Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

SABEDORIA E TOLICE

Eclesiastes 9:

Bíblia de Jerusalém

13 – Outra coisa observei debaixo do sol e foi para mim uma grande lição:

14 – havia numa pequena cidade, de poucos habitantes; veio um rei poderoso que a cercou e montou contra ela grandes obras de assédio.

15 – Havia na cidade um homem pobre, porém sábio, que salvou a cidade com sua sabedoria; mas ninguém se lembrou mais dele.

16 – Por isso eu digo: mais vale a sabedoria que a força, mesmo que a sabedoria do pobre seja desprezada e ninguém faça caso de suas palavras.

17 – Escutam-se antes as palavras calmas dos sábios que os gritos de um capitão de néscios.

18 – Mais vale a sabedoria que armas de guerra. Um só pecado anula muitos bens.

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

9.13   Há mais uma coisa que eu vi e que é um bom exemplo de como neste mundo não se dá valor à sabedoria.

9.14   Havia uma pequena cidade onde morava pouca gente. Com o seu exército, um rei poderoso atacou a cidade, construiu rampas de ataque em redor dela e se preparou para derrubar as suas muralhas.

9.15   Morava ali um homem que era pobre, mas muito inteligente; era tão inteligente, que poderia ter salvado a cidade. Acontece que ninguém lembrou dele.

9.16   Eu sempre achei que a sabedoria é melhor do que a força; mas ninguém acredita que uma pessoa pobre pode ser sábia e ninguém presta atenção no que ela diz.

9.17   É melhor ouvir as palavras calmas de uma pessoa sábia do que os gritos de um líder numa reunião de tolos.

9.18   A sabedoria vale mais do que armas de guerra, mas uma decisão errada pode estragar os melhores planos.

Outros textos bíblicos concordes com Coélet.

Eclesiastes
7.19   A sabedoria pode fazer mais por uma pessoa do que dez prefeitos juntos podem fazer por uma cidade.

Provérbios
21.22   Uma pessoa inteligente pode conquistar uma cidade defendida por homens fortes e destruir as muralhas em que eles confiavam.

Provérbios
24.5   Ser sábio é melhor do que ser forte; o conhecimento é mais importante do que a força.

Lembro ainda que no SERMÃO XLIV, também comentando sobre a sabedoria, publiquei o texto de II Samuel 20:16-22 relativo a um caso parecido no qual uma mulher salvou sua cidade da destruição por Joabe, general de Davi, que perseguia Seba, acusado de tentar contra a vida do Rei.

E falando do assombro causado pela sabedoria de gente humilde…

Marcos
6.2   Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?

6.3   Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se nele.

Mas falemos sobre o nosso texto. Verificaram que as versões bíblicas contam histórias ligeiramente diferentes? A Bíblia de Jerusalém está mais conforme com as versões de Almeida, mas confesso acreditar que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje está mais coerente. O importante, contudo, é que o cerne da questão não foi alterado: a sabedoria, especialmente a de um homem humilde, foi preterida pela maioria, a multidão, que preferiu dar ouvido aos violentos, que gritavam mais.

Será que o relato expressa uma tendência, ou seja, a multidão, a ‘maioria’ é, via de regra, irracional? Há quem pense assim.

Assim que muitos homens se encontram juntos, perdem-se. A multidão transporta as suas unidades do presente para o passado e precipita-as de cima para baixo: trata-se de um recuo e uma decadência. 

Todo o homem, lá dentro, converte-se noutro – mas pior. Nas multidões, a união é constituída pelos inferiores e fundada nas partes inferiores de todas as almas. São florestas em que os ramos altos não se entrelaçam, mas apenas, em baixo na escuridão, as raízes terrosas. Todos perdem o que os torna diferentes e melhores, enquanto o antigo rústico – que, entre obstáculos, mordaças e açaimos[i], parecia aniquilado – acorda e muge. Em todas as multidões, como em toda a Humanidade, os medíocres são infinitamente mais que os grandes, os calmos que os violentos, os simples que os profundos, os primitivos que os civilizados, e é a maioria que cria a alma comum que imbrica[ii] e nivela todo o agrupamento de homens.

 Giovanni Papini (Escritor – 1881 – 1956), in ‘Relatório Sobre os Homens’

E mais isto do mesmo autor:

A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar «Abaixo!» sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.

No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.
Estar entre muito incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição. 

