APRECIEM ESTE EXCELENTE TEXTO DE OS TERAPEUTAS DO DESERTO, DE JEAN-YVES LELOUP.

  1. O ser humano pode ser concebido e simbolizado como uma simples linha reta. É a visão unidimensional do homem. O homem considerado em uma só de suas dimensões. O homem como matéria, como corpo, apenas. Neste tipo de abordagem, o corpo tem, às vezes, dificuldades e defeitos e o papel do médico é como o trabalho de um mecânico ou relojoeiro. Ele deve recolocar a máquina em funcionamento.

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  1. A segunda visão do ser humano é a visão bidimensional, onde se considera o homem não somente como matéria, corpo, soma, mas também como uma alma, como uma psique. Esta visão não é uma crença. Ela parte da observação do ser humano. Estamos no mundo dos terapeutas, quer dizer, das pessoas que observam o vivente, o ser humano vivo. Essas pessoas observam que a informação que anima a matéria talvez possa ter uma vida independente desta matéria. Que a informação pode ser retirada do corpo e podemos constatá-la já que o corpo se torna inanimado. Mas nada nos prova que esta informação não continue a subsistir. E que esta informação que se pode chamar alma tem uma vida independente em relação ao corpo.

Nas abordagens contemporâneas, faço referência às pesquisas de Graf Dürckheim e Elisabeth Kübler-Ross que faziam esta constatação a propósito de exemplos numerosos, exemplos de saída do corpo durante o coma, nos momentos que antecedem a morte e também em outras circunstâncias.

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  1. Na época de Fílon de Alexandria, como atualmente, havia ainda outra visão do ser humano – uma visão tridimensional. É sempre preciso observá-lo e notar que há nele uma dimensão que não é somente do mundo da alma. Há o soma, há a psique e há também o que os gregos chamam nous que corresponde aproximadamente à palavra Espírito, em português.

Nous é uma palavra difícil de traduzir. Ao nível da experiência, podemos verificar em nós mesmos. Não se trata somente da inteligência analítica ou da inteligência racional. Não se trata do mundo da emoção e do mundo do sentimento. Trata-se deste tipo de inteligência contemplativa que, na antropologia semita terá o nome de “coração inteligente”.É uma inteligência silenciosa. É a experiência, no homem, de um espaço e de um silêncio além do mental, além das emoções, além das sensações. Esta é uma dimensão do ser humano que os antigos reconheciam e que redescobrimos atualmente através de determinadas práticas de relaxamento profundo ou de meditação. Podemos experienciar em nós mesmos este espaço de silêncio que os antigos chamavam nous e que é uma dimensão importante do ser humano.

Quando desejamos acompanhar alguém que sofre, cuidamos do seu corpo, não esquecemos sua alma com todas as memórias nela inscritas, não esquecemos seu mundo psicológico, emocional, e não esquecemos, também, este mundo de silêncio que existe nele. Na prática terapêutica há uma forma silenciosa de estar sentado e pode acontecer uma transfusão de serenidade neste espaço onde a pessoa reencontra algo deste silêncio interior. Esta prática vai lhe permitir não se identificar mais apenas com o seu corpo, de não mais se identificar somente com o seu psiquismo, mas de descobrir esta outra dimensão do seu ser. Os antigos consideram o nous como a parte divina do homem.

Outra antropologia considera o nous não como a parte divina do homem, mas como o local onde o divino se reflete no homem. Para falar do nous eles utilizarão frequentemente a imagem do espelho. O espelho que, quando completamente limpo, pode refletir a luz e tornar-se luz apesar de não ser fonte de luz.

Na tradição cristã se dirá que João Batista é o testemunho da luz, mas não é a luz. Ele é o nous, mas não é o Pneuma. Ele é a lua que reflete a luz e que ilumina a noite, mas não é o sol. Ele apenas reflete o sol. Muitas vezes reencontraremos estes símbolos da lua e do sol. Da relação entre João Batista e o Cristo se dirá que é a relação entre o Ego e o Self. João Batista diz esta palavra: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

Assim, nesta visão, pode-se divinizar uma parte do ser humano e, de novo, desprezar o resto do composto humano. Esta visão é muito corrente entre os monges, na qual para libertar esta parte deles mesmos têm tendência a desprezar o corpo e também desprezar os sentimentos, as emoções e o pensamento racional. Então ele se retira do mundo para melhor conhecer este silêncio.

  1. Há uma quarta visão do homem. Nela nós reencontramos as três dimensões anteriores como que atravessadas por uma quarta dimensão. As três anteriores, reconhecidas e respeitadas são o soma, a psique, o nous e elas estão atravessadas pelo Pneuma. O Pneuma é o sopro da vida, a energia criadora.

Nesta visão do ser humano, trata-se de introduzir o Pneuma no soma, não desprezando o corpo, mas permitindo que ele receba melhor o sopro. E isto pode levar a experiências de transfiguração, a momentos em que a matéria fica transparente à luz. Poder-se-ia dizer que, nestes momentos, a nossa matéria vibra em outra velocidade, passa para outra freqüência.

Trata-se também de introduzir o Pneuma em nossa psique. Não para destruir nossas emoções, não para destruir nossas memórias, mas para nos sentirmos livres em relação a elas. Não seremos mais o objeto das nossas emoções, mas nos tornaremos o sujeito de nossas emoções. Não somos mais dominados pela cólera diante das injustiças, por exemplo, mas podemos manifestar uma cólera justa. Não somos mais dominados pelas emoções, mas somos o sujeito dessas emoções. Da mesma maneira, não se trata de negar o nous, mas, sim, de não idolatrá-lo, de não tomá-lo pela parte divina do nosso ser, de considerá-lo o espelho da luz.

Vocês sentem a diferença que essas visões antropológicas terão no mundo da educação. Se nossas escolas têm uma antropologia do homem tridimensional, será preciso não apenas nutrir o nosso corpo ou nossa inteligência racional, mas será preciso cuidar da nossa dimensão contemplativa e nos ensinar algumas práticas de meditação.

Na visão “pneumática” do ser humano, o terapeuta, que é um psicólogo, cuida do corpo, cuida do psiquismo, cuida do nous, pratica a meditação e respeita todas estas dimensões. Esta quarta antropologia é a que encontramos em Fílon de Alexandria e em Graf Dürckheim.

O que me parece interessante é que esta visão do homem não é um objeto de crença ou de revelação, mas é o aprofundamento de uma observação que tem seu ponto inicial na matéria. É preciso interrogar-se sobre o que anima esta matéria e entrar neste silêncio existente no íntimo de todas as coisas. Entrar neste sopro que não destrói nada do que existe, mas que abre o coração e o torna livre, que abre a inteligência e a torna livre em relação a tudo o que ela sabe. E a conduz um pouco mais longe.

TERAPEUTAS DO DESERTO – De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim; LELOUP, Jean-Yves e BOFF, Leonardo; 11ª edição, Organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weill; Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. Capítulo 2 – 2.1 A antropologia dos Terapeutas de Alexandria e de Graf Dürckheim, pg.s 49 a 57