Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

FIM DA REPUTAÇÃO

…Quanto à reputação, já não tem significado algum. 

Eclesiastes 7:19-22

19 A sabedoria torna o sábio mais forte que dez chefes numa cidade.

20 Não há no mundo ninguém tão honrado que faça o bem e não peque.

21 Não faças caso de tudo o que se diz, para não ouvires teu servo que te amaldiçoa,

22 pois sabes muito bem que tu mesmo maldisseste a outros muitas vezes.

A afirmação do verso 19 volta a ser repetida neste mesmo Livro, no capítulo 9:

Eclesiastes
9.16   Eu sempre achei que a sabedoria é melhor do que a força; mas ninguém acredita que uma pessoa pobre pode ser sábia e ninguém presta atenção no que ela diz.

9.17   É melhor ouvir as palavras calmas de uma pessoa sábia do que os gritos de um líder numa reunião de tolos.

9.18   A sabedoria vale mais do que armas de guerra, mas uma decisão errada pode estragar os melhores planos.

O autor do Livro de Provérbios também advoga a mesma tese:

Provérbios
21.22   O sábio escala a cidade dos valentes e derriba a fortaleza em que ela confia.


24.5   Mais poder tem o sábio do que o forte, e o homem de conhecimento, mais do que o robusto.

Um acontecimento bíblico exemplifica o valor da sabedoria, mais especificamente, a sabedoria feminina:

2 Samuel
20.15   Os soldados de Joabe chegaram e cercaram a cidade. Eles construíram rampas de terra encostadas nas muralhas e também começaram a cavar debaixo da muralha para fazê-la cair.

20.16   Havia na cidade uma mulher muito esperta. Ela gritou do muro: — Escutem! Escutem! Digam a Joabe para vir aqui, que eu quero falar com ele!

20.17   Joabe foi, e ela perguntou: — Você é Joabe? — Sim, sou! — respondeu ele. — Escute, senhor! — disse ela. — Estou escutando! — respondeu ele.

20.18   Então ela disse: — Antigamente costumavam dizer: “Vão e peçam conselhos na cidade de Abel”; e era assim que resolviam os problemas.

20.19   A nossa cidade é grande e uma das mais pacíficas e leais de Israel. Por que você está tentando destruí-la? Você quer arrasar o que pertence a Deus, o SENHOR?

20.20   — Nunca! — respondeu Joabe. — Eu nunca destruirei, nem arrasarei a sua cidade!

20.21   O nosso plano não é esse. Um homem da região montanhosa de Efraim, chamado Seba, filho de Bicri, começou uma revolta contra Davi, o nosso rei. Entreguem só esse homem, e eu irei embora. — Nós jogaremos a cabeça dele por cima da muralha para você! — disse ela.

20.22   Aí ela foi dar o seu conselho ao povo da cidade. E eles cortaram a cabeça de Seba e a jogaram por cima do muro para Joabe. Ele tocou a corneta, reuniu os homens, e todos deixaram a cidade e voltaram para casa. E Joabe voltou para perto do rei Davi, em Jerusalém.

O dito no verso 20  também encontra respaldo em toda escritura:

Provérbios
20.9   Será que alguém pode dizer que tem a consciência limpa e que já se livrou dos seus pecados?


20.9   Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?

1 Reis (Crônicas 6.36 repete a mesma coisa)
8.46   Quando pecarem contra ti (pois não há homem que não peque), e tu te indignares contra eles, e os entregares nas mãos do inimigo, para que os que os cativarem os levem em cativeiro à terra do inimigo, quer longe ou perto esteja;

1 João
1.8   Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós.

Romanos
3.23   Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus.

Com relação aos versos 21 e 22, vou contar-lhes uma história: Em 2 Samuel, no capítulo 16, é relatado que um cavalheiro chamado Simei se aproxima de Davi e seus homens e amaldiçoa o Rei, ficando um bom tempo o acompanhando e dizendo seus impropérios. No capítulo 19 este mesmo Simei aparece dando apoio a Davi e, em razão deste apoio, não é punido. Mais tarde, após a morte de Davi e posse de seu filho Salomão, ocorre o seguinte:

1 Reis

2.36   Depois o rei Salomão mandou buscar Simei e disse: — Faça uma casa para você aqui em Jerusalém. Fique morando nela e não saia da cidade.

2.37   E fique sabendo que, no dia em que você sair e atravessar o ribeirão Cedrom, você será morto, e a culpa será somente sua.

2.38   — Está bem, ó rei! — respondeu Simei. — Eu prometo fazer o que o senhor está mandando. E ele ficou morando em Jerusalém por muito tempo.

2.39   Acontece que, três anos depois, dois escravos de Simei fugiram e foram procurar refúgio com o governador da cidade de Gate, que era Aquis, filho de Maacá.

2.40   Simei ficou sabendo; por isso, selou o seu jumento e foi até Gate falar com Aquis a fim de procurar os seus escravos. Ele os achou e os levou de volta para casa.

2.41   Quando Salomão soube do que Simei havia feito,

2.42   mandou buscá-lo e disse: — Eu fiz você jurar em nome do SENHOR que não sairia de Jerusalém. Eu lhe avisei que, se fizesse isso, você certamente morreria. Você concordou com isso e disse que me obedeceria.

2.43   Então por que é que você quebrou o seu juramento feito em nome do SENHOR e desobedeceu à minha ordem?

2.44   Você sabe muito bem de todo o mal que fez a Davi, meu pai. O SENHOR Deus fará com que a sua maldade caia sobre você mesmo,

Viram só! Falou mal do outro e depois se arrependeu, mas o castigo chegou. De fato, este acontecimento não exemplifica perfeitamente o que diz o verso 21, pois ali a recomendação é não dar ouvido às fofocas, porém enfatiza o verso 22, mostrando o que acontece, ou melhor, deveria acontecer, a quem diz bobagens.

