Estava traduzindo um artigo do Rav M. Laitman com a intenção de blogá-lo[i]. Mas me pareceu que deveria colocar minha visão pessoal, ainda que possível serem uma grande besteira, com relação a algumas afirmações encontradas.

O artigo em causa é “Don’t Sell Wisdom” que encontrarão em

http://www.laitman.com/2012/02/dont-sell-wisdom/

E estes são meus comentários.

8º, 9º e 10º parágrafos.

De geração em geração, temos desenvolvido o nosso intelecto, a nossa educação, o conhecimento do mundo, a natureza e a nós mesmos. Isso significa que talvez não estejamos usando corretamente o nosso intelecto, e este é o nosso problema. Se nos voltarmos aos tempos mais antigos, poderemos compreender a razão pela qual o tema da mente humana foi invocado pelos antigos sábios, como Aristóteles e Platão, os quais fundaram a ciência moderna.

Eles aconselharam a não revelar a ciência a ninguém, e a confiar apenas para pessoas decentes que poderiam usá-la corretamente, exclusivamente para o benefício da vida humana, em proveito das boas relações entre as pessoas, para que elas tivessem oportunidade de viver melhor e mais confortavelmente. Se você der a ciência para quem quer que a deseje, então, em essência, você estará cometendo um desserviço à humanidade.

Uma pessoa média, impulsionada pelo seu egoísmo, usa a ciência em detrimento de outros, bem como de seu próprio prejuízo, porque as suas más ações irão voltar para ele como se usasse um bumerangue. Essas pessoas possivelmente destruiriam o meio ambiente, levando toda a humanidade a produzir armas e outras coisas que não são necessárias. Hoje, vemos que as grandes oportunidades oferecidas pela ciência poderiam suprir todas as nossas necessidades, no entanto, nós as usamos para o mal.

Eu tenho medo do que foi exposto no parágrafo nono. Quem são as pessoas decentes? Os Aiatolás do Irã? Os cultíssimos governantes de Israel? Os comunicativos Presidentes dos EEUU (assessorados pelo Pentágono)? Os austeros dirigentes da progressista e comunista China?

Quando se refere a pessoa “média” não se pensa, estou entendendo assim, em alguém do povão, como eu, por exemplo. Para usar os recursos da ciência (tecnologia deve estar inclusa) em proveito próprio é necessário ter muito dinheiro (não é a média da população), ou muito talento.

– Seria um Steve Jobs, que graças a sua inteligência, senso de oportunidade e carisma foi capaz de construir, em poucos anos, um invejável império, explorando a ciência, ou tecnologia, da computação (até onde sei, não prejudicou ninguém)? Até onde sei, não prejudicou ninguém. – – Seriam os magnatas das indústrias farmacêuticas que produzem, comercializam agressivamente (apagando toda concorrência de produtos mais eficazes, mais baratos, mais “ecológicos”)?

– Seriam os desenvolvedores dos produtos transgênicos que, sob o manto de maior produtividade, apoderam-se da produção de sementes e fertilizantes de determinado produto, e contaminam todo ambiente ao redor, de forma a obrigar a todos a usarem sua “tecnologia”? E ninguém sabe qual será, a médio e longo prazo, a consequência do uso do produto modificado?

Os meus parcos conhecimentos filosóficos me impedem de confirmar a afirmação “Eles aconselharam a não revelar a ciência a ninguém”. Graças a Internet sei agora que Aristóteles foi discípulo de Platão. Mas aprendi também que não foi um dócil pupilo, pois a ciência só progride em razão das contestações – os conhecimentos científicos não estão acabados, mas sendo construídos.

Conhecer as ideias seria o mesmo que conhecer a verdade última, já que elas seriam os modelos ou causas dos objetos sensíveis. Como tal, só se poderia falar de ciência acerca das ideias, sendo que estas não residiam nas coisas. Procurar a razão de ser das coisas obrigava a ir para além delas; obrigava a ascender a uma outra realidade distinta e superior. A ciência, para Platão não era, pois, uma ciência acerca dos objetos que nos rodeiam e que podemos observar com os nossos sentidos. Neste aspecto fundamental é que o principal discípulo de Platão, Aristóteles (384-322 a.C.), viria a discordar do mestre.

