Mais um texto da 13ª aula do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrados em 1977 por ROHDEN. Vocês se lembram, Rohden está fazendo uma sabatina

       Big-Bang-Theory-Illustrated

                                                                                                            Do Google Imagem

 CREAÇÃO E EVOLUÇÃO

É possível creação sem evolução, ou não? O que é que vocês pensam? O que é que vocês entendem por creação? Digam. Crear seria o quê?

-Criar seria do ego, crear seria do eu.

-Bem, isto já é uma aplicação. Eu queria uma coisa mais fundamental.

– Creação parte do infinito…

-É a transição do infinito para o finito, ou a manifestação do infinito, em forma finita, parcial, nunca total. Porque o infinito nunca se vai manifestar totalmente em forma finita. Então a manifestação parcial do infinito em qualquer forma finita, nós chamamos creação. Creação no sentido filosófico – com e, não com i, isto é crear. A creação então é a transição do infinito para o finito, ou do universal para o individual, ou da essência para a existência, ou do absoluto para o relativo.

Vocês podem dizer isto de muitos modos, mas, é a mesma coisa. É sempre do todo para a parte, da fonte para o canal. Isto é que nós chamamos creação. Para haver creação precisa um poder imenso, um poder praticamente infinito. Nós não podemos crear pelo nosso ego, mas podemos crear pelo nosso eu. Porque o nosso Eu é Deus em nós. Por isso o nosso eu é creador. E quanto mais nós conscientizamos a presença e a identidade com nosso eu verdadeiro, tanto mais creadores nós somos.

O ego não é creador, ele é apenas produtor. Produzir é transformar um finito em outro finito. Também se chama evolver ou evoluir, como vocês dizem. Evolver ou evoluir é transformar um finito em outro finito. Também se chama criar – com i. Quer dizer, é uma continuação de um finito em forma de outro finito. Mas, a creação é de cima para baixo. Produção é da esquerda para a direita. A evolução é na horizontal, e a creação é da vertical para a horizontal – isto nós devemos entender logicamente e matematicamente por creação.

Então, é matematicamente certo que todas as coisas finitas foram creadas pelo infinito. O que é este infinito, nós não vamos determinar, e se nós determinarmos o infinito estamos perdidos, porque já falsificamos tudo. Tudo que eles podem definir está errado. Os finitos, sim, podem ser definidos. Definir é um composto de finir – finir quer dizer acabar. Definir é destruir uma coisa. Se vocês definem o infinito, vocês destruíram o infinito. Quem define Deus é ateu, porque ele pensa que Deus é qualquer coisa finita. Por isso ele definiu.

Definir quer dizer, limitar, circunscrever. Uma coisa infinita não pode ser limitada, não pode ser circunscrita. Então não é infinito. Portanto, não tentem definir Deus. Se vocês tentam definir Deus, vocês praticam agnosticismo, ateísmo, etc. Deus pode ser intuído, pode ser vivido, pode ser sentido com a alma. Isto não é definir. Sentir a presença de Deus não é definir. É viver Deus. Viver e vivenciar Deus; todos místicos vivem, vivenciam, intuem e sentem a presença de Deus, mas, nunca ninguém definiu. Definir é uma operação da nossa inteligência e a inteligência não pode chegar até o infinito.

– O que é que vocês dizem sobre a origem do homem? Estou fazendo uma sabatina. O homem é uma creação especial separada do resto da creação do mundo, ou o que é? Deus fez uma seção especial para crear o homem, ou ele já estava contido na creação anterior?

– Estava contido na creação anterior.

Santo Agostinho que viveu no 5º século, o grande doutor da igreja… Santo Agostinho… – africano. A África já produziu grandes gênios, antigamente. Moisés era africano. Agostinho era africano. Hermes Trismegistos, o grande iniciado, era africano. Tertuliano, o grande cristão, sábio, era africano… E  Agostinho diz: “Deus creou tudo simultaneamente.” O ato creador é um só. Deus não fez muitos atos creadores sucessivos. Agostinho diz: “Deus creou todo o universo inclusive o homem (ele insiste, inclusive o homem) simultaneamente, desde toda eternidade”. Quer dizer: “tudo que existe já foi creado desde toda eternidade”. Então, continua Agostinho: “mas, como é, se o homem foi creado desde toda a eternidade, porque é que o Gênesis diz que ele apareceu no fim do 6o dia da creação?” “Bem”, diz Agostinho – ele era um grande pensador – “a evolução do homem é temporária, mas a sua creação é eterna. A creação de todas as coisas é eterna. A evolução das coisas é temporária. Acontece através dos períodos cósmicos”.

Agostinho usa literalmente as palavras períodos cósmicos. A evolução se desenvolve através dos períodos cósmicos, mas, a creação está fora do tempo. A creação se deu na eternidade, mas a eclosão que seria a evolução (A eclosão é a evolução)… a creação é o início e desde o início o homem estava incubado nesta creação. E depois de tanto em tanto tempo, ele eclodiu. Saiu da linha do animal e superou um pouco a linha do animal, e vai subindo… subindo…cada vez mais.

Quer dizer, a ciência só admite a evolução. As teologias só admitem a creação. E na filosofia nós juntamos as duas coisas. Aceitamos a creação como início, e aceitamos a evolução como sua continuação. A filosofia é uma síntese entre teologia e ciência.

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                     ¦                                                                                                 ¦
¦                                                                                                 ¦                              Eclosão

                     ↓                                                                                                ↓                                ↑

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           Creação                           Evolução                                  Creação e evolução

          Teologia                             Ciência                                              Filosofia

Eu fiz este gráfico. Isto aqui é creação. Isto seria a ciência – esta linha aqui é a evolução. Aqui escrevi embaixo – filosofia – a grande chave. A filosofia compreende creação e evolução. Aqui o homem está na creação, mas não na evolução. Aqui começa a sua evolução ou eclosão. Aqui ele aparece diferente dos animais, mas o ato creador é um só. A evolução é múltipla, mas a creação é uma só. Assim podemos muito bem conciliar as coisas, uma com a outra. Portanto, não devemos admitir creação sem evolução, nem devemos admitir evolução, sem creação, como a ciência quer.

Devemos admitir os dois ao mesmo tempo. Devemos admitir logicamente, matematicamente, a creação, isto é, a transição do finito vindo da fonte infinita que chamamos creação – e depois, como a ciência verificou, tudo está sujeito a uma evolução. Juntando estas duas coisas, temos a coisa perfeita.