Breve resumo da sexta aula ministrada por HUBERTO ROHDEN em 03 de maio de 1.977, no curso A NOVA HUMANIDADE. Lembro que a quinta aula, O HOMEM ESSE MISTÉRIO, foi a primeira a ser colocada neste Blog, em 05/11/2012.

 Vou focalizar um pouco o Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento. Os outros livros são históricos, mas o Apocalipse é um livro, uma visão do futuro. Lá ocorre o seguinte sobre o homem velho e o homem novo. O homem velho aparece aí como o animal que veio do mar. O Apocalipse, aqui – acompanhando o que já o dissera o Gênesis -, supõe que o homem, antes de ser homem, já existia como ser vivo.

Diz o Apocalipse: veio o animal do mar e recebeu todos os poderes do dragão. É bom saber que dragão e serpente sempre representam a mesma ideia[i]; Na China e no Tibet só se fala em dragão, mas o Gênesis fala em serpente. Então, o animal que veio do mar recebeu todos os poderes do dragão, ou seja, da serpente, e começou a blasfemar contra Deus[ii]. Imagine! É muito perigoso receber os poderes do dragão. O dragão representa a inteligência luciférica – a inteligência contra o espírito. O dragão é sempre a coisa hostil ao espírito, a inteligência que não combina com o espírito. A Bhagavad Gita diz claramente: “O ego é o pior inimigo do Eu”. O ego é a inteligência, é claro, é o dragão e a serpente. O Gênesis, o Bhagavad Gita e o Apocalipse supõem que o ego representa a parte mental do homem, que é sempre inimiga do espiritual, vê-se eclipsado pelo Eu espiritual e não aceita receber ordens, ainda que o Eu seja o melhor amigo do ego, como ensina Bhagavad Gita.

Apenas o animal que veio do mar recebeu os poderes do dragão, começou a blasfemar contra Deus e declarou guerra a todos os povos do mundo. O nosso Ego é assim, blasfema e guerreia para cima e para baixo, por todos os lados. Não tem paz e não faz tratado de paz com ninguém. Nós conhecemos isto, nós vivemos isto. Onde há 2 egos há briga e onde há 3 egos há guerra. É sempre assim.

Então apareceu o cordeiro e derrotou o dragão. O cordeiro[iii], o símbolo da paz, inerme, derrotou o dragão, sem armas materiais, sem armas mentais, mas com o poder espiritual.

E tivemos um outro exemplo disto em pleno século XX: lá na Índia vivia um cordeiro chamado Mahatma Gandhi, que nunca permitiu que seus seguidores odiassem, ferissem, matassem alguém – “vocês têm que amar todos os nossos inimigos, ainda que há 150 anos eles estejam nos maltratando”. Não vamos usar violência, mas Ahinsa (não violência) e Satyagraha (poder da verdade). Bem, isto é a linguagem de um cordeiro, e ninguém poderia esperar que um único homem sem armas, Gandhi expulsasse os ingleses – um poderoso império britânico que ocupava a Índia. Quer dizer que aqui se manifestou mais uma vez o poder do espírito contra a violência mental e material.

Está no Apocalipse: o cordeiro derrotou o dragão, que foi, por 1.000 anos, aprisionado. O dragão é o nosso Ego, é o velho homem. O cordeiro é o nosso EU, a Nova Humanidade.

E por que a velha humanidade não lutou mais contra a nova humanidade? O Apocalipse se cala – não diz uma palavra. Mas, os experientes devem ter interpretado assim: Porque, durante 1.000 anos ele compreendeu a sabedoria do cordeiro e que o mental deveria se integrar no espiritual. Quando isto acontecer aqui entre nós, então nascerá a NOVA HUMANIDADE. E parece que o Apocalipse está prevendo isto. Assim eu entendo o Apocalipse, porque o dragão não lutou mais depois que foi solto pelo cordeiro. Mas antes ele lutava, está lá. Quer dizer, aqui o Apocalipse apresenta o velho homem como um animal que recebeu os poderes do dragão. Um paralelo perfeito ao Gênesis, o homem recebeu os poderes da serpente.

Vamos falar um pouco sobre a serpente. Estamos habituados à ideia de serpente como a inteligência humana. Jesus usou esta imagem: “sede inteligentes como as serpentes…”[iv] Hoje se fala muito da literatura oriental e, então vocês sabem que na Índia a serpente se chama Naja (também Naya e até Naga). Moisés, em seu texto hebraico, chama a serpente de Nahash. Não há semelhança entre as palavras: Naja, em sânscrito , e Nahash, em hebraico? A palavra é a mesma. Moisés viveu na Arábia por 40 anos e, certamente teve contato com a Índia. A Arábia é oriente médio e Índia é oriente longínquo, mas são ambos países asiáticos. Então, Moisés também pegou a ideia da serpente para simbolizar o homem em certo estágio da sua evolução. O homem mental, o homem intelectual é chamado a serpente, como na Índia Naja e em hebraico, Nahash. Quando alguém tem faculdade superior à média, se costuma dizer que é um “cobra”, um “mago”, um “feiticeiro”. Até os nossos indígenas usam a serpente como coisa superior: um padre italiano, Colbaquini, juntou-se, como missionário, a uma tribo de índios selvagens em Mato Grosso; tornou-se tão querido que o nomearam membro honorário com o nome de Boiguaçu – Boi, Boia = cobra, Guaçu = grande. Por que este nome? Porque ele sabia das coisas, sobretudo medicina e plantas que curavam os índios.

