Resumo da 11ª aula do curso NOVA HUMANIDADE, ministrada em 7 de junho/1.977 por HUBERTO ROHDEN.

 

Prontos para dar um pulo de 3500 anos ou não? Desde Moisés até Freud e Young, são quase 3500 anos. Nós temos que focalizar a natureza humana, assim como Moisés a expôs, no Gênesis, e assim como Freud, no princípio deste século escreveu, e como mais tarde, Young. Eu quero mostrar que tudo que eles disseram, tanto Moisés no Gênesis, como Freud, e Young, está na mesma direção.

Vamos começar recordando alguns ensinamentos.

O infinito – é o que nós chamamos a Essência, o Absoluto, o Eterno, a Alma do Universo, o Ser, Brahman, Tão, Yahvé, Divindade. O infinito é a negação de todos os finitos

O eterno não é a soma total dos tempos, é a negação de qualquer tempo

Todos os finitos vieram do infinito e todos os temporários vieram do eterno. O Eterno não é uma pessoa, não é uma coisa – é simplesmente uma abstração.

O infinito também se pode chamar Uno da palavra Universo. A palavra Uni representa o infinito e a palavra verso, representa os finitos. O universo é o infinito que se manifesta em muitos finitos. Creaturas são verso. Creador é uni. Creador é o infinito, é o eterno. Creaturas são os finitos ou os temporários.

Do infinito saíram todos os finitos; do eterno saíram todos os temporários; do absoluto saíram todos os relativos; do Ser saíram todas as existências. o Ser é o Infinito, o existir – são os finitos.

O Ser também se chama Essência, Absoluto, Eterno, Infinito. O existir se chama a existência, os relativos. O Ser é infinitamente ativo, não é um ser passivo. Ele se manifesta sempre de novo em existir; o infinito sempre se manifesta em forma de finitos. O eterno sempre se manifesta em forma de temporários. O Absoluto se manifesta como relativos. .

Num determinado ponto da existência apareceu um finito, um ser vivo qualquer, vamos dizer, um animal. A fonte é o Infinito, os canais são os finitos. Também podem dizer que o infinito é causa, e os finitos são efeitos. Agora, saiu um efeito da causa. Saiu uma existência da essência. Saiu um relativo do absoluto.

Vamos chamar isso, um animal, um animal qualquer. Continuou a viver… Depois esta existência, o animal, se bifurcou pois isto já estava previsto desde a concepção do animal. Porque nada acontece se não estava previsto lá na fonte. Os canais veiculam as águas que vieram da fonte. Os canais não produzem água. Os canais só veiculam, mas não cream água, não são creadores de água. São apenas condutores de água. O Ser é a fonte. A existência são os canais. Desta fonte infinita saiu este canal chamado animal e ele se bifurcou, foi um ramal para cima e o outro ramal continuou em frente; o animal continua. O animal se bifurcou, continuou como canal, como animal, mas, se bifurcou e deu o que nós chamamos homem, que deve crescer, aprimorar-se e tornar-se cada vez maior. Isto é mais ou menos o que eu disse na última aula. A tese filosófica da origem do homem. E, na última aula eu falei da teoria teológica; depois falei da teoria cientifica de Darwin, agora temos que especializar um pouco a tese filosófica da origem do homem.

Donde é que veio o animal? Veio da fonte infinita. Donde é que veio o homem?. Veio da fonte infinita. Porque nada pode vir senão da fonte. Quer dizer, da fonte do Infinito vieram todos os finitos. Sejam os finitos animais sejam os finitos hominais. Mas, no princípio não havia este que estamos chamando de homem. A bifurcação dá a origem do homem, mas a verdadeira origem é o Infinito. O erro do darwinismo é que ele apagou, de suas considerações, o Infinito.

Nós não podemos conceber um canal finito que não tenha vindo de uma fonte infinita. A origem do homem e de toda e qualquer creatura é a fonte; mas na fonte o homem ainda não tinha esta forma atual (homem), mas, ele estava potencialmente contido neste canal, o animal. Potencial quer dizer, aquilo que está latente, oculto, incubado. Isto é latente, potencial.

