LENDO BONDER DEPAREI COM UM CAPÍTULO DE SUA “CABALA DA INVEJA” QUE NÃO POSSO DEIXAR DE COMPARTILHAR. ABORDA O SURGIMENTO DO ÓDIO ENTRE PESSOAS QUE SE ADMIRAM. AQUI A SUA PRIMEIRA PARTE.

Podemos, portanto, odiar intensamente algo nos outros que não gostamos em nós mesmos, ou algo nos outros que nos relembra alguma de nossas frustrações, e assim por diante. Para nosso interesse imediato de pensar sobre a briga, queremos apenas identificar este elemento próprio, residente em quem odeia, e que é, em si, um vínculo forte com o odiado. Ninguém se dá ao luxo de odiar de forma a estar em rixa sem que esteja fortemente vinculado ao objeto de seu ódio. Compreender isto é fundamental para entender uma briga. Dizia o rabino de Mezeritz:

Não se desencoraje por uma oposição muito violenta. Assaltantes atacam aqueles que carregam consigo joias, e não uma carroça transportando adubo. É na condição de portadores de joias que devemos estar prontos para repelir os assaltantes.

Pessoas que odiamos carregam “joias” no sentido de algo que nos interessa, que nos é importantes. Estas “joias” podem ser boas ou más, porém, para o “assaltante”, elas simbolizam algo que deseja muito. Tanto o “assaltante” quanto aquele que é assaltado devem dar-se conta disto. O rabino de Mezeritz arrisca até uma sugestão para o indivíduo atacado – não perca de perspectiva o fato de que é como “um portador de joias” que devemos reagir à violência. Quando não conscientizados disto, tomamos muito do que se arremete contra nós como pessoal, e não é assim. Somos apenas portadores de “joias” para o outro; joias que podemos até mesmo nem perceber como tais, mas que o são para o outro, seguramente.

Quanto mais importante for o outro ou suas “joias”, maiores as possíveis violências com que podem assaltá-lo. Exemplos não faltam.

De todas as rixas bíblicas, a mais intensa e da qual podemos determinar mais claramente elementos da estrutura do ódio é a estabelecida entre Jacó e seu irmão Esaú. Auxiliado por sua mãe, Rebeca, Jacó, através de ardis cuidadosamente calculados e premeditados, consegue roubar a primogenitura e a bênção que de direito eram de Esaú. Não poderia haver outra forma mais tempestuosa de se criar inveja e rixa. Sentir-se trapaceado, tendo roubada a supremacia entre irmãos com a conivência da própria mãe, é a combinação perfeita para produzir-se muito ódio e rixa. De tal forma que, antes de jurar matar o irmão e dar vazão a seu ódio, Esaú é invadido por uma emoção que prenuncia a criação de uma rixa – a “lágrima tríplice”.

No texto bíblico encontramos a descrição da reação de Esaú ao perceber que tinha sido traído: “E deu um grito, forte e amargo”. Este choro de Esaú passou a ser símbolo da extrema dor do ódio em relação a alguém que nos é importante, que “porta joias”. Ao analisar o versículo dos salmos (80:6), “Tu os alimentaste como pão das lágrimas e dás de beber lágrimas tríplices”, o comentarista Rashi (sec. XI) associou estas lágrimas com as vertidas por Esaú. Lembrava-se Rashi do versículo bíblico acima, que descreve a reação de dor imediato vivida por Esaú: “E deu um grito” é a primeira dimensão desta lágrima; “forte” é a segunda; “amargo” é a terceira.

Esta lágrima tridimensional é símbolo da maior das dores do ódio. Sua primeira dimensão (grito) diz respeito à dor da privação de algo desejado; a segunda (forte) refere-se à intensificação da dor devido à personalidade específica de Jacó, que ressaltava fraquezas inerentes ao próprio Esaú; e a terceira (amargo) tinha a ver com o fato de Jacó ser seu irmão e esta condição de proximidade e competitividade também ampliar a sua dor.

Através da lágrima tríplice podemos mapear toda a estrutura do ódio do lado ofendido ou magoado. Uma lágrima duplicada, feita de “grito” e “forte”, ou seja, de atrito que é em seguida tomado como pessoal (o outro porta joias), já é suficiente para instaurar uma rixa. A lágrima tríplice, por sua vez, é muito mais poderosa e inicia rixas de grande complexidade e sofisticação emocional e de difícil anulação. São representadas comumente pelas rixas dentro de famílias ou entre ex-amigos. Portanto, quanto maior o conhecimento e proximidade que duas pessoas tiverem, maior o cuidado que devem ter ao surgir um conflito, pois são candidatos a causar ou sofrer de “lágrimas tríplices”.

A CABALA: DA COMIDA, DO DINHEIRO E DA INVEJA - BONDER, Nilton – 1.999, Imago Editora, Rio de Janeiro (RJ), A CABALA DA INVEJA, IV – EM BRIGA, pg.s 357361.