ENTREGAMOS A VOCÊS A SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE DO CAPÍTULO DE NILTON BONDER INTITULADO LÁGRIMAS TRÍPLICES. 

Conta-se no Talmude (B.M. 84ª) sobre dois grandes amigos, o Rabi Ionatan e Resh Lakish.  O último era um gladiador profissional que modificou toda a sua vida devido a esta amizade, tornando-se um estudioso como o Rabi Ionatan. Assim a rixa entre os dois é relatada.

Certa vez, o Rabi Ionatan estava banhando-se no rio Jordão quando Resh Lakish passou pelo local. Comentou Rabi Ionatan: “Toda esta força… antes pudesse ser devotada ao estudo da Torá!”

“Sua beleza”, replicou Resh Lakish, “deveria ser para as mulheres”. Disse então o Rabi Ionatan:”Se você se arrepender e mudar de vida, permitirei que se case com minha irmã, que é ainda mais bela do que eu”. Resh Lakish mudou de vida, casou-se com a irmã do Rabi Ionatan e passou a estudar com seu cunhado, que lhe ensinou sobre os livros sagrados.

Em certa ocasião, houve uma disputa na casa de estudos em relação a alguns utensílios – a espada, a faca, a adaga, a foice -, sobre se eram ou não considerados como ritualmente puros. O Rabi Ionatan determinou que o eram desde que tivessem sido passados pelo fogo de um forno.

Resh Lakish determinou que o eram quando lavados com água.

O Rabi Ionatan imediatamente deixou escapar: “Um ladrão compreende bem seu ofício” (referindo-se ao uso por Resh Lakish destes utensílios em seu trabalho no passado como gladiador).

Ao que Resh Lakish respondeu com ódio: “E como foi que você me ajudou?” “Lá (no circo romano) eu era chamado mestre e aqui também”.

O Rabi Ionatan sentiu-se profundamente atingido (pela indicação de que não teria ajudado Resh Lakish) e recusou-se a perdoá-lo. Em razão disto Resh Lakish adoeceu e em seguida morreu.

O Rabi Ionatan entrou em depressão profunda… rasgando suas roupas e chorando intensamente: “Onde estás tu, filho de Lakisha? Onde estás, filho de Lakisha?”, até que enlouqueceu. Os rabinos rezaram para que pudesse se ver livre de sua miséria e pouco depois ele também morreu.

Impressionante neste relato é a capacidade que pessoas complementares, ou pessoas que se admiram e precisam muito uma da outra, têm de iniciar processos de briga. Entre amigos que acreditam doar-se muito um ao outro, o senso de traição e ingratidão é intolerável. Podemos percorrer juntos com o Rabi Ionatan a trajetória de seu ódio. Talvez sentado em frente a Resh Lakish, tenha visto este expressar-se com segurança, repetir frases e ideias que ele, o Rabi Ionatan, lhe havia ensinado. Por razões muito próprias, o Rabi Ionatan sentiu-se inseguro diante da força de Resh Lakish. Observou-o enquanto falava, sentiu ódio. Um ódio normal, de quem diz para si mesmo: “E quem lhe ensinou tudo isto, se não eu? Fala tanto, como se fosse senhor do que diz, mas dar-se-á conta de que deve tudo isto a mim?” Tivesse Resh Lakish percebido isto, teria podido, com uma única referência de gratidão a seu mestre Rabi Ionatan, evitar sua ira. Mais que isto, poderia tê-la transformado em puro carinho e amor. Isto porque o ódio, instantes antes de “calcificar-se”, é matéria facilmente moldável em amor, desde que a correta química se processe. O Rabi Ionatan, por vários momentos, resistiu para que não lhe escapasse um comentário maldoso. Porém, quanto mais resistia, maior era sua tentação.

No momento em que Rabi Ionatan pronuncia sua decisão com relação aos utensílios ritualmente puros ou impuros e a vê contestada por Resh Lakish, o sangue lhe sobe à cabeça. Sente-se apunhalado por dentro, sangrando por dentro. Deixa então escapar seu comentário sobre o passado de Resh Lakish que é, para o ouvinte iniciado, um claro desabafo ciumento. O Rabi Ionatan já estava carente antes de sentir-se agredido pela dissidência de seu amigo. Naquele instante, no entanto, não resistiu e iniciou um processo que é, entre amigos que se gostam, muito perigoso.

Por outro lado, se percorrermos a trilha do ódio de Resh Lakish, encontraremos que este “flertava” com seus conhecimentos num triângulo amoroso do qual o Rabi Ionatan ainda era o vértice principal. Diante de seu amigo-mestre, ele gabava-se do que aprendera. O Rabi Ionatan infelizmente não percebia que a atitude de Resh Lakish era uma homenagem ao mestre que lhe propiciara a possibilidade de regeneração. Resh Lakish, muito provavelmente, queria demonstrar que era tão capaz como seu mestre e desejava “renegociar” sua amizade. Queria rever a relação de gratidão e atualizá-la de outra forma. O Rabi Ionatan, no entanto, recusava-se. Em vez de reconhecê-lo também como mestre, o Rabi Ionatan preferiu trazer de volta à memória de Resh Lakish o fato de que este havia sido até pouco antes um gladiador. A única forma que Resh Lakish encontrou de devolver o golpe foi reforçar sua posição de que a amizade por gratidão teria que esgotar-se: “Não, eu não sou grato! Afinal, por que seria? Se aqui me chamam mestre, lá também o faziam!” E estas palavras foram ouvidas pelo Rabi Ionatan com a crueza de quem já não se encontra no nível do ciúme, mas no da inveja.

Era difícil para ambos perceber que lutavam por sua amizade, discordavam de como deveriam dar prosseguimento a ela e vertiam lágrimas tríplices. Iludiram-se por momentos de que eram inimigos. Pagaram muito caro pela sua incapacidade de negociar seu amor e suas necessidades.

A CABALA: DA COMIDA, DO DINHEIRO E DA INVEJA - BONDER, Nilton – 1.999, Imago Editora, Rio de Janeiro (RJ), A CABALA DA INVEJA, IV – EM BRIGA, pg.s 357/361.