Compartilho com os amigos um breve resumo da 5ª aula do curso NOVA HUMANIDADE,  proferida em 1977, por Huberto Rohden. 

OBS: os textos em negrito são transcrições literais da palestra, conforme apostila em PDF.

Huberto Rohden

Se dissermos que o homem vem de Deus ou do animal, ambas as coisas estão certas – depende do que se entende por homem.

Esta afirmação é o ponto central desta aula que Rohden inicia mencionando o livro Einstein, o enigma da matemática[i], especialmente a sua segunda parte – Artigos e alocuções de Einstein sobre ciência, religião e filosofia[ii], enfatizando a importância de se conhecer a distinção entre “fatos” e “valores”, utilizando-se da afirmação do ilustre cientista – “Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, porque os valores vêm de outra região”. Segundo Einstein, Fatos é aquilo que é, enquanto Valores é aquilo que deveria ser.

Fatos é aquilo que pode ser percebido pelos cinco sentidos, podem ser analisados pela inteligência – gerando as ciências. Os fatos podem ser tangidos, vistos, cheirados, ouvidos ou saboreados; são conhecidos pela física, química, eletrônica, geografia, história, eletricidade, biologia… Ciência está baseada nos sentidos e na inteligência. A ciência começa com os fatos materiais e tira conclusões intelectuais dos fatos. Portanto, ciência verifica os fatos e analisa os fatos.

Valor, para Einstein e para a Filosofia, possui um significado diametralmente diferente do seu conceito popular. Não se trata, por óbvio, do ‘valor’ de uma nota emitida pelo Tesouro Nacional, nem do custo de uma determinada mercadoria. Os valores são absolutamente invisíveis, inaudíveis, não inteligíveis, intangíveis. Exemplos: Verdade. Justiça, Bondade, Amor, Benevolência, Honestidade. Amizade, Fraternidade… São coisas impossíveis de serem analisadas em um microscópio. Dizem os grandes iniciados: “São muito mais do que os fatos”. Porque nós estamos acostumados a dizer “algo é real quando se pode ver, ouvir, tanger”, então nós chamamos isto real. Nada disto é real. Isto são facticidades, reflexos da realidade, mas, não são a realidade. Os valores são a realidade. Valor e realidade são a mesma coisa.

Uma comparação ingênua: coloque-se diante de um espelho; lá está a sua imagem, por inteiro. Você está no espelho? Não. O que está no espelho é ‘real’? Não. O que está no espelho é apenas um reflexo. Então considere você, seu corpo diante do espelho, como um valor, enquanto que o seu reflexo no espelho será um fato. Um tanto rústico, mas dá para perceber a distinção: o valor é a realidade, enquanto que fato é apenas um reflexo.

Costumamos dizer “algo é real quando se pode ver, ouvir, tanger”, mas isto é incorreto: um fato não é real, é um reflexo da realidade, é uma facticidade. Os valores, sim, são reais; valor e realidade são a mesma coisa. A realidade não está no tempo e não está no espaço, está para além do tempo e para além do espaço. O que está fora do tempo se classifica como “eterno”; o que está fora do espaço se classifica como “infinito”.

Cuidado:

1) Eternidade não é a soma dos tempos. Eternidade é a negação de qualquer tempo.

2) Infinito não é a soma dos espaços. Infinito é a negação de qualquer espaço.

Os valores estão no Infinito e no Eterno. Difícil?

Brincando com a etimologia ou filologia: fato, em português, vem do latim factum, cujo adjetivo é Factício, que depois passou a ser Fictício. Portanto, um fato não é real, é algo puramente ilusório.

Realidade é um valor. Um fato não pode ser uma realidade, porque é pura ficção e está dentro do tempo e do espaço.

Então, Einstein diz: “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores”, da realidade. Os fatos não dão nenhum acesso à realidade. Se nós queremos saber dos valores, da realidade, temos que sair fora dos fatos. Não podemos confiar nos sentidos que só conhecem os fatos, nem podemos confiar na inteligência que analisa fatos. E, para onde é que vamos depois? 