O subtítulo dado este trecho das Escrituras – versos 19 a 22 de Eclesiastes -, baseado na indicação dada pela Bíblia de Jerusalém, faz-nos reportar ao que já dissemos nos SERMÕES… XXXVIII e LX. De forma que, para ilustrar o que é dito e repetido pelo Coélet vamos apenas algumas frases sobre o assunto encontradas em

http://www.rivalcir.com.br/frases/reputacao.html

“A boa reputação é um segundo patrimônio.” (Publílio Siro)

“Aquele que perde a reputação pelos negócios, perde os negócios e a reputação.” (Francisco de Quevedo)

“A boa reputação não é dada pelas riquezas, mas pelo próprio caráter.”
(Dionísio Catão)

“Desprezada a reputação, desprezam-se as virtudes.” (Tácito)

“Consciência e reputação são duas coisas diferentes. A consciência deve-se a ti, a reputação deve-se ao teu vizinho.” (Santo Agostinho)

“Uma reputação vacilante é sinal de doença.” (Lucrécio)

“A vida e a reputação do homem caminham a passo igual.” (Publílio Siro)

“Preocupa-te com tua reputação, pois ela será para ti um bem mais estável do que mil tesouros preciosos e grandes.” (Vulgata)

“Nunca se curam as feridas da reputação desonrada.” (Dionísio Catão)

“A reputação não deve ser desprezada.” (Cícero)

Mas qual a razão para se considerar que os 4 versos que estão sendo analisados conduzem ao entendimento de que “a reputação já não tem significado algum”. O verso 19 fala de uma consequência extraordinária da Sabedoria, mas, em relação aos demais versos, me parece deslocado, a não ser que tenha o propósito de indicar que se precisa de muita força,  disposição e sabedoria para enfrentar os encastelados no poder, como informamos nos Sermões retro indicados, e que gozam de muito má reputação. 

O verso 20 fala de nossa propensão a, de vez em quando – consciente ou inconscientemente -, cometemos delitos. Os versos 21 e 22 abordam um costume corriqueiro em todas as camadas sociais: a fofoca, isto é, os bate-papos informais sobre a vida alheia, hoje mais fáceis de praticar graças à Internet. Vamos raciocinar assim: se cada um de nós está sujeito a cometer erros, enganos, por que se preocupar com a reputação? No passado já se disse que “A boa reputação é um segundo patrimônio.” (Publílio Siro), mas hoje há maneiras muito mais eficientes de granjear patrimônio (por pouco não me contenho e falo novamente de nossos homens públicos). Acrescente-se a isto a advertência dos dois últimos versos: não fale nada de mim que eu não falo nada de você. Que adorável convivência. E a reputação, serve para que?

É, parece que estou começando a entender o que os sábios tradutores da Bíblia de Jerusalém visualizaram no ensinamento do Coélet: se a sabedoria é melhor quando acompanhada de patrimônio e a boa reputação não tem valor, então é difícil aceitar a doutrina da retribuição segundo as obras. Bem que eu gostaria que ela valesse, mas os fatos do tempo do Pregador e dos dias atuais parecem que não a confirmam. Uma coisa é certa: cá em nossa terra, os “grandes” já enterraram a reputação faz algum tempo. Vejam isto:

O Covil de Bandidos paga nos seus podres poderes salários que deveriam inibir, na teoria, a prática da corrupção. Mas o inverso é o que está acontecendo e a ambição não tem mais limites fruto da vergonhosa impunidade que permite que partidos políticos fiquem ao sabor de ameaças e contra ameaças em um jogo de poder que já esqueceu o verdadeiro papel do poder público e da verdadeira essência da prática da política.

Vocês ficarão corados, deprimidos, envergonhados, mas vale a pena ler o artigo todo:

http://lilicarabinabr.blogspot.com/2012/01/tudo-do-mesmo-vaso-sanitario.html

Mas considerem mais isto:

http://www.youtube.com/watch?v=R8hjx4gBgvE&feature=player_embedded

Para que façam uma avaliação quanto à correta classificação do texto, transcrevo abaixo o rodapé da Bíblia de Jerusalém relativo aos versos 7:8 de Eclesiastes, até o verso 8:15:

A Lei tinha formulado o princípio da retribuição coletiva: se Israel for fiel, será feliz; se for infiel, será infeliz (cf. Dt. 7:12s; 11:26-28; 28:1-68; Lv. 26). Os Sábios aplicaram esse princípio ao destino individual de cada pessoa: Deus retribui a cada um segundo as suas obras (Pr. 24:12; Sl. 62:13; Jó 34:11). Disso tiraram a conclusão de que a situação presente do homem era proporcional ao seu mérito. Se, pelo contrário, a experiência desmentia a validade desse princípio, afirmava-se que a felicidade do ímpio é efêmera, e passageira a infelicidade do justo (cf. Sl. 37 e os amigos de Jó).

Coélet refuta essa tese. À doutrina tradicional (7:8) Coélet responde com ceticismo (7:9-12).

Tudo o que acontece deve ser aceito, sem procurar uma explicação (7:13-15).  Embora a vida e a morte estejam mal distribuídas (7:15), é inútil fazer esforços sobre-humanos (7:16-18).

Quanto à reputação, já não tem significado algum (7:19-22). Os fatos são inexplicáveis, e a realidade é um mistério insondável (7:23s, seguido por um aparte misógino[i], 7:25-28).  O destino é cego e implacável (nem o rei lhe poderá escapar) (8:1-9), e é motivo de revolta (8:10-14). Conclusão (8:15).

ESPERO CONTINUAR.