Espero que vocês apreciem mais este texto de Rohden.

LUXÚRIA MENTAL

Há tempo que abandonei a minha velha luxúria verbal.

Hoje, vivo mais na castidade do silêncio, do que na prostituição dos ruídos.

Entretanto, mil vezes mais difícil

Do que renunciar à profanidade verbal

Me foi superar a luxúria mental.

Ainda por largo tempo,

Após a renúncia à incontinência das palavras

Continuou o meu cérebro praça pública

Profanada pelo tropel indisciplinado

De pensamentos rebeldes e vagabundos…

Pensamentos que iam e vinham,

Desordenadamente,

Sem licença nem seleção…

Divagar e devanear,

Espojar-se nas areias fofas dessa indisciplina mental…

E, quando a minha alma acordou

E resolveu fazer dessa praça profana

Um santuário do espírito –

Foi violenta a rebeldia do meu lúcifer…

Ele, que, por tanto tempo,

Fora senhor e soberano da minha vida,

Abdicar-se do seu governo?

Ceder o cetro ao meu Eu divino?…

Quem era esse Eu?

Esse ignoto Alguém que se arvorava em soberano?

E a minha luxúria mental continuou por largo tempo…

Continuei a banhar-me voluptuosamente

Nas tépidas carícias do pensamento…

Assistindo, cheio de prazer,

A essa deslumbrante sucessão

De fogos de artifício,

A esse estonteante doidejar

Dos vagalumes cerebrais,

Em plena noite tropical.

Era tão inebriante esse devaneio

Das fantásticas bolhas multicores,

A bailarem no espaço vazio do meu interior…

Que seria de mim se eu sustasse

Essa torrente mental?…

Não era eu mesmo essa cachoeira de pensamentos?…

Se ela parasse, onde estaria eu?

Que sobraria de mim?…

Não me sumiria nas fauces do nada?

Não cometeria abominável suicídio?…

Assim falava a minha mente,

Que sempre mente

Tão sagazmente…

Que desnorteia a verdade

E impinge as suas inconsistentes miragens

Pela sólida Realidade.

Eu, porém, sentia dentro de mim,

Dentro de meu centro divino,

Um anseio imenso de verdade e segurança.

Nauseado do sacrilégio da minha luxúria mental,

Suspirava pela sacralidade da virgindade espiritual…

Vislumbrava ao longe, muito ao longe,

Para além dos áridos desertos da mente humana,

Os altos Himalaias do espírito divino.

E aos poucos, muito aos poucos,

Re-virginei a minha alma

Prostituída pela indisciplina mental.

Impus silêncio ao meu ruidoso pensar,

Fiz calar o meu inteligir,

Sustei o barulhento caos

Das minhas arrogantes análises,

A insolência dos meus silogismos,

A impertinência das minhas deduções,

A complacente mesquinhez das minhas acrobacias cerebrais.

E fez-se um grande silêncio dentro de mim…

Tão vasto e profundo era esse silêncio

Que nele percebi a voz de Deus

A falar-me,

Assim como o grande silêncio fala ao pequeno silêncio

E minha alma silente compreendeu

Essa voz do silêncio

E agora me sinto puro,

Silenciosamente puro,

Agora me sinto vazio,

Poderosamente vazio…

Porque o ocaso da minha profanidade mental

Expirou na alvorada da minha sacralidade espiritual…

 

A VOZ DO SILÊNCIO – ROHDEN, Huberto – Martin Claret Editores Ltda.,SP,  3ª edição, pg.s 131 a 133.