

O divino Logos encarnou-se em Moisés, em Isaías, em Jó, em Krishna, em Buda, em Zaratustra, em Maomé, em Gandhi, e muitos outros veículos humanos. Quando colocamos uma luz sob um recipiente opaco, nada percebemos dessa luz, embora ela esteja presente. Se lhe dermos um invólucro translúcido, percebemos a sua presença de um modo indireto. Mas se a essa mesma luz dermos um cristal transparente, a veremos em toda a sua claridade.

Em Jesus de Nazaré encontrou o divino Logos a mais perfeita expressão até hoje conhecida aqui na Terra, e por isso nós cultuamos o Cristo em Jesus como o apogeu das revelações da Divindade.

Grande parte da humanidade não consegue ainda compreender a verdade da imanência de Deus no mundo, e a imanência do Cristo no homem. É bem mais fácil, para o homem comum, compreender a transcendência de Deus e do Cristo – o Deus para além do mundo, e o Cristo fora do homem – do que a sua imanência no mundo e no homem. Muitos transcendentalistas receiam o conceito da imanência porque lhes parece destruir a transcendência. Entretanto, laboram em erro! A afirmação da imanência não nega a transcendência: pelo contrário, esta inclui aquela, e aquela inclui esta. O Deus que está para além do mundo está também dentro do mundo e o Cristo que estava e está em Jesus está também em cada um de nós, uma vez que ele “é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo”. O Cristo interno é o Cristo externo, assim como o Deus imanente é o Deus transcendente.

Mas a compreensão dessa verdade supõe notável maturidade espiritual, que nem todos os homens possuem ainda.

As formas visíveis do invisível Logos sucedem-se, no tempo e no espaço, percorrendo diversos graus de perfeição ou imperfeição, consoante o maior ou menor grau de receptividade de seus veículos humanos temporários. Mas o eterno espírito de Deus, o Logos, paira acima dessas vicissitudes múltiplas e multiformes – assim como as ondas na superfície do mar se sucedem em formas várias sem que o oceano deixe de ser sempre um e o mesmo, assim como a vida universal do cosmos se concretiza e visibiliza sem cessar em milhares e milhões de organismos vivos individuais, sem aumentarem nem diminuírem a Vida em si mesma.

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Em véspera de sua morte, dirigindo-se ao Pai eterno, diz Jesus: “Glorifica-me, ó Pai, com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito!”.

Quem tinha essa glória antes da creação do mundo?

Certamente não o Jesus humano, que não existia ainda, mas sim o Cristo divino, que estava com Deus, e encarnou no filho de Maria.

“Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” Abraão, Moisés, Davi e muitos outros foram ao Pai por meio do Cristo, muito antes que esse Cristo se tivesse revelado em Jesus. A redenção vem do Cristo. “Eu sei que meu redentor vive!” – exclamou Jó, no meio dos seus sofrimentos, professando a fé no Cristo Redentor, milênios antes do nascimento de Jesus.

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O nosso tradicional dualismo ocidental opõe barreira à evolução dessa consciência do nosso Cristo interno, imanente. Para a maioria dos cristãos, o Cristo é apenas aquele homem que, há quase dois mil anos viveu em terras longínquas, e no qual se deve crer, sem jamais poder experimentá-lo vitalmente, aqui na Terra, assim como Paulo de Tarso o vivia quando exclamava: “Já não vivo eu – o Cristo é que vive em mim!”

Seria grotesco supor que Paulo acreditasse que a pessoa humana de Jesus tivesse tomado posse dele, de maneira que nele houvesse uma duplicata de personalidades, uma chamada Paulo e outra chamada Jesus. O que o apóstolo quer dizer é que nele acordou o Cristo que nele estivera dormente tantos anos, o mesmo Cristo que em Jesus estava gloriosamente operante.

É, pois, necessário que todo homem que queira ir ao Pai acorde em si o Cristo e o faça soberano da sua vida, porque a todos aqueles “que o recebem dá-lhes ele o poder de se tornarem filhos de Deus”.

“Ninguém vem ao Pai senão por mim.”

Ninguém alcança a redenção, o reino dos céus, a não ser que nasça de novo pelo espírito.

ASSIM DIZIA O MESTRE, ROHDEN, Huberto, 4ª edição, 1994, Editora Martin Claret Ltda., São Paulo, pg.s 13 a 17.

 

 

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