Breve resumo da terceira aula do curso NOVA HUMANIDADE, ministrado por HUBERTO ROHDEN em 12 de abril de 1977.

APROVEITO PARA DESEJAR A TODOS UM 2.013 COM MUITA PAZ, MUITAS REALIZAÇÕES E PELO MENOS ALGUNS PASSOS RUMO À META DE TODO SER HUMANO AQUI NA TERRA: SUA AUTORREALIZAÇÃO.

 

            Quando começaram a construir aqueles arranha-céus, no Vale do Anhangabaú, trabalhavam, engenheiros e operários, meses inteiros nos canteiro cavados profundamente, preparando fundações, alicerces, estacas…sem que ninguém visse o edifício; só meses após surgia o 1º andar, o 2º andar… etc. Também não podemos falar de NOVA HUMANIDADE sem antes deixar bem claro os seus fundamentos. Falaremos ainda um pouco sobre o princípio das coisas.

Moisés não inicia o Gênesis falando do homem. Inicia contando a formação do Universo.  As 3 palavras com que começa a Bíblia, o Gênesis, são estas :

Bereshit Bara’ Elohim

Palavras hebraicas, escritas há 3.500 anos atrás.

Bereshit = no princípio;  

Bara’ =crearam;

Elohim = As Potências.

E completa: “o céu e a terra”.

Quem são os Elohim? Moisés nunca fala em Deus. Fala em Potencias Creadoras. Usa o plural, mas não significa politeísmo. Usa o plural de Majestade: Vossa Majestade, Vossa Senhoria, etc. Elohim é plural de coisa grandiosa: A Alma do Universo. Maravilhosa esta palavra latina Universo (ela não existe em outras línguas):

Uni=causa                  verso=efeitos

Uni= essência                         verso=existências

Uni, o absoluto           verso = as coisas relativas.

Uni = Infinito              verso = os finitos.

Em vez de Unopodemos dizer o Creador; e em vez de verso, podemos dizer as creaturas. E assim por diante. Vamos usar muito neste curso a palavra Universo, entendendo sempre Unio Eterno, o Infinito, a Causa, a Essência a Divindade, Brahman, e assim por diante… E por verso, as creaturas, os efeitos, maia como dizem lá no oriente, a natureza. Unidade na diversidade; o Infinito que se manifesta sempre em finitos; a causa que se revela sempre em efeitos; a Divindade que se revela em muitas creaturas: isto é, Universo. As palavras juntas dão a totalidade: causa e efeito, infinito e finito, essência e existência. O Creador e as creaturas. É a totalidade das coisas.

Bara’ significa crear. Crear quer dizer a transição da Essência para a existência. A transição do infinito para o finito, do Universal para o individual. A transição do Absoluto para o relativo; do Creador para as creaturas, a transição do Eterno para o temporário. Isto nós chamamos crear. Há que se fazem distinção entre crear – palavra latina – e criar, neologismos surgido no Brasil.

Objeção recebida por carta: “Não pode haver tal coisa como creação, porque se o creador pluraliza ou se multiplica em forma de creatura, ele perde uma parte de sua essência. Uma fogueira que lança fora muitas centelhas, faíscas, vai diminuir na razão direta em que ele joga fora estas centelhas. Mas como as creaturas são centelhas do creador, se o creador produz muitas creaturas, ele fica diminuído. Ele vai perder aquilo que ele joga fora de si, como uma fogueira, que joga fora muitas faíscas, muitas centelhas, ela vai diminuindo pouco a pouco. A não ser que estas faíscas voltem para ele, mas, geralmente elas se apagam lá fora”.

O Creador não é uma quantidade. Se fosse uma grande fogueira jogaria fora parte de si, mas não o é. Os poetas podem dizer que somos “centelhas” da Divindade, o que é muito bonito; mas não o podem dizer os filósofos. Seria melhor expressar que somos “pensamentos” do Creador. Por mais que um pensador pense, ele não perde nada de si mesmo; e os pensamentos são sempre parciais, não são a sua totalidade. O Creador é uma qualidade, não uma quantidade.

Aristóteles (Grécia, 4 séculos aC), “o príncipe da filosofia”, disse: “Deus é ato puro. Deus é pura atividade. Ele não é passividade nenhuma. Ele é absoluta, infinita atividade, vibração.” A Divindade não tem passividade – é infinitamente ativa. A infinita passividade seria o nada. A infinita atividade é o todo, é o grande todo. Não um todo quantitativo, mas um todo qualitativo. O contrário de todo infinito seria o nada; passividade absoluta seria o nada. Assim Aristóteles concebia a Divindade: Infinita Atividade.

E nós? Somos um pouco atividade e um pouco passividade. Nós somos algo. Nós não somos nem o todo, nem o nada. Estamos no meio. Somos parcialmente ativos e parcialmente passivos. E estamos entre o todo infinito e o nada infinito. Temos uma certa porcentagem de atividade e uma certa porcentagem de passividade.