Desde o aparecimento do primeiro animal, devem ter passado milhões e milhões de anos, até que chegou um tempo em que o homem apareceu. Começa aí o nosso Gênesis. Depois o homem vai se desenvolvendo, a sua inteligência vai se aperfeiçoando. O animal continuou mais ou menos na mesma horizontal, sem inteligência, apenas com instinto. Mas o homem se desenvolve. Assim podemos filosoficamente imaginar a origem do homem e então podemos dizer: o homem veio do infinito através deste finito (o animal). Veio da fonte infinita, mas não diretamente.

A ciência provou que até certo ponto não havia homem atualizado, eclodido, mas a ciência não pode saber se não havia um homem potencial. É evidente que tinha um homem potencial, porque nada se torna atual que antes não tenha sido potencial. Então neste veículo, neste canal – o animal, já existia o homem latente. Já existia a possibilidade de aparecer um homem, mas, não tinha aparecido nenhum homem na forma de hoje.

Teilhard de Chardin disse muito bem: “O aparecimento do homem marca uma descontinuidade de vida na continuidade da vida”. A continuidade da vida é a horizontal da existência animal, e a descontinuidade é a bifurcação, quando aparece o homem. Ocorre um novo início duma vida intelectual, mas não duma vida. A vida já existia… A inteligência foi enxertada numa vida já existente. Aparece a inteligência humana que é o nosso distintivo, é a única coisa que nos distingue do animal. O corpo é o mesmo – nós temos o mesmíssimo corpo que qualquer mamífero. O que os mamíferos não têm é a inteligência abstrata que nós temos. O animal só tem inteligência para poder viver e reproduzir. A nossa inteligência faz coisas que nada tem que ver com isto.

Quero mostrar porque eu disse que íamos para Freud. Freud disse que a única coisa que move toda a vida humana é o subconsciente individual e, sobretudo, o subconsciente sexual. Para Freud tudo é sexo. E o sexo está baseado na libido que é o prazer sexual do orgasmo. O que é subconsciência?

Subconsciência é aquilo que nós temos de comum com o animal. O animal também tem subconsciente. E Freud achou que a única fonte de energia cósmica do homem é inconsciente ou subconsciente, isto é o instinto individual para poder viver e o instinto sexual para poder reproduzir.

E por muito tempo vigorou a ideia de que o homem não faz nada a não ser impelido pelo subconsciente, principalmente pela libido. Tudo que é ciência, tudo o que é arte, tudo o que é Religião, diz Freud, é uma manifestação de libido. Mas, um dos primeiros discípulos de Freud, Alfred Adler, já começou a duvidar desta tese do mestre. Disse: “Mestre, mas há outras fontes de energia na vida. Não é só debaixo para cima, mas também é de cima para baixo”. Mas, Adler não desenvolveu plenamente a sua tese. Depois chegou Young e fez um sistemático desenvolvimento de que há uma outra fonte de energia na vida humana que não vem de baixo para cima, mas vem de cima.

O que é isto? A supraconsciência. Freud só fala da subconsciência. Young diz: “mas há uma supraconsciência também, há uma consciência debaixo que é o instinto e há uma consciência de cima que podemos chamar espírito, consciência; que se manifesta em forma de religião ou na sua forma mais elevada, na mística”. Então Young lança a ideia: “Há duas fontes cósmicas na vida humana. Há uma fonte cósmica que vem debaixo (concorda com Freud), e há uma fonte cósmica que vem de cima (discorda de Freud)”. Freud nunca aceitou que houvesse uma força cósmica de cima, dentro da nossa vida. Ele só conhecia a fonte cósmica debaixo.