Aristóteles não aceitou que a realidade captada pelos nossos sentidos fosse apenas um mar de aparências sobre as quais nenhum verdadeiro conhecimento se pudesse constituir. Bem pelo contrário, para ele não havia conhecimento sem a intervenção dos sentidos. A ciência, para ele, teria de ser o conhecimento dos objetos da natureza que nos rodeia.

http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/aires.htm

Mas neste Site

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/platao_politica.htm

encontrei considerações a respeito da “arte” da política, que Platão desejaria fosse exercida por pessoas especiais (ou únicas?) que poderia ilustrar minha argumentação.

Platão, como é sabido, não era um simpatizante da democracia. Logo, ele não via nenhuma possibilidade das massas conseguirem algum dia apropriarem-se da ciência da política. . Elas, por sua própria natureza, são incapazes de administrar com inteligência uma cidade. Somente um pequeno grupo ou um só indivíduo terá o domínio desta constituição verdadeira.

A “democracia” nasceu em Atenas – mas Platão não gostava muito da dita cuja. Atenas era apenas uma “cidade”, ou melhor, uma “cidade-estado”. No Site

 http://www.suapesquisa.com/historia/atenas/

foi exposto: “Hoje em dia, Atenas tem mais de dois milhões e meio de habitantes.” Mas procurava saber quantos habitantes possuiria ao tempo de Platão. Seria certamente bem menor do que São Paulo, esta apenas uma cidade de nosso Brasil, é bem verdade, a maior.

E vejam que interessante mais esta informação:

Para Platão, o primeiro e fundamental problema da política é que todos os homens acreditam-se capacitados para exercê-la, o que lhe parece um grave equívoco, pois ela resulta de uma arte muito especial. Distingue então três tipos de artes:

1 – aquelas que ele chama de auxiliares (que podemos classificar como as de ordem técnica, como o artesanato, a marinhagem, o pastoreio, etc.);

2 – em seguida vêm as artes produtoras (o plantio, a tecelagem, o comércio, etc..), e por último:

3 – a arte de saber conduzir os homens, que seria a política propriamente dita, superior a todas as outras.

Creio que esta notícia dá uma ideia de quão diferente era a sociedade da época do ilustre pensador e da sociedade globalizada de hoje. De sorte que, basear-se no pensamento dele para tomar decisões quanto à disseminação das ciências nos dias atuais, me parece um pouco temerário.

Mas consideremos ainda:

Entre os que realmente ambicionam dominar a arte da política, ele aponta os pertencentes aos setores intelectualizados da sociedade: os arautos (os mensageiros), os adivinhos, os sacerdotes e os magistrados.

Os arautos

O Aurélio trás 4 definições para este personagem:

1.Nas monarquias da Idade Média, oficial que fazia as proclamações solenes, conferia títulos de nobreza, transmitia mensagens, anunciava a guerra e proclamava a paz.
2.Emissário, mensageiro; pregoeiro; núncio.
3.Fig. V. mensageiro (4):
4.P. ext. Defensor, lutador, propugnador:

Pelo “poder da caneta” que nossos atuais governantes utilizam, dando Ministérios, Secretarias, empregos nas Estatais, distribuindo verbas etc., até que poderíamos pensar em classificá-los na primeira definição (“conferir títulos… – não de nobreza, mas de baixeza). Mas a própria indicação do texto, coloca-os na terceira definição: àquela época, os mensageiros dos Reis deviam ser pessoas cultas, intelectualizadas. Hoje, por força da democracia, os governantes preferem eles mesmos dirigirem-se ao povo, ainda que, muitos, despidos de qualquer das capacidades indicadas pelo sábio. Assim, não temos “arautos” para os principais postos da política, mas apenas demagogos[ii].

Os Adivinhos

Pode ser até que existam, mas não é uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho.

