Em agosto/2010 (parece que foi ontem!) postei o SERMÃO…XVIII no qual, entre outras coisas, abordei rapidamente os três primeiros versos do capítulo 4 de Eclesiastes. Ei-los:

Eclesiastes Cap. 4 (Linguagem de hoje):

1 Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado.

2  Por isso, cheguei a esta conclusão: aqueles que morreram são mais felizes do que os que continuam vivos.

3  Porém mais felizes do que todos são aqueles que ainda não nasceram e que ainda não viram as injustiças que há neste mundo.

Assim iniciei meu comentário:

“Comentemos apenas, rapidamente, as soluções encontradas pelo Coélet para este problema,

contidas nos versos 2 e 3: 1) aqueles que morreram são mais felizes do que aqueles que continuam vivos; 2) mais felizes ainda são os que não nasceram.

Mais adiante, no Eclesiastes (6:3), se expressa, por outro motivo, esta mesma ideia. Jó também já se encontrara essa mesma solução e a expõe de maneira, a meu ver, bem mais poética – se é que neste assunto haja poesia – ou dramática se preferirem:”

Inseri, na ocasião, os versículos 11 a 26 do livro de Jó. Mencionei, de passagem, a intervenção dos seus amigos, o entendimento do budismo, espiritismo e cabala propósito do sofrimento, mencionei evento com a participação de Jesus de Nazaré e prometi a postagem de um texto de Rohden (o que só cumpri em 14/abril/2012). E depois de um texto de Epicuro de Samos conclui, não conclusivamente, a minha intervenção:

E eu, que direi? Indagando, preliminarmente, se a opção “não nascer” é possível, digo que me sinto longe ainda de tomar posição neste intrincado problema. Afinal, sou um homem feliz e vou colocar meu dedo na ferida dos outros e fazer julgamento? Será muito mais próprio para mim empenhar-me em aliviar o sofrimento do próximo. Ou não?

Permitam considerar “sábia” a minha indecisa posição. Acabo de ler A ARTE DE SE SALVAR da lavra do Rabino Nilton Bonder que, à página 105, inicia o capítulo TERIA SIDO MELHOR NÃO TER NASCIDO[i] com este texto:

Ensinaram os nossos mestres:

                Por dois anos e meio, os discípulos de Hilel e Shamai engajaram-se em violentas disputas. A escola de Shamai dizia: teria sido melhor – ou mais simples – não se ter nascido. A escola de Hilel, por sua vez, dizia: é melhor ter nascido. Após trinta meses de debates, realizou-se uma votação, finda a qual, a casa de Shamai saiu-se vitoriosa. Sim, realmente, teria sido melhor ao ser humano não ter nascido – porém, tendo nascido, deve fazer um constante balanço de sua consciência e de sua alma, e tornar precisas as suas ações, de maneira a encontrar nelas significado.

(Talmude babilônico)

Inicia sua explanação:

Vamos tentar analisar a questão da morte a partir de sua faceta “teria sido melhor não existir”. Passaremos a tratá-la, portanto, na dimensão do sentido ou do significado humano. Segundo esta, a relação entre a vida e morte concentra-se justamente na questão debatida pelos mestres Hilel e Shamai. Nesse território do sentido, seja qual for a pena que a morte nos pareça impingir, se ela puder se mostrar menor do que o benefício da vida se tornará compreensível e adequada à realidade da ordem e do Amor[ii]. Ou seja, mesmo que a vida não seja um mar de rosas, a simples comprovação de um saldo positivo em relação à morte, por ínfimo que seja, é suficiente para se abraçar a realidade na dimensão do Amor, da ordem e da possibilidade de Malé[iii].

Estabelece que o ocorrido, objeto do relato Talmúdico, data de cerca de 20 séculos atrás. Comenta os personagens Hilel e Shamai sempre discordando entre si, mas com absoluto respeito pela posição contrária, com benefícios absolutos para a comunidade: “Isso decorre não apenas do fato de que eram contemporâneos que constantemente discordavam entre si, mas acima de tudo porque, no respeito à opinião do outro, criaram um vínculo que lhes permitiu reproduzir com grande acuidade a realidade.”

