MAIS UM TEXTO DE DRUMOND DE ANDRADE. AGORA SEM NENHUMA “palhinha” MINHA.
ESTIMO QUE TENHA ESCRITO POR VOLTA DE 1969, MAS PARECE QUE ELE ESTÁ PAPEANDO CONOSCO EM NOSSA SALA DE ESTAR.

 

O SOBREVIVENTE

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Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

 

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

 

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem fio.

Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda

falta muito para atingirmos um nível

razoável de cultura. Mas até lá, felizmente,

estarei morto.

 

Os homens não melhoraram

e matam-se como percevejos.

Os percevejos heroicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

 

DRUMOND de Andrade, Carlos – NOVA REUNIÃO, 23 livros de poesia, volume 1, Alguma Poesia, pg. 35.
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