Os sacerdotes

Já mencionei os Aiatolás. Acrescento: aqui em nossa terra, temos o exemplo dos ‘pastores’ envolvidos nas falcatruas de compra de ambulâncias. Você lhes confiaria, indiscriminadamente, postos mais elevados?

Os magistrados

Sessenta anos atrás eu diria que eram os homens ideais. Hoje… nem tanto.

 

É, não me parece ter sido muito feliz o Rav M. Laitman na escolha do suporte para amparo de sua tese.

 

14º e 15º parágrafos

Possuídas pela  inclinação para o mal, as pessoas sempre querem usar a ciência para ganhar poder sobre os outros, para o desenvolvimento de armas e medicamentos que não são necessários, mas que se destinam ao enriquecimento pessoal, e, em geral, para todas as demandas aparentemente indispensáveis, mas que na realidade são absolutamente desnecessárias. Estes cientistas vendem a ciência e as suas invenções só para ganhar dinheiro.

 

Cientistas honestos são motivados pelo amor à ciência e nada mais, como está escrito: “Compre a verdade e não venda a sabedoria, a instrução, ou a compreensão.” Como resultado, vemos que perderam completamente o nosso caminho no deserto há milhares de anos de nosso desenvolvimento, e assim chegamos ao nosso estado atual.

É verdade, mas não vamos nos esquecer de que a maior parte da tecnologia existente foi gerada em consequência das guerras. A Cabala ensina que o chamado homem é, na realidade, um simples “desejo de receber” – egoísmo puro. E, graças a este egoísmo chegamos ao estado atual da ciência e tecnologia.

Também é verdade que “muita tecnologia” é renovada frequentemente e vendida, sem que seja necessária a sua utilização, ou a substituição da antiga ferramenta – é adquirida apenas para engrandecer o “status” dos egocêntricos compradores: se existe quem vende é por que existe gente comprando (mesmo que motivada por propaganda enganosa e maldosa).  Mas diga-se, com toda a ênfase, que não são os “cientistas” os vendedores. Eles inventaram, quem vende são, geralmente, outros. Exemplo: atribuímos a Alberto Santos Dumont a invenção do avião, mas conta-se que morreu desgostoso por ver seu engenho utilizado na guerra.

Em defesa dos cientistas lembramos ainda que nós, cientistas ou não, somos condicionados pelo ambiente onde nascemos e nos tornamos adultos. Podemos condenar, isoladamente, um cientista do Irã por produzir artefatos nucleares? E o mesmo poderia ser dito dos cientistas chineses, americanos, russos, israelenses etc.

Até me passa pela cabeça que os “cientistas” são pessoas altamente intelectualizadas e, por isto, Platão os consideraria aptos a entrarem para a Política.

Estamos sim “perdidos no deserto”, mas não por culpa dos cientistas. O nosso intelecto (o intelecto de cada um de nós) tem sido usado como instrumento, ferramenta, de nosso egoísmo. Este sim, responsável tanto pelo nosso desenvolvimento científico e tecnológico, como pela caótica e injusta situação em que vive a humanidade. É nisto que acredito.

A solução, pois, não está em impedir o acesso à ciência a quem quer que seja. Está em que todos, começando por cada um de nós, “corrijamos” nossa natureza egoísta em altruísta, passando a vivenciar o mandamento de “amar o próximo como a si mesmo.” E esta meta, graças a Deus, não é só da Cabala, mas também do Cristianismo, do Budismo etc. Quanto ao destino de nossa sociedade, do nosso Planeta, confiar que está sob os cuidados do Único existente e, portanto, chegará a um final feliz, pois, desde sua criação foi considerado pelo Arquiteto Supremo como algo bom.


[i] Não encontrei “blogar” no Aurélio. Será que estou colaborando com o desenvolvimento de nossa língua?

[ii] Aurélio – Demagogo: 1.Na Grécia antiga, cada um dos chefes do partido democrático durante a guerra do Peloponeso. 2.Chefe de facção popular.  3.Político inescrupuloso e hábil que se vale das paixões populares para fins menos lícitos. 4.Partidário da demagogia.