Mais adiante vieram as indagações: “… em relação à própria natureza do debate, qual seria a situação em que se encontravam que exigia de forma tão premente uma abordagem tão genérica e definitiva? E por que se decidiu pela votação numa questão tão conceitual, como se dessa decisão dependesse alguma medida prática a ser tomada imediatamente? E ainda, em relação à própria resolução, como podem os sábios adotar uma posição tão negativa e de tanta desesperança? E por que naquela oportunidade a opinião de Shamai foi vencedora, se sabemos que Hilel normalmente tinha suas opiniões favorecidas?”

Israel encontrava-se sob o domínio romano. Era uma época de violência e opressão, tal que se afigurava o fim da cultura e do povo judeu. Assim a oportunidade e, mais do que isto, a coragem de abordar o tema com toda a sua crueza. Daí se conclui:”… nessa polêmica ocorrida há mais de dois milênios, encontramos os fundamentos de um debate interno que se repete a cada geração nos indivíduos que se deparam com a consciência de seu fim.” Este é um momento de Verdade. A dimensão do Amor deixa de ser a única opção válida para a aceitação da vida.

Há um esclarecimento importante: “Shamai não diz que a vida não vale a pena; diz que era melhor ou mais simples não nascer. Sua resposta não é uma meia-verdade camuflada por falsas esperanças por todos os lados. Ela é real, como a resposta de qualquer um que tenha honrado sua vida e o que nela construir e que tenha a obrigação de conceber sua perda como algo fundamental. À luz dessa despedida, teria sido mais simples, ou melhor, que nada tivesse se iniciado…”

E, sem mais palpites meus, a conclusão do Rabino:

Tal conclusão de terminalidade a que chegaram os sábios vem mitigada pela consideração de que, uma vez nascido (e sobre isso não nos é permitido arbitrar), devemos encontrar um significado para nossa alma e nossa história. A frase “melhor não ter nascido” é um reconhecimento, sem o subterfúgio de projeções de Amor para o pós-morte, do sagrado da vida. Representa ao mesmo tempo sagrar a vida e resistir à tendência ao cinismo e ao desespero resultantes da realidade de que é efêmera.

                Devemos aprender a resistir à tentação de olhar a vida pela perspectiva que encerra a assertiva “melhor e mais simples é nascer”. Essa expectativa revela-se a mãe de todas as frustrações. Jamais será simples cumprir e honrar a responsabilidade de amar a vida com a maior intensidade possível e abrir mão dela com a entrega que se faz necessária diante do fim, sem que a vida se torne um espaço de grande complexidade, esforço e sofrimento.

                Não devemos temer a crueza dessa afirmação, pois ela é, em si, libertadora. Faz com que a busca de significado da vida se desvincule de uma sensação de lucro, saldo positivo ou ganho real. Se considerarmos que nascer não é melhor nem mais simples do que não nascer, eliminamos qualquer tentativa obsessiva de querer viver a vida ao máximo, otimizando prazeres e sensações, pois esse procedimento não tem qualquer efeito nem consegue neutralizar a afirmação “melhor não ter nascido”. Ter vivido bem no passado não modifica em nada a realidade da velhice nem a realidade do que já passou, pois o que já foi não é mais esfera do prazer (“síndrome da torta de queijo”). Nem mesmo a sensação de “vivi muito” neutraliza nossa dor na despedida, apesar de nos trazer o consolo de não nos culparmos por aquilo que não fizemos. No entanto, tudo isso é detalhe numa realidade que desdenha detalhes. Só a capacidade de encontrar sentido e de dar significado a nossos atos mais do que qualquer prazer derivável deste mundo sobrevive à claridade da percepção de que “melhor teria sido não nascer”.

                Não há aqui qualquer condenação ao prazer nem a se viver da melhor maneira possível. Esta, afinal, é uma questão de bom-senso e obrigação dentro da própria realidade do Amor. O que está sendo dito aqui é que a única estrutura de nossa vida que não despenca diante da Verdade é a estrutura de sentido e significado que damos à nossa própria vida.

