Breve resumo da aula nº 4 do curso NOVA HUMANIDADE, ministrada por HUBERTO ROHDEN em 19 de abril de 1977.

 

Teilhard de Chardin viveu na Ásia por 20 anos, exercendo suas atividades de arqueólogo. Foi responsável pela descoberta do homem pré-histórico Sinantropos (Sina, termo latino para China, e antropos = homem). Quando retornou à Europa escreveu O Fenômeno Humano, no qual deixou registrado: “O homem é uma descontinuidade da vida na continuidade da vida”. Misterioso! Nós somos uma descontinuidade da vida através da continuidade da vida. Quer dizer, a vida já existia antes de nós, mas conosco começou uma coisa nova, uma descontinuidade, um novo princípio enxertado na vida velha que já existia.

Nesta continuidade da vida, e por milhões de anos, o homem teve seu itinerário evolutivo através de quatro estágios: Hilosfera (matéria, a vida mineral); Biosfera (vida); Noosfera (inteligência – onde estamos agora); e Logosfera (razão – onde deveremos chegar). Tudo hoje é inteligência: estudo da física, da química, da biologia, da geografia, da eletricidade, da eletrônica – é tudo Noosfera. Sob o Noos chegamos à lua e vamos mais longe ainda.

Acima da Noosfera está a Logosfera. Logos é razão e repito: não me confundam inteligência com razão. Hoje estamos na Noosfera, o estágio da Inteligência, e a NOVA HUMANIDADE estará no estágio da Logosfera, quando a nossa terra será um verdadeiro Paraíso, sem guerras, sem crimes, sem defraudações e haverá a fraternidade universal dos homens. Teilhard de Chardin diz que o homem ainda não chegou à Logosfera. De vez em quando aparece uma exceção: Jesus, talvez Buda, quem sabe Gandhi.

Quando nascemos estamos na biosfera, na vitalidade. A criança não está na Logosfera: potencialmente sim, está; mas atualmente não. O animal parece que nunca vai chegar à Logosfera. A noosfera, a inteligência humana não é inteligência biológica. O animal possui inteligência biológica, mais isto ainda não é Noosfera. No nosso planeta Terra parece que somos os únicos na Noosfera.

Quando aparece alguém na Logosfera, alguém sugerindo que amemos os nossos inimigos, ficamos estupefatos. Mahatma Gandhi chegou muito perto da Logosfera. No fim de sua vida perguntaram-lhe: “Você que é um homem muito espiritual, perdoou todas as ofensas que recebeu durante sua longa vida?” “Não, não perdoei nada a ninguém.”…”Não devo perdoar porque nunca ninguém me ofendeu.” Se o homem pode falar assim sem mentir, e ele não mentia. Este homem já é um predecessor, um precursor da Logosfera. Nós achamos que é muita coisa para sermos capazes de perdoar. Nós sentimos que somos heróis porque perdoamos aquela velha dívida que nos ofendeu lá embaixo, mas nós somos sujeitos muito avançados, impingimos perdão de alto a baixo. Achamos que é grande coisa. Virtuosidade para nós é a coisa mais alta que existe. Mas, para a Logosfera, virtuosidade não é coisa muito grandiosa. Sabedoria é muito mais alta que toda virtuosidade, para uso da Logosfera. Sabedoria é não se sentir ofendido. Virtuosidade é sentir-se ofendido, mas perdoar.

 

No dizer de Teilhard de Chardin nós ainda não estamos no quarto estágio da Logosfera. Para explicar isto vou primeiro me referir a este desenho aqui.

 (ROHDEN AQUI SE REFERE A UMA CRUZ: DUAS RETAS IDÊNTICAS  QUE SE CRUZAM, UMA NA HORIZONTAL E OUTRA NA VERTICAL.)

Isto é o que chamamos cruz. E a cruz não tem nada a ver com religião. É um sinal antiguíssimo na Índia, China e no Egito que simbolizava o Infinito, o Absoluto, o Eterno, a Divindade, Brahman, Ra, Tao, Yaveh.

