Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

 

Sabedoria e Sobrevivência

                Eclesiastes 7:

16 Não exageres tua honradez nem te tornes presunçoso com tua sabedoria: par que matar-se?

17 Não exageres tua malvadez e não sejas insensato: para que morrer antes do tempo?

18 Bom é agarrar-te a um sem deixar o outro, pois quem teme a Deus encontrará um e outro.

Vamos nos lembrar de como a Bíblia de Jerusalém se refere a esta porção da sabedoria:

Embora a vida e a morte estejam mal distribuídas (7:15), é inútil fazer esforços sobre-humanos (7:16-18).

E já que se menciona o verso 15, ei-lo:

15 Já vi de tudo em minha vida cheia de ilusões: gente honrada que fracassa por sua honradez, gente malvada que prospera por sua malvadez.

Gosto, como sempre, da Nova Tradução em Linguagem de Hoje e nela reproduzo este trecho, pois ajudarão na sua compreensão:

7.15   A minha vida tem sido uma ilusão, mas nela eu tenho visto de tudo. Há pessoas boas que morrem, e há pessoas más que continuam a viver a sua vida errada.

7.16   Por isso, não seja bom demais, nem sábio demais; por que você iria se destruir?

7.17   Mas também não seja mau demais, nem tolo demais; por que você iria morrer antes do tempo?

7.18   Evite tanto uma coisa como a outra. Se você temer a Deus, terá sucesso em tudo.

Algumas anotações sobre o verso 15:

1)      É repetido mais à frente no verso 8:14.

2)      As referências bíblicas, também a repeito do verso 15, levaram-me ao Salmo 73. Transcrevo alguns versos:

Salmos (Nova Tradução na Linguagem de Hoje)

73.4   Os maus não sofrem; eles são fortes e cheios de saúde.

73.5   Eles não sofrem como os outros sofrem, nem têm as aflições que os outros têm.

73.6   Por isso, usam o orgulho como se fosse um colar e a violência, como uma capa.

73.7   O coração deles está cheio de maldade, e a mente deles só vive fazendo planos perversos.

73.19   Eles são destruídos num momento e têm um fim horrível.

73.20   Quando te levantas, Senhor, tu não lembras dos maus, pois eles são como um sonho que a gente esquece quando acorda de manhã.

73.21   O meu coração estava cheio de amargura, e eu fiquei revoltado.

73.22   Eu não podia compreender, ó Deus; era como um animal, sem entendimento.

Os versos 4 a 7 parece que falam dos governantes de um Pais (e eu nunca saí, nem a passeio do Brasil) que conheço. Que tristeza! Os versos 19 a 22 exprimem o que o Salmista esperava para eles.

O verso 16 há anos me deixa encafifado, isto é, encontro dificuldade em saber como se pode ser sábio “de mais” ou sábio “de menos”. Então o jeito é pensar um pouco mais a respeito.

Reproduzo rodapé da .) BÍBLIA SAGRADA, Edição Ecumênica, Barsa:

Não sejas muito justo, isto é, não o sejas em excesso e como quem padece de escrúpulos. A tese de que a virtude está no justo equilíbrio do trabalho, descanso, estudo, divertimento, etc., é repetida várias vezes (3,12s; 5,17s etc.)

A frase “como quem padece de escrúpulos” deve ser entendida, a meu ver, como sem o necessário cuidado, sem zelo, com ausência de delicadeza moral.

O Apóstolo Paulo pregava coisa parecida:

Romanos 12.3   Por causa da bondade de Deus para comigo, me chamando para ser apóstolo, eu digo a todos vocês que não se achem melhores do que realmente são. Pelo contrário, pensem com humildade a respeito de vocês mesmos, e cada um julgue a si mesmo conforme a fé que Deus lhe deu.

A sabedoria própria deve ser precedida de uma autoanálise, considerando com muita atenção os argumentos e circunstâncias do outro para não se cometer injustiças.

As referências bíblicas insistem em nos levar a este provérbio:

Provérbios 25.16   Achaste mel? Come o que te basta; para que, porventura, não te fartes dele e o venhas a vomitar.

que significa comedimento, autocontrole; saber quando parar, calar-se.

Mateus 6.1   Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.

Sabedoria, justiça, com propósito de autopromoção, não é sabedoria, não é justiça. Está corrompida.

Mateus 23.25   Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!

