Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes 12:

1.Lembra-te do Criador na tua juventude, antes que cheguem os dias de achaques e se aproximem os anos, dos quais dirás: “Não gosto mais deles”;

2. antes que se obscureça a luz do sol, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva.

3. Quando os guardas da casa começarem a tremer e os homens robustos a se encurvar, quando as mós forem poucas e deixarem de moer[i] e a escuridão envolver os que olham pelas janelas;

4. quando as portas sobre a rua se fecharem e o ruído do moinho diminuir, quando as pessoas se levantarem ao canto do pássaro e quando se calarem todas as canções.[ii]

5. Quando se tiver medo das alturas e temer tropeços no caminho plano. Quando a amendoeira florescer e o gafanhoto se tornar um peso e a alcaparra perder o gosto[iii], porque o homem vai para a morada eterna e os carpidores estão prestes a dobrar a rua.

6. Antes que se rompa o fio de prata[iv] e se despedace a copa de ouro e se quebre o cântaro na fonte e se parta a roldana do poço

7. e o pó volte à terra, como antes, e o espírito volte a Deus, seu autor[v].

8. Vaidade das vaidades – diz Coélet -, tudo é vaidade[vi].

Eu sempre achei que este trecho bíblico era lindíssimo. Hoje, quando ele fala bem mais próximo de mim (por exemplo, tenho acordado sempre por perto de 5 horas – os pássaros ainda não estão cantando) o lindíssimo fica pedindo um complemento de reforço.

O final do capítulo 11º refere-se aos jovens e sua alegria e despreocupação. Acertadamente adverte: “Lembra-te do Criador…” e lá vem este texto poético referindo-se ao que hoje chamamos “terceira idade” – período de vida que tem sido estendido e, felizmente, com mais saúde – o que se pede agora é uma partida para a eternidade sem muitos rodeios, sem muitos sofrimentos.

Apenas acrescento uma coisinha que me emocionou e, por esta razão, pareceu-me omitida na descrição da extra-maturidade: o sentimento de “perda”, ou seria melhor dizer, das sucessivas “despedidas”. Os mais moços, no seu afã de conquistarem seu espaço, e com sua alegria natural, não têm tempo de curtirem esta percepção; já os idosos dispõem deste tempo. Para nós, também, as “despedidas” são mais frequentes. E não estou me aludindo apenas às despedidas daqueles amigos que seguem na frente para nos esperar; refiro-me inclusive ao “tchauzinho” dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos amigos, que vieram nos visitar e voltam para seus afazeres. Já comentei aquele prudente conselho de vivermos cada dia como se fôssemos eternos e, ao mesmo tempo, como se fosse o último dia de nossas vidas. Creio que esta segunda parte do conselho está cada vez mais evidente em nós: quem não se lembra da emoção sentida quando o filho(a) foi deixado(a) pela primeira vez na escola, os olhinhos assustados dirigidos a nós. Pois é, este sentimento parece que brota a cada despedida.

Mas não são apenas as despedidas que nos são mais marcantes: também as chegadas, os encontros. Li, em algum lugar, que o lugar para onde iremos é marcado essencialmente pelas emoções – quem sabe já estamos sendo preparados para isto.

 

Vamos mudar de assunto. Para deleite de meus amigos, insiro o mesmo texto na versão de Almeida (como a gente a conhecia desde pequeno) e na versão da Linguagem de hoje.

Almeida Revista e Atualizada

Eclesiastes
12.1   Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer;

12.2   antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens depois do aguaceiro;

12.3   no dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas;

12.4   e os teus lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em alta voz, te levantares à voz das aves, e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem;

12.5   como também quando temeres o que é alto, e te espantares no caminho, e te embranqueceres, como floresce a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça;

12.6   antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço,

12.7   e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

12.8   Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade.

 

Nova Tradução na Linguagem de Hoje
Eclesiastes
12.1   Lembre do seu Criador enquanto você ainda é jovem, antes que venham os dias maus e cheguem os anos em que você dirá: “Não tenho mais prazer na vida.”

12.2   Lembre dele antes que chegue o tempo em que você achará que a luz do sol, da lua e das estrelas perdeu o seu brilho e que as nuvens de chuva nunca vão embora.

