Faleceu esta semana um grande amigo: ESDRAS BORGES COSTA. Razões de saúde me impediram de estar presente no momento de sua despedida. Como pálida compensação, coloco aqui um texto do Esdras que enriqueceu um boletim do GCEC – Uma comunidade cristã alternativa e mais tarde publicada no livro COMPROMISSO COM O SONHO. Aliás, foi no GCEC que conheci este homem de mente privilegiada e um coração de ouro.

 

TESTEMUNHO

                Precisamos “dar testemunho”; cuidado com o “mau testemunho”; o crente deve dar “bom testemunho”. É este, sem dúvida, um apelo evangélico. Mas à força de prescrever as formas boas e más de testemunho, a gente às vezes foge ao brilho e ao intenso calor da chama do Evangelho. A busca de meios e modos de o que fazer e como fazer, para dar testemunho de Cristo no mundo real é, não raro, uma difícil tarefa que empurra os cristãos ao refúgio do moralismo – pobre imitação da labareda, recortada em papel celofane -. Dessa penúria moral nasce o desapontamento, o tédio e, em reação, surgem os “milagrosos” esquemas de organização para um testemunho eficaz; ou os apelos para as não menos “milagrosas campanhas de reavivamento. Esses remédios, não raro, apenas aprofundam a ansiedade, ampliam o tédio ou acrescentam pesadas maquinações doutrinárias ao fardo pesado das peregrinas testemunhas.

O cristão é chamado a dar testemunho de um deus encarnado, um deus que se fez homem e habitou entre nós. Apontando para Cristo, apontamos para o homem – eis o homem. O evangelista é um anunciador de Deus; por isso mesmo o evangelista tem compromisso com o ser humano; o compromisso de aceitar o ser humano no mesmo impulso em que dá testemunho do Deus vivo. Contar, recontar e repetir que Deus vive, ama e sofre é, também e ao mesmo tempo, cantar, descantar e suspirar que os homens e mulheres vivem, sofrem e fazem tantas coisas curiosas, belas e nem tão belas, generosas ou cruéis, neste espantoso mundo que Deus criou. Cremos que Deus age na História e, através da História, salva o ser humano e renova todas as coisas; somos chamados a responder a esse Deus que nos fala em suas ações. Ao mesmo tempo estamos comprometidos com o ser humano que age e sofre na História e, até certo ponto, faz História.

 

Até que ponto podemos compreender esse mistério? Até que ponto estamos dispostos a viver esse duplo testemunho?

 

Esdras Borges Costas. Boletim nº 95 do GCEC  – Uma comunidade cristã alternativa. Pg.s 203 e 204 do COMPROMISSO COM O SONHO.

 

Esdras Borges Costa nasceu em 18/07/1929, na cidade de Araraquara, no interior de São Paulo. Sociólogo graduado pela Escola Livre de Sociologia e Política em 1951, participou do Projeto do Vale do São Francisco, coordenado por Donald Pierson na década de 1950. Doutorou-se em Sociologia pela Universidade da Califórnia, Berkeley em 1979, com “Protestantismo, Modernização e Mudança Cultural no Brasil”, sob a orientação de Robert N. Bellah. Fez carreira como professor universitário na FGV (Fundação Getúlio Vargas), em São Paulo. Esdras é um dos fundadores do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Ultimamente pesquisou o desenvolvimento das religiões protestantes no Brasil. Faleceu em 8 de outubro de 2013.