Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

 

ANALISA, MAS ACEITA…

            Eclesiastes 7:

13 Observa a obra de Deus: quem poderá endireitar o que ele entortou?

14 Em tempo de prosperidade desfruta, em tempo de adversidade reflete: Deus criou a um e a outro, para que o homem não possa investigar seu destino.

15 Já vi de tudo em minha vida cheia de ilusões: gente honrada que fracassa por sua honradez, gente malvada que prospera por sua malvadez.

Segundo a classificação da Bíblia de Jerusalém, estes três versículos são introduzidos com a assertiva: “Tudo o que acontece deve ser aceito, sem procurar uma explicação”.

A afirmação do verso 13 traz alguma verdade, mas foi exposta de maneira incorreta, a meu ver.

A verdade está em reconhecer a suprema autoridade do Criador para criar e definir como as coisas devem ser. O bicho homem tem que se contentar com sua insignificância e aceitar o que a Natureza oferece, pois não dispõe de conhecimento ou poder para mudar nada. Ou melhor, pode modificar, com largo sacrifício, a si mesmo – para chegar a equivalência de forma com o Criador, dizem os Cabalistas.

Contudo, a expressão: “quem poderá endireitar o que ele entortou?” não foi muito feliz. “Entortar” passa a ideia de fazer algo errado, algo fora do lugar, sem sentido. O Criador do Universo poderia ter cometido algum engano? O Criador do corpo humano, com milhões de células que se organizam em órgãos, sistemas etc., poderia descuidar da sapiência em alguns de seus pensamentos?

O que possa eventualmente nos parecer “torto”, só o é pela deficiência de nosso entendimento.

Assim, “observa” a obra criada. Se, por acaso, alguma coisa não lhe parecer adequada com o seu melhor entendimento, tenha certeza de que sua compreensão não foi completa ou adequada.

 

Mas espera um momento ilustre articulador: analisando somente esta afirmativa, isolada de seu contexto, não se estará cometendo um equívoco? O verso 13 está umbilicalmente associado ao verso 15 e o parágrafo 14 é a astuta conclusão, a prudente consideração sobre o que nos resta fazer.

Deveras, faz sentido considerar “o justo sendo penalizado enquanto o malvado é premiado” como um tronco torto, retorcido. E olha que estas coisas já aconteciam há mais de dois mil anos atrás, entre o culto e religioso povo judeu. Vejam só o que diz o profeta Jeremias (anos 600 AC):

Jeremias 12:

1  —Ó SENHOR Deus, se eu discutisse esse meu caso contigo, tu provarias que estás com a razão. Mas eu preciso te fazer algumas perguntas sobre a tua justiça. Por que os maus ficam ricos? Por que os desonestos conseguem sucesso?

2  Tu os plantas, e as suas raízes se firmam; eles crescem e produzem fruto. Vivem sempre falando bem de ti, mas na verdade não se importam contigo.

3  Mas tu, ó SENHOR, me conheces; tu vês o que estou fazendo e sabes como te amo. Ó SENHOR, arrasta essa gente como ovelhas para o matadouro; separa-os para o dia da matança.

4  Por quanto tempo a nossa terra ficará seca? Até quando o capim murchará em todos os pastos? Os animais e as aves estão morrendo por causa da maldade dos moradores da terra, que dizem: “Deus não vê o que estamos fazendo.”

Não. Não! Ele não está falando do nosso Brasil atual, Está se referindo a acontecimentos de sua época. É um profeta? É, e muito temente e amigo do Criador. Mas, como nós, pede-lhe “ arrasta essa gente como ovelhas para o matadouro; separa-os para o dia da matança.” Reflete aqui o pensamento dominante da “retribuição conforme o mérito”. Pensava da mesma maneira que o Salmista:

Salmo 73:

1  Na verdade, Deus é bom para o povo de Israel, ele é bom para aqueles que têm um coração puro.

2  Porém, quando vi que tudo ia bem para os orgulhosos e os maus, quase perdi a confiança em Deus porque fiquei com inveja deles.

3  Porém, quando vi que tudo ia bem para os orgulhosos e os maus, quase perdi a confiança em Deus porque fiquei com inveja deles.

4  Os maus não sofrem; eles são fortes e cheios de saúde.

5  Eles não sofrem como os outros sofrem, nem têm as aflições que os outros têm.

6  Por isso, usam o orgulho como se fosse um colar e a violência, como uma capa.

7  O coração deles está cheio de maldade, e a mente deles só vive fazendo planos perversos.

8  Eles gostam de caçoar e só falam de coisas más. São orgulhosos e fazem planos para explorar os outros.

9  Falam mal de Deus, que está no céu, e com orgulho dão ordens às pessoas aqui na terra.

10  Assim o povo de Deus vai atrás deles e crê no que eles dizem.

11  Eles afirmam: “Deus não vai saber disso; o Altíssimo não descobrirá nada!”

12  Os maus são assim: eles têm muito e ficam cada vez mais ricos.

13  Parece que não adiantou nada eu me conservar puro e ter as mãos limpas de pecado.

14  Pois tu, ó Deus, me tens feito sofrer o dia inteiro, e todas as manhãs me castigas.

15 ¶ Se eu tivesse falado como os maus, teria traído o teu povo.

16  Então eu me esforcei para entender essas coisas, mas isso era difícil demais para mim.

17  Porém, quando fui ao teu Templo, entendi o que acontecerá no fim com os maus.

18  Tu os pões em lugares onde eles escorregam e fazes com que caiam mortos.

19  Eles são destruídos num momento e têm um fim horrível.

20  Quando te levantas, Senhor, tu não lembras dos maus, pois eles são como um sonho que a gente esquece quando acorda de manhã.

