ANDO ESTRESSADO E MUITAS VEZES ME SINTO PRESO DE REVOLTAS INTERNAS. TALVEZ POR ISTO A LEITURA DE A KABALA DA INVEJA, DE Nilton Bonder, TEM ME CAUSADO TANTO IMPACTO. MAS ESTE CAPÍTULO COM COMENTÁRIO SOBRE ESTE TEXTO FUNDAMENTAL TAMBÉM DO CRISTIANISMO ME PARECEU FORA DE SÉRIE. ENTENDO QUE TRAZ MUITAS NOVIDADES NO MODO DE O COMPREENDERMOS. ASSIM, NÃO POSSO DEIXAR DE COMPARTILHAR.

Por mais absurdo que possa parecer, talvez seja mais fácil “amar nosso inimigo como a nós mesmos” do que o próximo. A noção de próximo é, na verdade, tão abstrata que, se a substituíssemos pela figura daquele que odiamos, com quem estamos amarrados em laços mais óbvios de relacionamento, tornar-se-ia mais real e familiar. Nossos inimigos são como se fossem da família: permeiam nossos pensamentos com a mesma assiduidade que nossos amigos e familiares, conhecemos suas vidas profundamente e as acompanhamos com interesse, e assim por diante. Nosso inimigo, portanto, não é um estranho e, exatamente porque o odiamos, o inimigo permite-nos criar pontes e familiaridade com o conceito de próximo.

A maior distância do próximo deveria ser representada pela figura do inimigo, mas incrivelmente, por definição, este acaba sendo o mais próximo dos próximos. O inimigo é a potencialização da ideia do outro, mas, por seu envolvimento em nossa vida, acaba por provar que a humanidade é um corpo só. Quanto mais longe, mais perto. Esta talvez seja a definição de um sistema fechado e é assim que desde tempos primitivos nos percebemos. O rabino Nikolsburg comentava:

Pode acontecer que tua própria mão venha, inadvertidamente, a atingir-te. Tu por acaso tomarias uma vara e atacarias tua própria mão em retaliação por seu descuido, incrementando assim a tua dor? O mesmo ocorre quando, por total falta de compreensão deste mundo, teu vizinho, cuja alma é uma única com a tua, te causa prejuízo e sofrimento: se retaliares, serás tu que irás sofrer.

É-nos difícil alcançar a compreensão de que nosso inimigo é parte do mesmo corpo que o nosso e de que agredi-lo irá ativar dor no mesmo sistema nervoso que nos faz perceber dor em sua agressão. Isto se deve talvez à experiência objetiva de que espancar nosso inimigo não dói nem um pouco em nosso próprio “lombo”. Mas se você pensa isto, não entendeu. Voltamos à nossa frase: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Assim a traduzia comentadamente o rabino de Bratislava:

O que precisas fazer é amar o teu próximo como a ti mesmo. Não há ninguém neste mundo que conheça tanto as tuas muitas faltas e fraquezas quanto tu mesmo! E nem por isto tu deixas de te amar. Da mesma maneira, deves amar teu próximo, não importa quantas faltas reconheças nele.

Talvez agora fique mais claro: somos todos de uma só natureza. Se nos permitimos odiar o outro é porque não sabemos rastrear com sinceridade nossos próprios sentimentos e pensamentos. Agredir nossos inimigos é como atacar a própria mão, pois são idênticos a nós; e se estivéssemos no lugar deles, dadas as mesmas condições, nos surpreenderíamos ao descobrir quão semelhante a nós eles são. Por isto somos um mesmo corpo – porque compreendemos a humanidade como nenhum outro seria capaz de compreendê-la. Fosse estabelecida uma corte judicial composta por seres não humanos, esta seria, obviamente, desumana. Portanto, estamos no mesmo barco na dimensão da essência. Agredirmos esta essência, em algum momento, representa agredirmos a nós mesmos.

Gostar do inimigo é, portanto, dar a volta em si mesmo – é gostar de si próprio. Descobrimos assim que esta frase do futuro – amar o próximo como a nós mesmos – é, como tudo que virá do futuro, totalmente interativa. Não há como gostar do outro sem gostar de si, nem como gostar de si sem gostar do outro. Sua interdependência é originária da própria estrutura da Criação. No processo de diferenciação que esta representou, passamos a vivenciar como uma realidade maior a percepção de individualidade. Porém, esta não é mais do que uma sensação passageira daquele que está encarnado, materializado em si. A verdadeira elevação está na capacidade de entender toda a humanidade, ou melhor, toda a vida como parte de um mesmo corpo. Ataque o outro braço e você não conseguirá dormir de dor.

Esta é a razão pela qual as rixas terminam em muito arrependimento. Isto porque os corpos encarnados envelhecem e começam a perceber a dimensão cármica de que “bateu lá, dói aqui”. Às vezes, são necessárias décadas, ou mesmo vidas inteiras, para que a pancada há muito dada comece a doer, mas ela irá doer.

Este é o problema do encarnado: tem inimigos. E por que tem inimigos? Porque acredita que um dia irá derrotá-los. Criamos nossas inimizades a partir da crença de que estamos certos e de que um dia seremos confrontados por esta justa realidade. Não compreendemos que não há como derrotar os verdadeiros inimigos, os melhores inimigos. Eles têm muito mais de nós para querermos vê-los subjugados e punidos.

Este é o doloroso segredo: para gostarmos de nosso inimigo, temos que abrir mão da expectativa de que iremos vencê-lo ou convencê-lo. E isto é muito difícil. Devemos pelo menos entender que, na sua forma interativa, vencer o inimigo significa sermos derrotados e que nunca permitiremos isto. Ainda assim, mesmo não o vencendo, podemos ser iludidos por uma vida inteira de que isto irá ocorrer. O leito de morte conhece bem o brilho desesperado da compreensão, que só chega a muitos no momento em que, quase desencarnados, descobrem que não há vencedores.

Descubra que seu melhor inimigo é um redentor de muitos mundos, e passará a gostar dele. Muitas vezes nossa aversão ao inimigo é exatamente esta – a que se baseia no fato de ele abrir portas para muitas realidades internas, que nem sempre estamos prontos ou aspiramos a enfrentar. Na verdade, gostar do inimigo é uma tarefa das mais angustiantes. Nela nos debatemos, nos enfrentamos de maneira tão feroz que, à maneira de Jacó em sua luta com D’us, nosso nome se mistura. Nossa personalidade parece a ponto de se esfacelar, e quando isto está por acontecer, nasce outro dia. Nosso nome já é outro.

Os registros deste “debater-se” são muitos. Cada um de nós conhece um pouco de seu gosto, e assim alguns rabinos expressaram. O Rabi David de Lelov disse:

Não sou digno de ser tratado como um justo, porque ainda sinto mais amor para com meus próprios filhos do que para com outras pessoas.

Já o rabino de Gastinin dizia:

O kotsker, meu reverendíssimo mestre, labutou com grande esforço para instilar-me o amor pela vida, de tal maneira e com tal perfeição que eu pudesse tentar amar meus inimigos com a mesma intensidade com que amo meus melhores amigos.

A CABALA DA COMIDA, DO DINHEIRO E DA INVEJA (“A pessoa se conhece através de seu copo, seu bolso e a sua ira”) – BONDER, Nilton – Imago Editora, RJ – 1999: Livro Três, A CABALA DA INVEJA – VI –Gostando do Inimigo, pg.s 427 a 431.

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