Quando estamos para além dos sentidos e da inteligência, onde estamos?

em êxtase (palavra que vem do grego), ou em

                em samadi (sânscrito) como se diz no oriente, ou em

em satori (palavra japonesa) como dizem os zen-budistas.

Quando se está na zona da realidade, dos valores, se está em êxtase, samadi ou satori. Isto, poucos conseguem.

Muitos não sabem nada do seu EU, porque só veem o seu Ego. Dizem: “eu sou o meu corpo, a minha inteligência, as minhas emoções”. O Ego é um fato percebido pelos sentidos e pela inteligência. A inteligência é um fato e também as emoções. Se alguém disser: “Você é somente o seu ego físico, seu ego mental, seu ego emocional.” “Se alguém matá-lo, não sobrou nada”: será um grande analfabeto da realidade; é um doutor em fatos, mas analfabeto da realidade.

Realidade é valor. E valor está somente em nosso EU central. Este EU central é dotado de um certo grau de livre arbítrio, uns menos outros mais (Livre arbítrio infinito só possui a Divindade). O livre arbítrio nos permite crear valores – só pelo livre arbítrio do EU central creamos valores (Atenção! Nós não creamos valores pela inteligência (é um fato) ou pelos sentidos (são fatos)). Diz Einstein: “Se nós creamos valores, então nós temos que ter consciência da nossa realidade central, do nosso Eu”.

O nosso EU tem poder creador. O nosso Ego só descobre fatos.

Aquela outra frase de Einstein é maravilhosa. Ele pergunta: “Por que todas as religiões do mundo prometem o céu aos bons e não aos inteligentes?” Ele diz: “A terra é para os inteligentes, o céu é para os bons”. Ele fala com uma precisão matemática incrível. Ele responde: “As religiões têm razão porque descobrir os fatos é ser inteligente, mas crear valores é ser bom”. Uma distinção maravilhosa.

Uma criança só conhece e só precisa de fatos. Aos poucos ela começa a despertar para os valores (a verdadeira educação deveria cuidar disto – de despertar para os valores, além de dar instruções sobre os fatos). Os fatos estão fora de nós. Os valores estão dentro de nós.

Vejam que palavras maravilhosas estas duas: ciência e consciência. Têm o mesmo radical: Ciência e consciência. A ciência trata dos fatos que podemos descobrir pela inteligência, e a consciência trata dos valores que devemos crear pelo nosso livre arbítrio. Se não tivéssemos nenhum livre arbítrio, não poderíamos crear valores. O animal não pode crear nenhum valor porque o animal não é dotado de livre arbítrio. Tem um pouquinho de inteligência, inteligência biológica, mas, a inteligência não pode crear valores. E ao animal falta aquilo que chamamos o livre arbítrio que é o creador de valores. Aqui já temos a grande distinção entre o animal e o homem.

Dizendo os darwinistas que o homem é um descendente de animal, um animal aperfeiçoado através de uma longa evolução, estão se atendo aos fatos e esquecendo dos valores. O homem pode acumular em si os fatos em quantidades muito maiores que os animais, mas trás em si algo que difere da quantidade: a qualidade. Qualidade não é um fato, é um valor. Do mundo dos fatos, diz Einstein, não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores. O mundo do animal é o mundo dos fatos, logo não pode conduzir ao homem. Logo, entre animalidade e hominalidade há uma distância infinita.

Se o Ego humano é do mundo dos fatos, donde vêm os valores do EU central do Homem?

Rohden lembra Teilhard de Chardin: “Os teólogos dizem que o homem foi creado por Deus, os cientistas dizem que o homem veio do animal. Então vamos fazer uma conciliação entre os teólogos e os cientistas”.Então, ele inventou esta célebre frase: “A descontinuidade na continuidade”.

A descontinuidade na continuidade é o homem.