                Percebemos assim que é um absurdo a ideia sustentada por grande número de indivíduos de que, no momento em que a vida não mais puder lhes proporcionar a qualidade esperada, irão dar fim à própria vida. Shamai diria que tais pessoas são, no mínimo, tolas.  Esperar que a vida lhes desse mais, que amassem a vida ainda mais loucamente, para então abandoná-la… melhor nem sequer criar tais vínculos de amor e dependência com a vida, e acabar com tudo de uma vez, já.

                Não há como amar a vida sem que sua despedida seja dolorosa. Esta dor pode ser como a do parto – a dor de quem abdica de um mundo perfeito em si mesmo, apenas para descobrir outra realidade além do útero. A possibilidade de aceitarmos a vida como um todo, e não apenas o que nos parece ser a “cobertura da torta”, o melhor, só nos é possível com uma mentalidade de que “melhor teria sido não nascer”. Os proveitos e prazeres deste mundo são parte do efeito colateral de nossa estada. A possibilidade de dar significado à vida, no entanto, é o colete salva-vidas com o qual fazemos a transição não desesperada entre o antes e o depois da perda, o antes e o depois da morte. A partir das melodias que captamos por entre os segmentos de nossa vida é que montamos as canções que nos fazem perceber que o efêmero da flor é sua beleza; tudo o que apreciamos neste mundo, do sorriso amoroso de um neném à sensualidade que há num flerte, à força com que o ancião transfere às novas gerações seus conhecimentos, tudo é produto dessa qualidade efêmera que, em outro contexto, nos revolta. Encontrar significado é estar constantemente em contato com essa condição efêmera. Só devemos teme-la quando conscientes de que sua mão, além de determinada, é também carinhosa.

Espero que estas poucas citações possam trazer subsídios para a abordagem deste tema que nos assusta, mas que insiste em se lançar à nossa frente com muita frequência, mormente aos que, como eu, já dobraram o “Cabo da Boa Esperança”. Ao menos, que lhes traga comichão em ler A ARTE DE SE SALVAR, do jovem e sábio Rabino Nilton Bonder.

 


[i] A ARTE DE SE SALVAR, BONDER, Nilton – Rio de Janeiro: Rocco, 2011, III. DESORDEM – EXPANSÃO POR CONTRAÇÃO, pg. 105 a 112.

[ii] Quando olhamos o mar e este nos inspira um poema, quando surfamos em suas ondas tomados pelo senso de soberania e liberdade, quando o mar nos aplaca o calor com sua refrescante consistência, ele é percebido como instrumento do Amor. No entanto, o mesmo mar pode nos afogar. Sua propriedade de poder afogar é parte de sua Verdade latente. Nós vivemos constantemente nossa realidade de Amor em meio a realidades latentes de Verdade. A ARTE DE SE SALVAR, BONDER, Nilton – Rio de Janeiro: Rocco, 2011, PRESERVAÇÃO – Distinguindo as dimensões de verdade e amor, pg. 27.

[iii] Utilizando-se de duas formas nas quais a glória divina é mencionada na liturgia e nas Escrituras, Reb Nachman enuncia essa distinção.  Tais menções falam ordem de “Aié” – “Onde está o lugar de sua glória?” (Aié mekom kevodó?) – e Malé – Toda a terra está repleta de Sua glória!”(Malé ét kól há-arets kevodó!). A primeira expressa dúvida e angústia, e a segunda, certeza e fé. A palavra Aié (“onde?” denota busca existencial. … Há um tom retórico em Aié, por representar uma dúvida profunda d’alma que talvez não aguarda resposta, mas manifesta sua angústia. Quando alguém se pergunta “onde está a glória divina”, expressa a mais sofisticada tentativa humana de lidar com o caos e a dúvida.  Por sua vez, o conceito de Malé (a Terra está repleta de Sua glória) representa o mágico momento em que a ordem se decodifica de maneira clara e cristalina. A ARTE DE SE SALVAR, BONDER, Nilton – Rio de Janeiro: Rocco, 2011, Aié e Malé – Velamento e Revelação, pg. 22.