E quando queriam se referir ao finito, faziam um círculo, porque o finito termina lá onde começou:

 (AQUI REFERE-SE A UM CÍRCULO)

Costumavam representar o círculo como uma serpente que mordia sua própria calda: o princípio coincide com o fim. Este é o finito, mas, na linha reta não há regresso. A linha reta não volta sobre si mesmo. Ela vai para o infinito, para cá, para lá…em todos os sentidos.

Mas usavam ainda este outro sinal:

 (É A MESMA CRUZ CORTANDO DIVERSOS CÍRCULOS CONCÊNTRICOS.)

Imagine a cruz como símbolo do Infinito, do Uno; e os círculos como símbolo dos finitos, do verso. O Infinito dentro dos finitos e os finitos dentro do Infinito. Dentro de todos os círculos há uma parte do Infinito. Dentro de todos estes círculos têm uma parte do Infinito. A cruz atravessa todos os círculos. Logo, o Infinito está dentro de todos os finitos. E todos os finitos estão dentro do Infinito. Todos os círculos estão dentro da cruz e a cruz está parcialmente em todos os círculos. Todo o finito está totalmente no Infinito, e o Infinito está parcialmente em qualquer finito. Isto se chama Imanare – em latim, estar dentro, daí a palavra Imanência. Quando o Infinito está dentro de todos os finitos: do finito mineral, do finito vegetal, do finito animal, do finito hominal e de outros finitos, então dizemos: “O Infinito está imanente (morando dentro) em todos os finitos. E, por outro lado, os finitos estão todos imanentes no Infinito”. Mas, o Infinito também é transcendente a todos os finitos. Esta parte que está fora do círculo nós chamamos, transcendência. O que passa além é transcendente. O que está dentro é imanente.Podemos dizer: “O Infinito é transcendente a todos os finitos, é maior que todos os finitos, mas apesar disto, todos os finitos estão dentro do Infinito”.

O Infinito é às vezes chamado Deus, mas não usamos a palavra Deus na filosofia; usamos Infinito, Absoluto, Eterno, Transcendente. Os teólogos reduziram a palavra Deus a uma pessoa que mora do outro lado das nuvens; e seria um absurdo que um indivíduo estivesse dentro de todos os finitos. O Infinito pode estar dentro e fora de um átomo, ou pode estar dentro e fora de um animal ou de uma planta. O Infinito pode, pois não é uma pessoa, mas uma realidade, uma energia, uma consciência, é puro espírito, é a realidade em si mesmo. Estou explicando isto para que entendam o que vou dizer sobre o homem.

Há duas teorias sobre a origem do homem. A mais antiga ensina que o homem veio diretamente de Deus, ou do Infinito, baseando-se na descrição do Gênesis: depois de crear o mundo mineral, o vegetal e o animal e outros mundos, Deus juntou uma bolota de barro, modelou um homem e disse – “Agora vamos fazer o homem segundo a nossa imagem e semelhança”. Está escrito no Gênesis e o Gênesis não está errado. O que está errado é a interpretação.

Moisés, um dos maiores homens de toda a história da humanidade, escreveu o Gênesis depois de 40 anos de meditação na solidão dos pastos da Arábia, enquanto cuidava do rebanho de seu sogro. Moisés se esvaziou de seu ego e deixou-se invadir pela consciência cósmica do Universo – tornou-se tremendamente intuitivo. Tornou-se totalmente vazio de si mesmo e foi plenificado pela Alma do Universo. O ego esvaziamento provoca uma cosmoplenificação. Foi isto que aconteceu com Moisés, como também com Jesus, após ficar 40 dias na solidão, Com Elias após 40 dias também na solidão, com Francisco de Assis após 2 meses no Monte Alverne e, quiçá, com Mahatma Gandhi que se retirava toda segunda-feira em absoluto silêncio.

E Moisés então escreveu o que viu, escreveu o Gênesis. Depois de ter narrado a origem o mundo, falou da origem do homem: então os Elohim (ele não fala em Deus, mas das forças cósmicas) disseram “Agora vamos fazer o homem à nossa imagem e semelhança”. Isto é o que está lá, mas nós não pensamos intuitivamente como Moisés, mas analiticamente – e a análise intelectual é muito fraca. Moisés falou em parábolas, mas nós só operamos com a inteligência exotérica e tomamos o dito ao pé da letra. A história do homem feito de um bonequinho de barro é invenção humana, não está no Gênesis. Somos crianças que não entendem a sabedoria de Moisés.