A egoconsciência é luz, não é força. Schopenhauer diz: “A inteligência (a consciência) é um vidente (que enxerga bem) paralítico (que não tem força)”. A nossa inteligência humana é um vidente paralítico à beira da estrada. Schopenhauer continua: “Mas dentro de nós também está um gigante cego”. Quando apareceu Young, ele descobriu que também há um gigante vidente. Schopenhauer não completou a história. Ele disse, há um vidente que é paralítico – a inteligência; e há um gigante cego que é o instinto subconsciente. Young completou: “Mas há também um gigante vidente, quer dizer, um gigante que ao mesmo tempo tem força (gigante) e luz (vidência)”.

Podemos dizer: Temos o gigante cego e o vidente paralítico de Schopenhauer. Um vidente paralítico é alguém que sabe ver muito bem, mas não pode andar porque é paralítico. Podemos acrescentar: segundo Young temos também um gigante vidente.

Schopenhauer e Freud estariam mais ou menos de acordo. Agora, por que não poderia ter um gigante que ao mesmo tempo fosse vidente? Então teríamos três coisas: Instinto que é sempre subconsciente; Inteligência que é consciente; E Razão, Logos em grego (cuidado: não confundam razão com inteligência – isto é perigoso). A inteligência é vidente, mas não tem força. O instinto é forte, mas não tem vidência.

Vidente Paralítico→ inteligência (consciência): Freud

Gigante Cego→ instinto (subconsciência): Schopenhauer

Gigante Vidente→ razão (intuição): Young

Young aceita o que Freud diz, mas vai além e diz: É claro que o instinto é uma tremenda força, mas é uma força cega. O instinto não sabe que direção tomar. Ele só tem uma força terrível como um gigante, mas ele é cego.

Instinto é força, inteligência é luz, razão é intuição.

Estou explicando isto, porque já está tudo no Gênesis. Quando Moisés diz que os Elohim, as forças creadoras, mandaram ao homem: “daqui por diante não comam mais do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (animalidade)”, estariam significando: “Agora vós sois homens, começais a ser homens, porque vos separaste da animalidade”. O fato de o homem ter recebido o sopro divino é o momento em que ele se bifurca, se afasta da animalidade.

Então, dizem as forças creadoras: “Agora começastes a ser homens. A vossa hominalidade está enxertada no corpo animal”. É claro que nós estamos enxertados no corpo animal, ninguém pode negar isto. Temos todos os órgãos do animal, mas temos uma coisa além disto: o sopro divino, que primeiro se manifesta em forma de inteligência. Mais tarde ele se manifesta em forma de razão. A humanidade hoje não chegou até a razão. Nós pensamos que somos seres racionais, mas somos apenas seres intelectuais, por enquanto. Não somos homo sapiens, como diz a ciência; nós somos homens inteligentes; a inteligência é muito menos do que a razão. A razão é sabedoria, a inteligência é apenas conhecimento. Sabedoria é intuição e análise é apenas inteligência, mas a primeira manifestação do sopro divino do homem é inteligência. Nós somos inteligentes, do pescoço para cima; do pescoço para baixo nós somos completamente animais. Não temos nada de hominalidade do pescoço para baixo. Temos uma pequena hominalidade daqui para cima – inteligência.

Bem, então os Elohim disseram ao homem primitivo: “Agora vós começastes a ser seres humanos. Continuai a ser seres humanos cada vez mais perfeitos”. É o imperativo de evolução – todo o Gênesis está baseado no imperativo de evolução. “Vós não deveis estagnar”, disseram os Elohim, “no ponto “1” da vossa hominalidade, nem deveis recair no ponto zero. Vós deveis comer do fruto da árvore da vida.” Eu já expliquei que toda vez que a Bíblia fala em conhecer, ela se refere ao sexo.

E quando eles ainda continuaram a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como o Gênesis diz, veio a terrível maldição sobre eles: “Vós que já sois seres humanos, vos estais se portando como se não fossem seres humanos”.

