APRECIEM ESTE COMENTÁRIA DE ROHDEN A RESPEITO DE SPINOZA. 

   Preocupar-se com a sua salvação individual é, para Spinoza, prova de falta de confiança na retidão ou justiça do Universo; ele afina inteiramente pelo pensamento do carpinteiro –filósofo – profeta de Nazaré: “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça – e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo”[i]. O “reino de Deus e sua justiça” é a completa integração do querer humano no querer divino, a definitiva integração do Ego no Cosmo, a concentricidade da vontade humana com a vontade divina (“seja feita a tua vontade. . .”); uma vez realizada essa sintonização “todas as outras coisas” já não nos devem preocupar, porque elas nos “serão dadas de acréscimo”, isto é, virão infalivelmente como consequências lógicas e inevitáveis dessa premissa ética.

Ser bom é comigo.

Tornar-me feliz é com Deus.

            Está em meu poder o ser-bom – o ser-feliz é um dom de Deus inseparavelmente unido ao meu ser-bom.

O reverso da medalha do ser-bom chama-se ser-feliz (céu).

O reverso da medalha de ser-mau é ser-infeliz (inferno).

Mas só o anverso é que é comigo – o reverso é com Deus.

Não é da minha conta salvar-me – é da minha conta ser-bom.

Por isso, Spinoza manda abster-se de qualquer especulação meramente intelectualista-analítica sobre o que  e o  como da vida futura.

Basta que o homem tenha certeza de duas coisa, uma objetiva, outra subjetiva: 1) que o mundo de  deus é um cosmo, e não um caos, e, como um cosmo, o universo age com absoluta retidão e imparcialidade; 2) que o homem procure invariavelmente estar em perfeita harmonia com essa eterna e infalível ordem cósmica do universo, ou seja, com a vontade de Deus.

Sobre a base destas duas certezas ao seu alcance pode o homem viver tranqüilo e feliz, sem ansiedades nem dúvidas internas.

Como realizar essa sintonização entre o Eu humano e o Tu divino?

Pelo amor, em seu aspecto vertical (Deus) e horizontal (homem).

O amor é a lei básica do cosmo. No universo tudo é cooperação, que supõe diversidade. Não haveria possibilidade de integração se não houvesse partes várias e individualmente diferenciadas. Para que essa integração seja harmonia, e não monotonia, requer-se a existência da diversidade dos indivíduos.

Unidade sem diversidade seria monotonia.

Diversidade sem unidade seria caos.

Unidade na diversidade é harmonia.

Spinoza é essencialmente o filósofo da harmonia cósmica do universo, como também da harmonia cósmica (ética) da humanidade. Essa mesma harmonia, resultante da unidade na diversidade, reina tanto no macrocosmo como no microcosmo.

ROHDEN, Huberto (1893 – 1981) – FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA: O drama milenar do homem em busca da verdade integral, Copyright Editora Martin Claret, 1981, Rumo ao Monismo Absoluto, Benedito Spinoza (1632 – 1677), 6 – Vida após a morte, pg.s 79 a 80.

 


[i] Mateus 6:33.

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