Dando uma olhada no Site do Rabino Nilton Bonder

http://www.niltonbonder.com/

chamou-me a atenção este artigo publicado em O GLOBO em 03 de outubro 2011. Gostei do que foi dito e como foi dito. Por esta razão o compartilho. Boa leitura e tenham uma excelente semana.

Avenida das Américas direção da Cidade do Rock e dezenas, senão centenas de jovens e cartazes: “Um Mundo Melhor??? Só Jesus!” Levei alguns segundos para entender (às vezes a gente se pega desatento para as confrontações e as querelas e leva um tempo para perceber nuances…) que se tratavam dos “jovens do bem” contra-atacando os “jovens da superfície e da perdição” que começavam a movimentar-se para o Templo do Rock. “No Brasil não!”, pensei eu ingenuamente e com um incômodo estranho.

Por que me incomodava tanto aquela manifestação de diversidade? Não seria ela o que tanto sonhamos quando pedimos por mais engajamento e mais consciência em nossa terra, particularmente entre os jovens? O que havia de tão bélico na mostra de outro olhar que se fazia expresso por alguns destes jovens dançando e entoando seus próprios hinos hits?

Pensei que fosse talvez pela confrontação entre iguais que não se reconheciam, já que muitos pareciam fãs prontos a recolher autógrafos numa histeria de linguagem aparentemente oposta, mas que era igual. Sonhos e mitos a um neófito da vida podem ser de esquerda ou direita, do bem ou do mal, laico ou religioso, e serão sempre a mesma manifestação. Se para alguém vivido é difícil não ser presa das aparentes diferenças que são iguais, quanto mais para os jovens.

Mas acho que não era isso. O que me incomodava era a palavra “só”. “Só” não apenas é a palavra mais excludente de nosso vocabulário, como é a palavra mais prepotente que se pode proferir. Em nome do “só” já se produziram grandes violências, e uma juventude que aprende esta palavra é uma juventude perigosa. Eu conheço isso bem de perto porque o mundo religioso não aprendeu ainda a expressar sua devoção e sua piedade sem utilizar-se desta palavra. Todo aquele que tem confiança em si e em sua fé não é exclusivo. Grandes religiões e grandes religiosos afirmam outras religiões. Grandes culturas afirmam e apreciam outras culturas, grandes nações afirmam e apreciam outras nações; grandes indivíduos afirmam outros indivíduos.

Tempos messiânicos ainda estão longe porque temos poucos mestres capazes de ensinar nossos jovens a tratar a palavra “só” como uma locução antimessiânica. Entendendo obviamente o messianismo como a comunhão entre todos e não a exclusão que terminará no convencimento de todos.

O perigo do “só” é que ensina o confronto e a identidade por oposição. Quem muito confronta acaba dedicando a sua vida a uma competição que lá na frente, na maturidade, se deparará com o componente destrutivo do “só”, porque estará “só”. Solitário na assombração-descoberta que na competição nunca alcançamos a certeza se competimos por algo que existe ou se vencemos onde ninguém mais está disputando.

Não sou roqueiro e poderia ter passado por essa briga como se não fosse minha. Mas eu me identifico com os que vivem pela fé e, por respeito a essa escolha, não a quero ver no lugar equivocado. A fé em oposição é a declaração de sua insegurança e de sua falta de convicção. Quando Jesus ataca os vendilhões do Templo, ele não atacava os roqueiros ou os mercadores, mas as religiões que se transvertem em comércio, que vendem em espaço e momentos da fé suas bugigangas materiais, seus amuletos, enfim, seus produtos e falácias.

Como rabino não tenho por que contestar que Jesus salva! Mas “só Jesus” nos distancia tanto de suas palavras como também de um futuro messiânico. Jesus não estaria com cartazes zombando da prostituta ou do ladrão ou do diferente em suas festas e costumes. Estaria, sim, participando e traria boas novas de qualidades intrínsecas e não convencimento. Diz um belo ditado em iídiche: “O que o homem faz a si mesmo, dez inimigos não lhe fariam!”