Aproveitem mais este texto de Rohden, comentando Theilhard de Chardin.

            Este, talvez, na obra de Teilhard de Chardin, o ponto contra o qual gregos e troianos assestaram as suas baterias mais pesadas.

Através de toda a sua obra científico-filosófica, sobretudo em O Fenômeno Humano e no Meio Divino, afirma Teilhard que o “ponto Ômega” – como ele intitula a suprema convergência do processo evolutivo cósmico, é o Logos, o Cristo Universal, o Cristo Cósmico. Afirma que o processo, que principia na hilosfera, passa pela biosfera e noosfera, culmina na logosfera, no Logos, palavra grega para Razão, e que na Vulgata latina aparece como sendo o Verbo. O texto grego do primeiro século diz: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus (literalmente: rumo a Deus, prós tón Theón), e o logos era Deus. Tudo foi feito pelo Logos, e nada do que foi feito foi feito sem ele… E o Logos se fez carne, e ergueu o seu habitáculo em nós”.

Assim escreve João, o grande vidente místico entre os doze discípulos do Nazareno.

Paulo de Tarso, outro vidente crístico do primeiro século, retoma o fio da visão crística e, sobretudo nas suas profundas epístolas aos colossenses, efésios e filipenses – cartas escritas na solidão da prisão romana -, completa a vidência de João, dizendo que o logos, o Cristo Cósmico, não é só o ponto de partida da creação cósmica, mas também o termo de chegada da evolução do cosmos, como também o meio, o ambiente, no qual se processa todo esse drama multimilenar do Universo: “Por ele, nele e para ele foram feitas todas as coisas”; “Ele é anterior ao Universo. É nele que o Universo subsiste… É ele a imagem visível do Deus invisível, o Primogênito de todas as creaturas, de todas as coisas visíveis e invisíveis – tudo foi creado por ele e para ele… Ele ocupa a primazia de todas as coisas, porque nele reside a plenitude (em grego pléroma)…Ele é tudo em todos (pánta én pásin)”.

João e Paulo se referem ao Logos, ao Cristo Cósmico, anterior à sua homificação ou encarnação. Não atribuem estas grandezas a Jesus de Nazaré, o filho de Maria, o carpinteiro galileu, que não é senão o veículo humano do Cristo divino. Verdade é que o Cristo Cósmico é, na sua essência, idêntico ao Cristo Telúrico, mas a sua existencialidade é totalmente diversa. Afirmar que Jesus, o Nazareno, seja o creador dos mundos e o ponto final da evolução cósmica é manifestamente absurdo.

Nas obras de Teilhard de Chardin não se trata de Jesus Nazareno como ponto Ômega; trata-se do Logos do Cristo Cósmico; não do Verbo Encarnado, mas sim do Verbo Encarnando; não do Cristo-homem, mas do Cristo-Deus. Embora este seja essencialmente idêntico àquele, contudo o modo de ser do Cristo Telúrico é totalmente diferente do Cristo Cósmico. O Cristo Cósmico, escreve Paulo aos filipenses, “subsistindo na forma de Deus, não julgou dever aferrar-se a essa divina igualdade, mas esvaziou-se[1] a si mesmo, assumindo forma de servo e tornando-se semelhante aos homens e aparecendo como homem no exterior”.

As nossas teologias eclesiásticas nunca trataram seriamente do conceito do Cristo Cósmico, embora essa idéia esteja claramente contida nos Evangelhos. “’Que vos parece do Cristo? Quem é ele?”, pergunta Jesus aos chefes da sinagoga; e eles respondem: “É filho de Davi”, confundindo, como seus colegas do século vinte, a pessoa de Jesus com o Cristo Cósmico. Jesus recusa aceitar a resposta dos teólogos da época, replicando: “Se o Cristo é filho de Davi, como é que o próprio Davi, em espírito, lhe chama seu senhor?”

Em outra ocasião afirma o Cristo: “Antes que Abraão fosse feito, eu sou”. Eu, quem? Não eu, Jesus, mas eu, o Cristo, porque Jesus apareceu cerca de 2.000 anos depois de Abraão.