***Dizem os teólogos que Deus creou o homem de alto à baixo, sem qualquer ponto intermediário: “Faça-se o homem à nossa imagem e semelhança”. Pronto e acabou-se.

***Dizem os cientistas: O homem não veio da vertical de Deus, mas é a evolução do animal.

***Dizem os filósofos:

Teilhard de Chardin: O animal veio milhares de anos antes do homem e foi se aperfeiçoando.  Num determinado ponto recebe um impacto da vertical de Deus, impacto espiritual, e se transforma em Homem. Descontinuidade da vida na continuidade da vida. Continuidade da vida na evolução animal; descontinuidade da vida no impacto espiritual (início do espírito), impacto das forças cósmicas.

A ciência prova que o nosso corpo vem do animal por que temos os mesmos órgãos, o mesmo método de concepção, o mesmo processo de gestação, de parturição, de nascimento, morte… Não há diferença entre o corpo de um mamífero e o corpo de um homem.

Existe no homem algo que inexiste no animal: Valor. O animal não pode crear valores. O animal não pode ser moralmente vicioso ou moralmente virtuoso. Não pode tratar da benevolência, da justiça, da bondade: isto já é outra zona. É a zona dos valores.

O passado animal de milhares de anos, o nosso passado, era um fato. Mas, dentro deste fato, latente, dormente, o valor. Desde o princípio tínhamos a potencialidade de crear valores, que despertou em atualidade como homem. Assim como a semente traz dentro de si a potencialidade de se transformar em árvore.

O homem veio através do animal. O homem não veio do animal – daqui só vieram os fatos. O homem já existia potencialmente desde o início. Em determinado momento atualizou-se naquilo que era seu fim: transformou-se em homem. O Espírito foi insuflado pelos Elohins em um corpo vivo, não em um boneco de barro; senão, qual a razão de termos, em nosso corpo, os mesmos órgãos dos animais? O Gênesis diz: “Os Elohim disseram – Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. E, depois as Potências creadoras insuflaram, fizeram um corpo de substância orgânica. Está lá. Logo, não de substância inorgânica, do barro. Está no texto grego “shous” – palavra para substância orgânica.

                Apocalipse: “Saiu do mar um animal e recebeu os poderes do dragão e combateu contra Deus”. Considere: animal – o nosso corpo; o poder do dragão – a nossa inteligência. A inteligência é sempre simbolizada pela serpente ou pelo dragão (no oriente, especialmente na China). Não disse Jesus: “Sede inteligente como a serpente e humilde como as pombas”?

Bhagavad Gita: “O ego é o pior inimigo do Eu”. O Ego é nossa inteligência (a serpente) e o EU é o espírito de Deus em nós. E o Ego está em constante luta contra o Eu – “mas o Eu é o melhor amigo do ego”. Felizmente, senão não teríamos esperança.

Eis a chave para compreender a dúplice natureza humana: o homem nunca teve uma natureza simples; ele sempre teve uma natureza que abriga dois polos: um polo negativo – o Ego, que só conhece os fatos – e um polo positivo – o Eu, o Espírito de Deus em nós, que conhece os fatos e os valores. Os fatos não podem descobrir os valores, diz Einstein, mas o valor pode descobrir os fatos. Vejam bem, os valores sempre correspondem ao Eu e os fatos correspondem ao ego. O ego não vai fazer as pazes com o Eu. Não tem esperança nenhuma. Ele briga eternamente, mas graças a Deus, o Eu pode fazer as pazes com o ego, porque o Eu é sábio e o ego é apenas intelectual. A inteligência não é sabedoria. Sabedoria é coisa espiritual e inteligência não é espiritual.

O dia em que descobrirmos o polo positivo em nós, o nosso EU, haverá harmonia em nossa natureza.


[i] A partir da 4ª edição este livro passou a chamar-se Einstein O Enigma do Universo.

[ii] Possuo a 2ª edição, texto integral, 1ª reimpressão 2008, com o título da nota anterior. Estes Artigos  e Alocuções correspondem lá à Terceira parte (não segunda).