Na Índia é célebre a história de Kundalini, que é a serpente. Kundalini é personificação da palavra Kundala, cujo significado é ‘enroscado’. De enroscado para serpente porque esta fica toda enrolada, enroscada, quando em hibernação, nas regiões frias, durante 2 ou 3 meses.

Anos atrás um iogue demonstrou que podia viver meses sem se alimentar. Ficou numa casinha de janelas de vidro, deitado em uma cama de pregos, por 130 dias. Quando fui vê-lo, reparei que havia muitas cobras, possivelmente não venenosas, ao redor e sobre ele. Indaguei o por quê? Disseram: “Há! Isto dá muita vitalidade, as auras das cobras dão muita vitalidade, por isso ele aguenta melhor o jejum na presença das cobras.” A cobra tem uma vitalidade estranha: ela pode viver meses sem comer, mesmo fora da hibernação. Por isto os hindus tomaram a Naja como símbolo da vitalidade. E a coluna vertebral dos humanos tem a forma de uma serpente.

Coluna vertebral

Quem vê isto assim diz que isto é uma serpente (esquece a cabeça, é claro). É muito parecido. Uma cabecinha em cima e o último chacra tem a forma de um grande esse, assim, com duas curvas. E como toda a nossa vitalidade passa através da coluna vertebral, a filosofia hindu de 7000 anos de existência achou que a coluna vertebral era uma espécie de serpente, porque dá vitalidade ao nosso corpo.

Discutiu-se muito, onde está a sede da vida no nosso corpo. Muitos acham que está no cérebro, outros que está no coração, outros que a sede da vida está no sangue. Mas, os mais antigos filósofos da Índia já sabiam que a sede da nossa vitalidade está na coluna vertebral. Porque a coluna vertebral é toda atravessada pelos nervos. Porque as vértebras têm uma abertura no meio e através desta abertura passa um líquido e dentro do líquido estão os nervos. Passam os nervos através da medula da coluna vertebral. E, como sem nervos ninguém tem consciência, nós não podemos sentir nada senão através dos nervos, era muito natural que os filósofos antigos considerassem os nervos a sede da própria vida. E, descobriram que os nervos são os canais por onde a vida cósmica se comunica a nós. Os nervos da coluna vertebral são canais que estão em contato com a vida cósmica, com a vida universal.

O ar é o condutor de nossa voz, tanto assim que os astronautas que estiveram na lua não podiam se comunicar pela voz. O ar leva nossa voz até 100, 200 metros. Mas se estivermos mais longe, precisamos de outro condutor: os fios metálicos conduzem a eletricidade; a eletrônica não precisa de fios, usa o éter. Mas os nervos são os condutores da energia cósmica. Não temos consciência se não temos a comunicação dos nervos. O que faz a anestesia (palavra grega para insensibilidade)? Interrompe a comunicação dos nervos. Numa anestesia geral só não param o coração e a respiração, mas ficamos totalmente inconscientes. Ou seja, os nervos são os veículos da consciência. Por isso os hindus acharam que a nossa coluna vertebral é uma serpente de alta vitalidade. E a vitalidade está graduada. Embaixo há pouca vitalidade. À medida que vai subindo a vitalidade, a consciência aumenta. Então, localizaram na coluna vertebral 6 centros de consciência que eles chamam chacras. Chacras quer dizer rodinha, literalmente. Mas os chacras não são centros materiais, são puramente energéticos. Por isso ninguém vai encontrar um chacra, um centro de forças, pois força é coisa invisível.

Einstein diz: “matéria é energia congelada, mas energia é matéria descongelada”. Nós podemos fotografar energia congelada em matéria, mas não podemos fotografar energia pura.  Então os hindus dizem que os chacras, os centros de energia cósmica estão na coluna vertebral.

Chacras

O último chacra ( o básico) é quase inconsciente. Mas, lá em cima, é totalmente consciente. Então os hindus distinguiram, lá embaixo, kundalini, a serpente enroscada, onde só sentimos instintivamente, não pensamos. Aqui a coisa é puramente vital, não mental, não emocional, o que Freud chama de id. Subindo vem a ideia de reprodução, a individualidade semiconsciente, depois aparece a consciência da possessividade e, sucessivamente, a emotividade, a mentalidade e, finalmente, a consciência cósmica. A kundalini está enroscada onde o homem está inconsciente; o homem acorda e começa a mentalizar, uma ligeira consciência reflexiva e kundalini começa a rastejar: lá existia apenas o animal, aqui começa e hominalidade. Na sequência de Freud, seria o infra–ego, o ego e o supra-ego, que chamamos o EU.

