Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Mosca morta no perfume

ECLESIASTES 10:

Bíblia de Jerusalém

1.A mosca morta corrompe o unguento do perfumista, uma pitada de tolice conta mais que muita sabedoria.

Edição Ecumênica (Padre Antonio Pereira de Figueiredo) – Barsa

1.As moscas que morrem no bálsamo falem-lhe perder a suavidade do cheiro. Uma loucura, ainda que pequena e de pouca dura, dá ocasião a não se fazer caso da sabedoria nem da glória.

 Almeida, Revista e Corrigida

10.1. Assim como a mosca morta faz exalar mau cheiro e inutiliza o unguento do perfumador, assim é para o famoso em sabedoria e em honra uma pouca de estultícia.

Almeida Revista e Atualizada 

10.1   Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia.

Nova Tradução na Linguagem de Hoje 

10.1   Assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor.

A comparação chocante (ou nojenta) da mosca morta no unguento com a tolice – estultícia, estupidez – cometida pelo sábio, melhor do que isto, pelo ‘famoso em sabedoria e em honra’, deixa claro o esforço de linguagem do Coélet para expressar aos seus pupilos o ensinamento deste (possível) ‘dito popular’ mencionado no primeiro verso do décimo capítulo de Eclesiastes.

E a advertência tem caráter quase que eterno, pois até hoje continua sendo de plena oportunidade. Na história do Antigo Testamento, os relatos notáveis de pisada na bola são inúmeros. Um deles é o de Davi, que caiu na besteira de se engraçar por Bate-Seba, mulher de Urias (II Samuel 11). Outro caso trágico foi o voto de Jefté se lograsse derrotar seus opositores: “quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto”; por azar (??) foi sua filha única que, festivamente, veio recebê-lo em primeiro lugar (Juízes 11). Sempre me impressionou a narrativa de Gênesis 12:10-20, quando Abrão pede a Sarai que se passe por sua irmã, resultando que ela foi “tomada para a casa do Faraó”; as pragas advindas ao Faraó fizeram levantar seu ‘desconfiômetro’, que o fizeram pedir explicações ao temeroso hóspede, devolver-lhe a esposa e botá-lo pra correr.

Quanto aos casos da atualidade, vamos pedir, PRIMEIRO, que cada um relembre os próprios. Por quê? Pelo simples fato de que o recado do Pregador não se destina (ou não se destinava) aos sábios de hoje (ou de sua época), mas a cada um de nós, nos dias de hoje, consideremo-nos sábios ou não. A ênfase dada em ‘sabedoria’ e especialmente em ‘famoso em sabedoria e em honra’ (Almeida Revista e Corrigida) é recurso gramatical para chamar a atenção e deixar claro que até os próprios sábios estão sujeitos às suas escorregadelas. Lembre-se que autor de Eclesiastes era possivelmente professor de jovens de sua época (século III a.C.) e sua intenção era enfiar nas cabeças em formação,  de seu povo, um pouco da cultura tradicional judaica. É válida para nós hoje por que, gostemos ou não, não evoluímos muito, de lá para cá, em sabedoria. Em conhecimento sim, mas em sabedoria nem tanto.

Mas se querem alguns exemplos a gente menciona – de gente mais famosa, é claro. São tantos que os confundimos com a normalidade, são fatos corriqueiros.

Ilustremos com um causo atual. O Senador Sarney é bastante conhecido, pois não? Ele e seu clã são os donos de um Estado brasileiro – o Maranhão. Mas hoje esta figura é Senador pelo Estado do Amapá; não pode se candidatar pelo seu Estado (Maranhão):

Candidatou-se ao Senado. Mas tinha um problema: pelo Maranhão dificilmente seria eleito. Acabou escolhendo um estado recém-criado: o Amapá. Lá, eram 3 vagas em jogo – no Maranhão, era somente uma. Não tinha qualquer ligação com o novo estado. Era puro oportunismo. Rasgou a lei que determina que o representante estadual no Senado tenha residência no estado. Todo mundo sabe que ele mora em São Luís e não em Macapá. E dá para contar nos dedos de uma das mãos suas visitas ao estado que “representa”. O endereço do registro da candidatura é fictício? É um caso de falsidade ideológica? Por que será que o TRE do Amapá não abre uma sindicância (um processo ou algo que o valha) sobre o “domicílio eleitoral” do senador?

Quem explica isto é o historiador MARCO ANTONIO VILLA em matéria publicada em O GLOBO em 29/11/2011:

http://www.marcovilla.com.br/2011/11/face-do-poder-um-retrato-de-sarney.html

Quem escorregou? O próprio José Ribamar, em primeiro lugar, SEM DÚVIDA NENHUMA; os ilustres membros do TER, pois fecharam os olhos para o fato do domicílio do cara de pau; o partido que emprestou sua legenda para a candidatura do homem que até de nome já mudou; os demais partidos e todos os seus colegas do Congresso Nacional que nunca pensaram em impugnar seu nome e o fizeram Presidente do Senado. E os citados não são todos pessoas proeminentes em nosso Brasil; não se poderia chamá-los de ‘sábios’? Não deveriam zelar pelas leis (eles as fazem)? Ainda que as moscas de toda a nação estivessem mortas no perfume aqui produzido se obteria o mau cheiro deste único malfeito do Senador. E este é só um deles, têm muitos outros – a Internet pode mostrá-los, não irei perder meu tempo em mencioná-los.

E nós, o povão? Somos vitimas? Não, somos partícipes:

Segundo o sociólogo, os eleitores do país têm cinco critérios de escolha na hora de votar (confiram os critérios no link acima). Votamos, segundo o estudo, quanto mais pobres e sem escolaridade somos, conforme nossas necessidades imediatas. O raciocínio é simples e nefasto: se todo político é corrupto, é ladrão, vou tratar de conseguir umas migalhas. Se esse administrador público desvia dinheiro, mente, mas me garante algum tipo de benefício, não há porque tirá-lo do poder.

http://zecostajr.blogspot.com.br/2008/05/como-vota-o-brasileiro.html

Tá, não somos o povo mais culto do planeta, mas também não somos tão xucros. Sabemos o que é correto fazer, mas não o fazemos. Aja mosca morta!

Um texto tão bonito (?) e eu falando em política. Mas para que não fiquem muito chateados comigo, indico um escrito de Patrícia Ballare que trata do mesmo assunto de forma teologicamente correta:

http://patriciaballare.blogspot.com.br/2010/02/sabedoria-x-tolice.html

Aqui, só uma pitadinha:

Exemplo de tolices é o que não nos falta. Por isso, temos que aprender com os que já erraram e com nossos próprios erros, e pensar muito antes de tomar uma decisão, de falar, de brincar,de fazer qualquer coisa, para que o pouco de sabedoria que temos não perca o seu valor. É um desperdício deixar que uma mosca morta estrague um frasco de perfume inteiro.

ESPERO CONTINUAR