Na Santa Ceia se despede Jesus do mundo e dos homens com estas palavras: “Pai, é chegada a hora! Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti antes que o mundo existisse”. Quem tinha essa glória em Deus, antes da creação do mundo? Jesus de Nazaré? Certamente não. Mas sim o Cristo Cósmico, que “no princípio estava com Deus e pelo qual foram feitas todas as coisas”.

Teilhard de Chardin não faz outra coisa senão voltar ao Evangelho do Cristo, grandemente eclipsado pelas teologias eclesiásticas, que, desde o quarto século, substituíram a mensagem do Cristo pelas teologias dos cristãos. Por esta razão se recusava a Mahatma Gandhi a aceitar o cristianismo dos missionários ocidentais e respondia a todos eles: “Aceito o Cristo e seu Evangelho – não aceito o vosso cristianismo”.

E Albert Schweitzer escreveu “Quem é vacinado com o soro das nossas teologias cristãs está imunizado contra o espírito do Cristo”.

É natural que Teilhard, que passou vinte anos em relativa solidão e silêncio, na China e em outros países do Oriente, se tenha tornado grandemente receptivo para as invisíveis irradiações da Verdade Crística, geralmente abafada pelos dogmas teológicos.

O ponto Ômega da evolução cósmica é o Cristo Cósmico, que é também o Cristo-homem cosmificado, após a ressurreição e ascensão. Nesse estado, recosmificado, é o Cristo chamado o “espírito cósmico” ou “espírito santo”. Cósmico e santo são sinônimos ou homônimos. Santo quer dizer universal, total, integral, cósmico, univérsico.[2]

Quem mais se revoltou contra a visão do Cristo como ponto culminante da evolução cósmica foram certos cientistas, que se encheram de estranheza que um homem com pretensões de cientista fizesse convergir o processo do cosmos num obscuro carpinteiro que, há quase 2.000 anos, nasceu num estábulo do lado oriental do Mediterrâneo, viveu incógnito durante trinta anos numa oficina de carpinteiro, andou três anos espalhando a mensagem do “reino de Deus”, depois foi crucificado pelas autoridades civil e religiosa do seu país – e esse homem seria o zênite da evolução do Universo? Será que o cosmos, com essas miríades de estrelas e sóis, de galáxias e nebulosas, em explosão e implosão, expansão e contração, será que ele sabe da existência de um grãozinho de areia – nosso planeta Terra? E será que a imensidade do cosmos tomou nota da existência de um homem que viveu alguns decênios nesse pequenino planeta?

Se se tratasse do homem Jesus, seria totalmente inaceitável a ideologia de Teilhard.

Enquanto nossas teologias não modificarem profundamente a sua atitude em face do Cristo, obras como a de Teilhard serão sempre enigmas insolúveis.

(A EXPERIÊNCIA CÓSMICA, ROHDEN, Huberto, Editora Martin Claret, 1995, pg.92)


[1]    As palavras de Paulo, no texto grego, são cuidadosamente escolhidas. Diz que o Cristo Cósmico, que estava “na forma de Deus”, na plenitude (pléroma), resolveu entrar na Vacuidade (kénoma), evacuando-se (ekénosen) dos esplendores do Cristo Cósmico, e revestindo-se das roupagens humildes do Cristo Jesus, na forma de servo, de homem, até de vítima. Não deixou de ser o mesmo Logos creador, o Alfa do início de todas as coisas creadas, mas ocultou a sua natureza cósmica, de Primogênito de todas as creaturas, e apareceu como creatura humana em Jesus de Nazaré. O Verbo-não-encarnado se tornou o Verbo encarnado; o Cristo-cosmos apareceu como o Cristo-homem.

Quando o Cristo-homem deixou a Terra, voltou a ser o Cristo-cosmos, com a diferença de ser agora o Cristo-homem-Deus, o Cristo-homem recosmificado. Para todo o sempre é o Cristo Homem Cósmico, o “Filho do Homem”.

[2]    Cf. Whole (total) e holy (santo). Idem heil (total, inteiro) e heiling(santo). Em Alemão, o Salvador é chamado Heiland, que quer dizer integrador, restituidor de totalidade, que é santidade.