Nós somos os únicos seres aqui na terra verticalizados, de cabaça para cima. Por que é assim? Porque precisamos da nossa antena. A nossa antena poderosa está aqui: primeiro a coluna vertebral com suas antenas cósmicas, os nervos. Nós temos os nervos verticalizados para cima porque a nossa evolução vai rumo ao infinito. Por isso a nossa meditação é feita de cabeça para cima.

O Espírito Santo seria o 7º chacra, que se comunica com o 6º através da glândula pineal, hoje quase atrofiada. Agora, por uma meditação bem conduzida, esta glândula desperta outra vez.

Bem, Moisés introduziu a serpente no GênesisQuer dizer que já estava muito aperfeiçoada esta ideia de que toda a nossa energia cósmica flui através da coluna vertebral.

Em evolução muito baixa, só funcionam estes centros aqui. Isto funciona no animal também e numa evolução mais adiantada funcionam estes centros superiores. Emocional, na altura do coração, mental na altura da laringe, e sobretudo o centro cósmico que é o contato entre o mundo material e o mundo espiritual. Lá no 6o- chacra, aí o verbo se faz carne propriamente. O mundo espiritual se materializa. Isto se chama “o verbo se faz carne” quando o mundo espiritual aparece em forma materializada. Exatamente a ideia da encarnação do verbo. O Cristo aparece em personalidade humana.

Então vamos voltar ao Gênesis, agora. Quando Moisés diz que a serpente entrou em conflito com o sopro de Deus, o que ele quer dizer com isto? Todo o Gênesis gira em torno desta ideia: o sopro de Deus que tinha sido comunicado a Adão; depois não se desenvolveu o sopro de Deus porque a serpente interveio e barrou, interceptou a passagem, entrou em conflito. A serpente é mental. O sopro de Deus é espiritual, aí a parte mental do homem entra em conflito com sua parte espiritual. Isto é que está no Gênesis.

Vocês só irão entender o Gênesis se conhecerem a filosofia oriental, que tem 7.000 anos de existência. Sem saber que sobre a coluna vertebral do homem passa toda a sua vitalidade e toda a sua consciência não irão compreender quando Moisés disse que os Elohim insuflaram o espírito divino no rosto do homem; mas interveio a serpente, barrou a passagem e interceptou a evolução. Estabeleceu-se o conflito entre o sopro espiritual, o EU e a serpente mental, o EGO. Isto está lá no Gênesis, em forma de parábola, e vocês têm que intuir o que disse Moisés.

Comunicar uma visão é quase impossível. Só o pensar provoca distorções. Falar e escrever são tentativas de dizer o indizível. Mas a antiga filosofia oriental ajuda a adivinhar o que Moisés disse a respeito do sibilo da serpente que obstruiu o sopro de Deus. Os nossos bons teólogos dizem que Deus foi derrotado pela serpente. Infantilidade, pois Deus não pode ser derrotado por nenhuma creatura. Apenas era necessário que estas duas forças da natureza humana – o espírito e a mente – entrassem em conflito. Já ensinava Bhagavad Gita que o EGO é o pior inimigo do EU, embora o EU seja o melhor amigo do EGO. E Moisés apresentou isto na forma de conflito entre as duas forças no homem: a força espiritual – o sopro dos Elohim – e a força mental, que identifica com a serpente. Mas, aí, serpente nada tem a ver com cobra – é a coluna vertebral por onde passa a consciência do homem – e também não tem nada a ver com o diabo.

A nossa mente muitas vezes funciona como Diabo. Quando Pedro não quis aceitar a ideia de que Jesus devia morrer, Jesus disse: “Vá de retro Satanás”, o que quer dizer: “Tu estás procedendo como adversário do espírito. A tua mente humana está opondo ao meu espírito.” A mente humana procede muitas vezes como satanás (adversária) ou diabo (opositor), isto é, satanás e diabo não são personalidades, mas funções do homem.

 

OBS.: em negrito e itálico os textos transcritos da apostila de transcrição da aula.

Reiterando: APROVEITO PARA INFORMAR QUE ESTE – E OUTROS CURSOS DE ROHDEN – PODEM SER OBTIDOS COM A SRA. IRIS GOMES, TANTO EM ÁUDIO (MP3), COMO TRANSCRITOS EM APOSTILAS (por inteiro, naturalmente). DOU A SEGUIR O E_MAIL DE CONTATO DA SRA. IRIS, BEM COMO DE SEU BLOG, ONDE PODERÃO APRECIAR MUITOS OUTROS TEXTOS DE ROHDEN:

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[i] Vide Apocalipse 12:9 e Apocalipse 20:2.

[ii] Apocalipse 13:6.

[iii] João I:29.

[iv] Mateus 10:16