O que é Atividade? Não quer dizer uma coisa externa; quer dizer consciência. A mais alta atividade interna que existe em mim se chama consciência. Atividade é quando tenho consciência metafísica (não ética) de mim. Infelizmente em português não temos palavras próprias; em inglês, alemão e outras línguas há uma palavra própria para consciência metafísica e uma palavra diferente para consciência ética. Em inglês consciousness (consciência metafísica) e concious (consciência ética). Em alemão- Bewusst’sein (consciência metafísica) e Bewusst (consciência ética). E o fato de eu ter consciência de mim mesmo, não tem nada a ver com o bem ou mal. Quando temos pouca consciência metafísica de nós, estamos num plano muito baixo de existência, e quando temos alto grau de consciência metafísica de nós mesmos, então chamamos isso autorrealização. A autorrealização não é outra coisa senão a evolução ascensional da nossa consciência metafísica.

Spinoza, o grande filósofo do século XVII, diz: “Deus é a Alma do Universo e o Universo é apenas o corpo de Deus”. A Alma do Universo ele entende a consciência infinita do Universo. E o corpo do Universo ele entende a parte material. A alma do Universo é o Uno e o corpo do Universo é verso.

De maneira que os Elohim crearam os céus e a terra – não do nada, mas do todo. A verdadeira creação não é do nada da existência, mas do todo da essência. É incorreto dizer que a creação é do nada da existência e, ainda mais, que é também do nada da essência. O nada da essência é uma utopia: a essência é o TODO e não existe o nada; o nada é uma abstenção, não é uma realidade. Quer dizer, nós temos que definir creação como uma transição do todo da essência para uma existência parcial. Isto também entendeu Moisés: não é uma transformação da essência na existência; a essência não se transforma na existência; a Divindade não se transforma na Creatura; o Uno não se transforma no verso; o Infinito se revela no finito. Devemos entender que o Infinito pode revelar-se, manifestar-se parcialmente em formas finitas. É o único modo como conceber corretamente a creação.

Portanto, o Uno, a Causa, a essência, o Infinito, o Eterno, a Divindade, Brahma, etc… pode manifestar-se – não totalmente, isto é impossível; mas o Infinito pode manifestar-se parcialmente em formas finitas de diversas espécies. O Infinito pode manifestar-se parcialmente no finito mineral, ou parcialmente no finito vegetal, parcialmente no finito animal, e parcialmente no finito hominal e muitos outros finitos. Isto nós entendemos por creação.

 

O modernismo inventou ultimamente em nossa ortografia a palavra “criação”.               Criação com “i” é uma produção, uma transmissão do finito para outro finito. Mais ainda, nós podemos criar (galinhas, por exemplo), mas não podemos crear. O EGO é apenas criador, não é creador. Crear supõe um poder infinito, uma manifestação do Infinito rumo aos finitos. Creadores somos em nosso EU, apenas quando ultrapassarmos nosso ego físico, mental e emocional. O nosso EU central, verdadeiro, é idêntico à própria Alma do Universo, isto é, a Alma do Universo se manifesta em cada um de nós na forma de nosso EU central, não do nosso ego periférico.

A ciência, com auxílio da química, física, biologia etc., descobre, analisa, os fatos da natureza. A ciência é do nosso EGO. O EGO é descobridor, não creador. O nosso EU CREA valores, não fora de nós, mas dentro de nós mesmos. Veja a nítida diferença estabelecida por Einstein:  “Por que é que todas as religiões prometem o céu aos bons e não aos inteligentes? Porque descobrir fatos é ser erudito, é ser inteligente, mas isto não nos faz melhores”. Eu não sou melhor por descobrir fatos. Eu fico no status quo. Quer eu descubra muitos fatos ou poucos fatos da natureza, isto não me torna melhor, isto não me valoriza. Isto apenas me faz erudito, inteligente, me dá ciência. “Mas”, continua Einstein “quando alguém crea valores dentro de si mesmo, então ele se torna bom. Descobrir fatos nos torna eruditos. Crear valores dentro de nós nos torna bons e felizes. E como o céu é para os bons e a terra é para os eruditos, as religiões fazem muito bem em prometer o céu aos bons e deixar a terra para os eruditos”. É interessante essa distinção que ele faz.

O que são valores? Valor é um produto do livre arbítrio, que só existe dentro de cada um de nós. Livre arbítrio é uma função, uma potência metafísica, creadora, que existe dentro de mim. Dentro de mim existe o EU que pode crear valores e, assim, posso tornar-me melhor do que sou. Dentro de mim existe o próprio sujeito que pode crear valores. Eu me posso tornar melhor do que sou, também posso tornar pior do que sou. Quer dizer, eu sou uma espécie de creador, não no meu ego que é apenas descobridor, mas no meu Eu. No meu Eu sou imagem e semelhança de Deus.