21 O meu coração estava cheio de amargura, e eu fiquei revoltado.

22  Eu não podia compreender, ó Deus; era como um animal, sem entendimento.

23  No entanto, estou sempre contigo, e tu me seguras pela mão.

24  Tu me guias com os teus conselhos e no fim me receberás com honras.

25  No céu, eu só tenho a ti. E, se tenho a ti, que mais poderia querer na terra?

26  Ainda que a minha mente e o meu corpo enfraqueçam, Deus é a minha força, ele é tudo o que sempre preciso.

27  Os que se afastam de ti certamente morrerão, e tu destruirás os que são infiéis a ti.

28  Mas, quanto a mim, como é bom estar perto de Deus! Faço do SENHOR Deus o meu refúgio e anuncio tudo o que ele tem feito.

Os amigos de Jó pensavam da mesma forma:

Jó 34: (palavras de Eliú):

24  Quebranta os fortes, sem os inquirir, e põe outros em seu lugar.

25  Ele conhece, pois, as suas obras; de noite, os transtorna, e ficam moídos.

26  Ele os fere como a perversos, à vista de todos;

27  porque dele se desviaram, e não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,

28  e, assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos.

29  Se ele aquietar-se, quem o condenará? Se encobrir o rosto, quem o poderá contemplar, seja um povo, seja um homem?

Mas Jó, à vista de seu sofrimento, já não tinha tanta certeza desta ideia:

Jó 12:

10  A vida de todas as criaturas está na mão de Deus; é ele quem mantém todas as pessoas com vida.

11  Meus amigos, assim como os ouvidos julgam o valor das palavras, e o paladar prova os alimentos, assim escuto o que vocês dizem, mas só aceito aquilo que acho certo.

12  “Os velhos são sábios, pois a idade traz a compreensão.

13  No entanto, Deus é sábio e poderoso; ele tem inteligência e entendimento.

14  Ninguém pode reconstruir o que Deus derruba; e, se ele prende, ninguém pode soltar.

15  Quando Deus segura a chuva, vem a seca; quando deixa saírem as águas, há enchentes.

16  “Deus é forte e vitorioso; ele tem poder tanto sobre o enganado como sobre o enganador.

17  Ele tira das autoridades a sabedoria e faz com que os líderes percam o juízo.

18  Deus tira os reis dos seus tronos e os põe na prisão.

19  Deus afasta os sacerdotes do seu ofício; ele derruba os que estão no poder.

20  Deus faz calarem conselheiros de confiança e acaba com a sabedoria dos idosos.

21  Ele mostra desprezo pelas autoridades e acaba com a força dos poderosos.

22  Deus revela os segredos escondidos nas trevas e faz a luz brilhar na escuridão mais completa.

23  Deus dá às nações grandeza e poder, mas depois as derrota e destrói.

24  Ele faz com que os líderes das nações percam o juízo e os leva por desertos sem caminhos.

25  Eles andam na escuridão, às cegas, tropeçando como bêbados.

1 ¶ “Eu vi tudo isso com os meus próprios olhos; escutei tudo com os meus ouvidos e entendi.

(Um parêntesis malicioso: quando li o verso 12 acima fiquei de peito estufado, como pavão; mas o verso 20, pumba! furou o balão)

O Apóstolo Paulo faz referência a uma conhecida história do Velho Testamento e indica que também não se agarra muito à tese da “retribuição segundo o mérito”:

Romanos
9.10   E mais ainda: os dois filhos de Rebeca tinham o mesmo pai, o nosso antepassado Isaque.

9.11-12   Mas, para que a escolha de um deles fosse completamente de acordo com o plano de Deus, o próprio Deus disse a Rebeca: “O mais velho será dominado pelo mais moço.” Disse isso antes de eles nascerem e antes de fazerem qualquer coisa, boa ou má. Assim ficou confirmado que é de acordo com o seu plano que Deus escolhe aqueles que ele quer chamar, sem levar em conta o que eles tenham feito.

9.13   Como dizem as Escrituras Sagradas: “Eu escolhi Jacó, mas rejeitei Esaú.”

9.14   O que vamos dizer, então? Que Deus é injusto? De modo nenhum!

9.15   Pois ele disse a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu quiser; terei pena de quem eu deseja[i]r.”

9.16   Portanto, tudo isso depende não do que as pessoas querem ou fazem, mas somente da misericórdia de Deus.

A sabedoria da Cabala também se indispõe com a tese da “retribuição segundo o mérito” e até de forma mais radical – o que me deixa ligeiramente preocupado -, pois entendem que qualquer coisa que fizermos neste mundo da materialidade não tem influência alguma com a nossa espiritualidade.

Assim, vamos aceitar o conselho do Coélet e desfrutar os nossos bons momentos, sem esquecer, contudo, de agradecer quem os concedeu. Mas esteja atento: eles podem mudar – foi o que aconteceu com Jó, um servo fiel, em mais de uma ocasião. Se isto acontecer com você, lembre-se destas profecias:

Malaquias

3.3   Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata; eles trarão ao SENHOR justas ofertas.

Zacarias

13.9   E estes que sobrarem eu farei passar pelo fogo. Eu os purificarei como se purifica a prata e os refinarei como se refina o ouro. Aí eles orarão a mim, e eu os atenderei. Direi: ‘Vocês são o meu povo’, e eles responderão: ‘O SENHOR é o nosso Deus.’ ”

 

QUE O CRIADOR TENHA MISERICÓRDIA DE NÓS!

 

ESPERO CONTINUAR


[i] Ex. 33,19.