12.3   Então os seus braços, que sempre o defenderam, começarão a tremer, e as suas pernas, que agora são fortes, ficarão fracas. Os seus dentes cairão, e sobrarão tão poucos, que você não conseguirá mastigar a sua comida. A sua vista ficará tão fraca, que você não poderá mais ver as coisas claramente.

12.4   Você ficará surdo e não poderá ouvir o barulho da rua. Você quase não conseguirá ouvir o moinho moendo ou a música tocando. E levantará cedo, quando os passarinhos começam a cantar.

12.5   Então você terá medo de lugares altos, e até caminhar será perigoso. Os seus cabelos ficarão brancos, e você perderá o gosto pelas coisas. Nós estaremos caminhando para o nosso último descanso; e, quando isso acontecer, haverá gente chorando por nossa causa nas ruas.

12.6   A vida vai se acabar como uma lamparina de ouro cai e quebra, quando a sua corrente de prata se arrebenta, ou como um pote de barro se despedaça quando a corda do poço se parte.

12.7   Então o nosso corpo voltará para o pó da terra, de onde veio, e o nosso espírito voltará para Deus, que o deu.

12.8   É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão.

E como me disseram que não se deve pretender analisar poesia, encerro esta série de Sermões com o fecho dado ao Livro de Eclesiastes por um de seus admiradores:

Epílogo[vii]:

Eclesiastes 12:

9. Além disso, deve-se acrescentar: Coélet era um sábio e continuamente ensinava ao povo o que sabia. Estudou, inventou e formulou muitos provérbios;

10. Coélet procurou um estilo atraente e escreveu a verdade com acerto.

11. As sentenças dos sábios são como aguilhões, e as dos colecionadores como pregos bem cravados: são dadas por um só pastor[viii].

12. Um último aviso, filho meu: fazer livros é um trabalho sem fim, e muito estudo desgasta o corpo.

13. Em conclusão, e depois de ouvido tudo: teme a Deus e guarda os mandamentos, porque esse é o dever de cada homem[ix].

14. Pois Deus julgará todas as coisas, mesmo as ocultas, boas e más.

 


[i] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: “as mós”, lit.: “aquelas que moem”.

[ii] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: “se calarem”: weyeheshû, conj.; “são humilhadas”: weyishahû, hebr. – A alusão ao sono leve do ancião (verso precedente) parece fora de contexto; às vezes se propõe corrigir “se levantarem”, wayyaqûm, por “pararem, weyddom, mas as versões (salvo Simaco) estão a favor do TM.

[iii] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: “perder o gosto”, tradução incerta, lendo-se aí uma forma passiva (wetuppar), em vez da forma wetaper, não documentada. Pode-se traduzir também “é sem efeito”. Outros leem wetipereh, “dá seu fruto”, continuando a imagem do retorno da bela estação do ano: a vida abandona o homem no momento em que a natureza ressuscita. O gafanhoto “se torna um peso” seja porque está bem alimentado (mais uma imagem da primavera), seja, ao contrário, porque o peso mais leve constitui um fardo para o velho.

[iv] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: “que se rompa”: yinnateq, conj. Seguindo sir. E Sim.; “que se deixe distante”: yeraheq, hebr.

[v] Aquele elemento, no homem, que veio da terra deve voltar para lá. Já não há nada na terraq que possa satisfazer ao homem, deve-se concluir que este não provem totalmente da terra e, por isso, aquilo que vem de Deus a ele retornará.

[vi] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: O livro termina como tinha começado, porém confirmado na convicção de que tudo é vaidade. Apontou ao homem sua miséria e grandeza, mostrando-lhe que este mundo não é digno dele. Procura levar o leitor a seguir uma religião desinteressada, uma oração que seja adoração provinda de uma atitude consciente de que a criatura não é nada em face do mistério de Deus (cf. Sl 39).

 

[vii] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: Este apêndice não escrito pelo autor do livro. Pode ser de autoria de um dos discípulos de Coélet, que acrescentou um elogio e conservou as mesmas características de estilo. (cf. VV 12.14).

[viii] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: O aguilhão para fazer os animais andarem, e os pregos para mantê-los amarrados são utilizados no momento oportuno pelo pastor, não por capricho, e sim para o bem do rebanho. A metáfora do pastor poderia ser uma alusão a Moisés ou Salomão ou, o que é mais provável, a Deus.

[ix] Rodapé da Bíblia de Jerusalém: “o dever”, conj.; omitido no texto hebr.