Aqui houve uma involução que as teologias chamam “a queda”. A queda do homem é a reminiscência animal. Devem ter passados milhares e bilhões de anos, em que o homem não era ainda homem propriamente, mas, o corpo dele estava com todas as faculdades que tem agora. Então eles cederam ao atavismo animal. A identidade do nosso corpo humano com o corpo animal já tem centenas de milhões de anos; mas, a entrada do espírito, da inteligência, propriamente, deve ter alguns milhões de anos apenas.

Então houve aqui, ou estagnação, ou mais provável até involução. Porque a reprodução não devia ser mais a mesma que a dos animais. Sobre esta diferença, nós vamos falar mais tarde. É muito difícil. A reprodução não podia ser inteiramente igual à do animal, sob o imperativo do instinto. A reprodução se devia dar, mas, por outros motivos.

Quer dizer, Freud só conheceu o instinto animal ou subconsciente. E Young diz: “Não senhor, aqui há duas coisas. Aqui há o instinto subconsciente e há uma intuição supraconsciente”. Se vocês entenderam estas duas palavras: instinto subconsciente e intuição supraconsciente… vocês poderão compreender o Gênesis, Freud e Young ao mesmo tempo, porque estas duas coisas estão no Gênesis. O que no Gênesis se chama árvore do conhecimento do bem e do mal é o subconsciente animal. E o que o Gênesis chama árvore da vida é o supraconsciente espiritual.

Freud viu o subconsciente animal, que existe em todo ser humano (porque o ser humano é corporalmente animal), que se chama libido – o Eros. Eros é a mesma libido animal em forma humana. Quando a libido animal se manifesta no homem, isto em grego se chama Eros Eros já é uma mistura de libido e de amor. Pode haver 90% de libido e 10% de amor. É um Eros muito fraco. Mas, pode haver 50% de libido e 50% de amor – é um Eros muito aperfeiçoado. Eros é uma mistura de libido animal e de amor humano. Quando nós usamos a palavra derivada, erótica, quase sempre entendemos pura libido, mas, a palavra grega Eros, não é pura libido. A relação entre macho e fêmea, no animal, é pura libido, pois não pode haver Eros no animal; mas no ser humano pode haver uma mistura e muitas modificações entre libido animal e amor humano, e esta mistura é que os gregos chamavam Eros.

Mas, então os Elohim mandam: “Se comerdes somente deste fruto, somente de Eros ou de libido, então vós tereis um corpo mortal, mas, se comerdes do fruto da árvore da vida, então podeis tornar imortal, o vosso corpo”. O estranho é que o Gênesis supõe desde o princípio que nós podemos ter um corpo imortal. A verdadeira humanidade perfeita não teria corpo mortal. Talvez nós já teríamos corpo imortal aqui nesta bifurcação animal > homem; mas a evolução do homem leva milhões de anos. Começou com a bifurcação do hominal, relativamente ao animal, mas nós estamos ainda no princípio da nossa evolução. Pode ser 10 milhões de anos, não sei – mas é um princípio, porque a evolução vai com passos mínimos em espaços máximos.

Ainda vou falar sobre isto em outra ocasião, para mostrar o que é que Moisés entende com as duas árvores. A árvore que produz corpo mortal e a árvore que produz corpo imortal. E que isto é um perfeito paralelo ao que Freud escreveu. Freud só viu a árvore do corpo mortal. O instinto subconsciente. Young avançou um grande passo. Ele disse: “Freud, mas há uma outra árvore que é a intuição espiritual. Não existe só instinto animal no homem como fonte de energia. Também existe uma outra fonte”.

Quer dizer, para Young a força vem de cima e para Freud a força só vem de baixo. A fonte que vem do fundo da nossa natureza é do subconsciente – libido ou Eros. E a fonte que vem de cima é consciência espiritual – mística, religiosidade. Então, nós estamos entre duas forças. No meio não há força – só há luz. Forças vêm ou do subconsciente ou do supraconsciente. É preciso compreender bem isto para compreender o resto que eu vou dizer mais tarde.

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