Quando os Elohim crearam o homem, disseram: “ele agora é imagem e semelhança nossa”. As demais creações não o eram, mas o homem era – Por quê? Porque deram a ele o poder creador. Parece que somos, no planeta terra, os únicos com tal poder. Aqui só conhecemos creaturas que só podem descobrir fatos – como o pode também fazê-lo o nosso EGO. Einstein se utiliza destas expressões: “Das was ist” – aquilo que é, que já existe – isto é o que descobre o cientista pelo poder de sua inteligência; “Das was sein soll” – aquilo que deve ser – e isto só é creado pelo poder do livre arbítrio, e o livre arbítrio existe dentro de nós, em nosso verdadeiro EU.  Quer dizer, nós fazemos existir coisas pelo poder do livre arbítrio que antes não existiram e que depois existem.

Isto é ser bom – crear valores positivos é bom. Mas podemos também crear valores negativos, o que é ser mau. Ser bom ou ser mau não tem nada a ver com o descobrimento de fatos da natureza. ; isto é indiferente.

 

Valores são creações do nosso livre arbítrio: verdade, justiça, amor, benevolência, amizade, fraternidade, honestidade… Não são coisas, não são objetos. Valores são creados pelo livre arbítrio, isto é, nosso EU, nossa consciência. Podem ser negativos, como podem ser positivos.  Aqueles nos tornam piores e estes nos tornam melhores. Estes significam a nossa evolução, isto é, estamos promovendo a nossa evolução ascensional, que chamamos de autorrealização; aqueles significam a nossa involução, isto é, nos tornamos piores do que somos. Quanto ao nosso EGO podemos nos tornar eruditos ou ignorantes, mas só pelo nosso EU central podemos nos tornar melhores ou piores.

O homem foi creado à imagem e semelhança de Deus -foi creado com o poder creador – poder creador positivo e também com o poder creador negativo – senão não haveria livre arbítrio.  Por que prevalece a creatividade negativa? Porque é mais fácil ser mau do que ser bom. E se é assim, nada tem a ver com Deus nem com o diabo. Tem a ver conosco. Nós podemos tornar um mundo melhor do que ele é, pela nossa creatividade positiva, e muito pior do que ele é pela nossa creatividade negativa.

 

A nossa evolução sempre começa pelo lado de fora. Toda evolução vai de fora para dentro. É estranho, mas pode verificar em toda natureza que é assim que acontece, da periferia para o centro. A nossa periferia é o nosso ego e daí a nossa evolução vai caminhando para o centro, em passos lentos.

Se o nosso livre arbítrio funcionasse melhor do que funciona atualmente, nós poderíamos acelerar nossa evolução. Paramahansa Yogananda diz[i]: “Um homem altamente consciente do seu valor espiritual, um homem autorrealizado, portanto, pode fazer em 20 anos o que os outros não fazem em 20 séculos. Quer dizer, a nossa liberdade é muito elástica e eu posso intensificar a minha evolução e também posso retardar a minha evolução e até posso fazer uma involução rumo aos abismos.O grosso da humanidade gosta de andar nas planícies, na horizontalidade, sem muito esforço.

Chegar a nossa auto-realização em 20 anos, ou em 20 séculos? Tudo depende do livre arbítrio, o único poder creador que existe em nós. Mas antes temos de descobrir o nosso EU, a nossa Consciência. Uns poucos estão se iniciando em seu EU – isto é apenas o princípio. Autorrealizar-se é o fim da jornada.

Quando alguém não se identifica mais com seu ego periférico, físico, mental e emocional, mas descobre “eu sou a minha alma, eu sou o meu Atman, eu sou o espírito de Deus em mim”, está no abc de seu autoconhecimento. Depois tem que viver de acordo com seu conhecimento. Autoconhecimento foi sempre a coisa mais importante para a  humanidade. Homem, conhece-te a ti mesmo. Que és tu? És o teu corpo? Não. És a tua mente? Não, és as tuas emoções? Não, és o teu espírito? Sim. O autoconhecimento, cedo ou tarde, transborda em autorrealização e então nasce o homem integral, o homem cósmico.

De início conhecemos o homem profano, identificado com o seu EGO.

Depois temos o homem místico, que abandona as periferias e se isola em seu EU.

Finalmente, o homem cósmico que diz: “Vamos fazer uma síntese entre o Eu central, o nosso Eu verdadeiro e todas as periferias do nosso ego. Vamos estabelecer uma grande harmonia, entre o nosso ser interno e nosso existir externo”.

O ego existe e o Eu é. Ser é muito mais do que existir. Ser é uma coisa central e existir é uma coisa periférica.

 

OBS.: em negrito e itálico os textos transcritos da apostila de transcrição da aula.

Reiterando: APROVEITO PARA INFORMAR QUE ESTE – E OUTROS CURSOS DE ROHDEN – PODEM SER OBTIDOS COM A SRA. IRIS GOMES, TANTO EM ÁUDIO (MP3), COMO TRANSCRITOS EM APOSTILAS (por inteiro, naturalmente). DOU A SEGUIR O E_MAIL DE CONTATO DA SRA. IRIS, BEM COMO DE SEU BLOG, ONDE PODERÃO APRECIAR MUITOS OUTROS TEXTOS DE ROHDEN:

E_mail:                 ihgomes@hotmail.com

Blog:                     http://ihgomes.wordpress.com/

 

 


[i] Biografia de um yogue.