Entregue a uma criança de 6 anos a Comédia de Dante e peça-lhe a avaliação. Irá mencionar a capa do livro, o tamanho das letras, o aspecto das ilustrações… Mas não entenderá nada do conteúdo do escrito. O Gênesis, o Evangelho, o Apocalipse são livros inspirados, mas nós somos crianças, praticamente analfabetos, em relação à inspiração. Não vamos entender nada. Felizmente os grandes inspirados como Teilhard de Chardin e outros, já interpretaram de outro modo. Teilhard disse: “O homem veio através da matéria, através da vida, através da inteligência e vai chegar até à razão”. A fonte não é a matéria, não é a vida, não é a inteligência, é o Infinito. Tudo o que é finito veio do Infinito. Se não houvesse o Infinito, os finitos não existiriam.

Então, Teilhard de Chardin sabia que todo o mundo material veio de uma fonte infinita e que todo o mundo vital, biosfera, veio de uma fonte infinita e que todo mundo intelectual veio da mesma fonte infinita, e o mundo racional também veio da mesma fonte. Então ele diz: “O homem fluiu através de canais materiais, através de canais vitais (vegetais e animais), e através de canais intelectuais, como está agora”. Porque o intelecto também é um canal. E nós vamos chegar algum dia até uma coisa muito superior ao intelectual, ao racional. Teilhard fez uma síntese da evolução do homem: todos os finitos vieram do Infinito, inclusive o homem. Mas não veio diretamente do Infinito, mas através de muitos outros canais finitos: “Nos somos uma descontinuidade da vida baseado na continuidade da vida”. A humanidade não é um novo início de vida, mas uma continuação do que já existia. A vida mineral já existia antes de nós. A vida vegetal já existia. A vida animal já existia e nós fomos enxertados, por assim dizer. Enxertados no tronco de outras vidas anteriores a nós. Até isto chegou mais ou menos a nossa ciência hoje.

A teologia pensa que saímos diretamente de Deus, sem nenhum intermediário. Os darwinistas, desde o século passado, pensam que não precisamos do Infinito, isto é, que basta o mineral, o vegetal e o animal para explicar o homem – e isto se chama evolucionismo. Diferentemente dos teólogos, afirmamos que o nosso corpo fluiu através de muitos outros organismos. Diferentemente dos darwinistas, afirmamos que apenas o nosso corpo fluiu através de outros organismos, porém o nosso espírito veio diretamente do Infinito: somos uma descontinuidade da vida baseado na continuidade da vida. Nós podemos derivar o homem corporal dos animais, mas não podemos derivar aquilo que não está no corpo animal. Isto é coisa diferente. Então, para isto nós precisamos disto: Tudo está no Infinito, mas nem tudo está nos finitos.

Os teólogos só querem creação sem evolução.

Os cientistas querem evolução sem creação.

E nós queremos os dois.

“O homem foi creado por Deus”, dizem os teólogos; “O homem é uma evolução do animal” – afirmam os cientistas. Nós dizemos que ambos tem 50% de razão, então fazemos uma síntese entre creação e evolução e ficamos com 100% de razão: o homem realmente foi creado pelo Infinito, mas ele fluiu através de muitos finitos. Aceitamos tanto a creação como também a evolução, porque os dois são fatos. Precisamos da evolução que é um processo multimilenar de um organismo para outro, mas o organismo inferior não pode produzir um organismo superior, dotado de inteligência, sem que apelemos para fonte: precisamos da creação que é a relação entre o Infinito e o nosso finito.

 

OBS.: em negrito e itálico os textos transcritos da apostila de transcrição da aula.

Reiterando: APROVEITO PARA INFORMAR QUE ESTE – E OUTROS CURSOS DE ROHDEN – PODEM SER OBTIDOS COM A SRA. IRIS GOMES, TANTO EM ÁUDIO (MP3), COMO TRANSCRITOS EM APOSTILAS (por inteiro, naturalmente). DOU A SEGUIR O E_MAIL DE CONTATO DA SRA. IRIS, BEM COMO DE SEU BLOG, ONDE PODERÃO APRECIAR MUITOS OUTROS TEXTOS DE ROHDEN:

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