Giovanni Papini (Escritor – 1881 – 1956), in ‘Relatório Sobre os Homens’

Preocupa-me a racionalidade de um agrupamento de pessoas. O que sempre me vem à cabeça é a própria condenação de Jesus de Nazaré, apesar de que ela própria já havia se ‘maravilhado’ de sua sabedoria (veja Mc 6:2-3 acima). Parece que, reunidas, as gentes são muito suscetíveis ao entusiasmo de oradores, especialmente os mais violentos. É o que diz Papini. Isto talvez fosse muito útil para as batalhas corpo-a-corpo de antigamente, quando a bravura do comandante influenciava decididamente os comandados.

Já Sêneca dá a entender que não está considerando ‘multidão’ como uma reunião de pessoas, mas simplesmente ‘a maioria’ das pessoas.

Se nós nada fizermos senão de acordo com os ditames da razão, também nada evitaremos senão de acordo com os ditames da razão. Se quiseres escutar a razão, eis o que ela te dirá: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multidão! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do espírito, que só servem para amolecer as energias; deixa a ambição que não passa de uma coisa artificialmente empolada, inútil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, tão interessada em não ter superiores como em evitar até os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. Vê como de fato é infeliz quem, objeto de inveja ele próprio, tem inveja por outros.

Lucius Annaeus Sêneca, filósofo, -4 – 65, in ‘Cartas a Lucilio’

É o que diz também Gustave Le Bon (psicólogo/sociólogo – 1841 – 1931):

A alma popular (…) tem, como principal característica, a circunstância de ser inteiramente dominada por elementos afetivos e místicos. Não podendo nenhum argumento racional refrear nela as impulsões criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente. 

OBS: textos obtidos em

http://www.citador.pt/textos/a-irresponsabilidade-da-multidao-giovanni-papini

Mas para que não me condenem por não olhar o ‘outro lado’, reporto-me a uma resenha de Ruy Flávio de Oliveira sobre o livro A SABEDORIA DAS MULTIDÕES:

O jornalista norte-americano James Surowiecki, no entanto, desafia esta noção em sua obra A Sabedoria das Multidões – Por que os muitos são mais inteligentes que os poucos.

http://www.playit.com.br/leia.asp?id=30

A ‘noção’ desafiada por Surowiecki é justamente a que mencionamos acima, que Ruy Flávio de Oliveira exemplifica com outros eventos, naturalmente. Porém… Para se chegar ao entendimento do Sr. Surowiecki devem ser observadas pelo menos quatro condições:

1.Diversidade – Os indivíduos que compõem a multidão devem ser díspares em suas raízes, formações, opiniões, etc. Aqui o objetivo não é o consenso, mas justamente o contrário: o dissenso.

2. Independência – Os indivíduos devem formar e manter suas opiniões de maneira independente das opiniões dos demais integrantes do grupo, o que contribui para que a diversidade crie o efeito de soma das informações e cancelamento dos ruídos.

3. Descentralização – As decisões que um grupo produz são mais inteligentes quando não há uma força centralizadora coordenando os esforços (e de quebra influenciando o resultado desses esforços).

4. Agregação – Uma vez produzidas (e nem um segundo antes), as opiniões dos componentes do grupo devem ser agregadas, de forma a produzirem uma opinião coletiva.

Tá. Mais aí a ‘multidão’ passa a ser de indivíduos isolados e não fortemente influenciados. Já estamos falando de outra coisa. E com isto até se pode defender entusiasticamente a democracia – pena que os demagogos se aproveitam disto.

Os cabalistas, pelo menos a facção defendida pelo Rabino Michael Laitman defendem que será necessário que apenas 1% da população alcance a espiritualidade para que toda a Natureza seja corrigida. Podemos entender, de outra forma, que também o Sr. Laitman defende que 99% da população é problemática. Apesar disto eu insisto em ser um sonhador, um democrata. É só pensar que a fonte das dificuldades são os sistemas e não as pessoas. É um entendimento antibudista, mas que importa – nós somos cristãos e não budistas (isto é de doer, pois não?). Ou podemos pensar ainda que a ação de 99% da população é para que, pelo sofrimento, a minoria de 1% chegue à iluminação. Piorou? Não tem importância, valho-me da teimosia ítalo-lusitana e continuo democrata.

Concluindo: É lamentável que as maiorias não saibam, com uma frequência assustadora, aproveitar as melhores, as mais prudentes, mais sábias ideias. Mas quem as tiver, por favor, não parem de apresentá-las – algumas poderão vir a lume: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

ESPERO CONTINUAR


[i] Aurélio: Cabrestilho que se põe no focinho dos animais para não morderem ou não comerem.

[ii] Aurélio: .Dispor (coisas) de maneira que só em parte se sobreponham umas às outras, como as telhas do telhado ou as escamas do peixe.