Sabedoria e justiça estão no âmago das pessoas. Detalhes exteriores não costumam serem bons indicadores destas virtudes. Vejam o exagero que cometiam:

 O israelita, máxime o fariseu, vivia peado por uma inextricável teia de preceitos — eram, segundo Gamaliel, 248, além de 346 proibições! Acresciam a isto inumeráveis conselhos e diretivas orais, cada um dos quais afetava a consciência com maior ou menor gravidade.

http://ihgomes.wordpress.com/ (Conversão de São Paulo)

1 Coríntios 3.18   Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto[i] para se tornar sábio.

Mas aqui Paulo fala da sabedoria “deste século”, a sabedoria dos homens, não a sabedoria que é dada por Deus[ii]. Os dois versos seguintes mostram isto:

1 Coríntios:

3.19   Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles.

 3.20   E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos.

E, por fim, ensinamentos de Tiago:

Tiago 3.13   Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras.

Tiago 3.17   A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento.

Não seja malvado nem insensato, tolo, demais. É a recomendação do verso 17. Entendo que se pode esperar consenso a este propósito. Eu, pelo menos, até me esforço para ser só “tolo” ou “insensato”, isto é, eu me esforço para eliminar o “de mais”.

E lá vem o verso 18 “Evite tanto uma coisa como a outra”. Evitar o que? Ser “tolo demais” ou “insensato demais”? Eu preferiria apostar que recomenda: “não ser sábio demais” e “não ser malvado demais”. Ou seja, “a tese de que a virtude está no justo equilíbrio” proposta pelos tradutores da Bíblia Ecumênica tem respaldo.

Transcrevo o que foi dito no Sermão LXIII:

“E os versos 11 e 12?

11 – Boa é a sabedoria acompanhada de patrimônio: é de proveito àqueles que veem o sol.

12 – Estar ao abrigo da sabedoria é como estar ao abrigo do dinheiro, e a vantagem do saber é que a sabedoria preserva a vida de quem a possui.

Se entendermos que “sabedoria” é igual a “boas obras[iii], poderíamos desconfiar de um certo sarcasmo, pois aquela só é completa acompanhada de “patrimônio”, mais do que isto, “os bons ventos” estariam soprando pela ação do “Sábio”, não do Criador: contudo, o Coélet já afirmou em Ecl. 5:19 que a riqueza e o “poder” dela desfrutar é um dom de Deus; e lá no capítulo 2, verso 26 afirma, com todas as letras, a tese dominante: “Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, e o dê ao bom…” Então o melhor é apreciarmos os versos em si mesmos, esquecendo a “retribuição segundo as obras”.

Estamos diante de um “bem aventurado”, pois além de sabedoria foi-lhe concedido a riqueza. Está em uma situação tranquila (como a de Jó, provavelmente…). Por esta tranquilidade peço aguardarem um pouco mais, quando falaremos sobre os versos 16 a 18 deste capítulo de Eclesiastes e falaremos mais demoradamente sobre a sabedoria.”

Lembremos que as considerações acima se referiam a hipótese de que Coélet estava usando de sarcasmo com a tese de “retribuição segundo as obras” e fiz questão de reproduzi-los  por entender que a associação “sabedoria X patrimônio”, “sabedoria X riqueza” exemplifica regiamente os preceitos de “prudente sabedoria” e “prudente bondade”.  Concordam?

Os versos15 a 18 (e por que não os versos 11 e 12?) formam um bloco único a que dou o título “Sabedoria da Sobrevivência”. Para ilustrar, uma historinha:

A enfermeira estava preparando a inserção de um tubo para conexão intravenosa em um garoto de 15 anos. Sua mãe, sempre ao seu lado, recebe um telefonema. Após uns minutos vira-se para o guri e diz: “Seu pai pergunta se as enfermeiras que estão cuidando de você são bonitas?” O garotão olha de soslaio para a enfermeira segurando a agulha acima de seu braço, pronta para espetá-lo, e diz com confiança e em voz alta: “Diga-lhe que elas são absolutamente maravilhosas.”

Será que o piá expressava absoluta verdade ou, instintivamente, aplicava a sabedoria da qual nos fala o texto? Neste caso, não seria necessário observar uma “honradez exagerada” – fazê-lo seria “insensatez”.

ESPERO CONTINUAR


[i] Aurélio: estulto [Do lat. stultu.]  Adjetivo. 1.Tolo, néscio, imbecil, insensato, inepto; estúpido.

[ii] Provérbios 2:6  Porque o SENHOR dá a sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento.

[iii] Relendo este texto, notei que precisa de um esclarecimento. Por que levantei a hipótese de comparar a “sabedoria” com “boas obras”? Por que, na minha cuca está sedimentado que a sabedoria leva inexoravelmente à prática de ações que beneficiem  o “todo”, isto é, a comunidade e não primordialmente ao pretenso sábio: “A verdadeira sabedoria consiste em saber como aumentar o bem-estar do mundo.” (Benjamin Franklin)