Univ_Estrelado

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Primeira parte da aula 14ª ministrada por Huberto Rohden em 9/ago/1977, esclarecendo alguns importantes conceitos filosóficos.

 

Hoje, depois da televisão, alguém me disse: O senhor anunciou na televisão que ia dar aula de Filosofia sobre autoconhecimento e auto-realização. Não vai continuar sobre a Nova Humanidade?”

 Eu disse: “Exatamente, tanto uma como a outra coisa – porque é o mesmo. Não existe nenhuma Nova Humanidade sem autoconhecimento e sem autorrealização, porque a Nova Humanidade não é massa, é apenas elite. A Nova Humanidade não vai começar com o 3º milênio, como alguns disseram por aí. Nem com o 4º milênio. Nem com o 10º milênio ou no 20°. Isto nada tem que ver com massa, massificação. Cada um de nós pode iniciar a Nova Humanidade dentro de si, porque a Nova Humanidade nunca existirá como massa. Nunca existirá 50% da Nova Humanidade, nem sequer 20%, nem talvez 10% – porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.”

Traduz assim: Muitos são os vocados e poucos os evocados. Os vocados são massas, os evocados, uma elite. Portanto, autoconhecimento e autorrealização são a mesma coisa que  Nova Humanidade, a qual começa dentro de cada um de nós. Mas se houver muitas pessoas autorrealizadas, então também se vai notar uma diferença na humanidade coletiva, lá fora, na massa; mas isto depende dos indivíduos. Não depende da massa. Os indivíduos produzem a massa, mas a massa não produz os indivíduos. Não se pode inverter a frase.

Hoje na televisão eu falei sobre Einstein… sobre a sabedoria de Einstein. Não a sabedoria das palavras dele, mas a sabedoria da vida dele. E no fim eu citei uma frase dele que diz assim. “A matemática é absolutamente certa enquanto ela ficar no abstrato. Mas ela perde da sua certeza na razão direta que ela se concretiza”.

E D. Xênia que estava ao meu lado disse: “É…, já fundiu a minha cuca”.

Por que ela disse isso?

Quer dizer que ela não compreendeu nada. Eu creio que com vocês  vai acontecer a mesma coisa. Muitos vão fundir a cuca; porque nós usamos uma linguagem muito exata, matematicamente certa, lógica de alta precisão, e muitos não estão habituados a esta linguagem. Confundem ser com existir. Confundem Deus com a Divindade, confundem o ego com Eu. Confundem tudo. E por isso vão fundir a cuca quando eu falo em termos de alta precisão.

Então, o principal, em um curso de filosofia, não é saber uma porção de coisas. O principal é saber pouquíssima coisa, mas com absoluta clareza. É melhor saber 10 coisas com clareza do que 100 com confusão. E é difícil para quem não está habituado a pensar corretamente, compreender uma linguagem de precisão matemática como nós usamos aqui.

As revistas (são muito superficiais) a cada momento questionam se o universo é finito ou infinito. Então discutem que alguém descobriu que o universo é finito; outro descobriu que o universo é infinito. Assim discutem nas revistas,mas não tem nenhum sentido. Pura confusão! Outros querem saber se o homem é mortal ou se é imortal. Não tem nenhum fundamento discutir isto. Outros querem saber se a vida neste mundo é eterna ou não é eterna. Tudo isto é bobagem. Isto é linguagem de jornal, é linguagem de revista ilustrada que não usa uma linguagem de precisão. Usa a linguagem bagunceira de cada dia.

Se alguém me perguntasse: “o Sr aceita que o universo é eterno?” Ou, “se é infinito ou finito?” Eu diria: “ele é finito e também é infinito. Não é ou – é finito E infinito.” Se alguém me pergunta, “o Sr aceita que o homem é mortal ou imortal?” Eu digo, “ele é tanto mortal como imortal.

Como é que pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? É claro que pode ser. E se alguém me perguntasse: “a vida neste mundo é eterna ou temporária?” Eu diria “ela é eterna e também é temporária.

Por quê? Porque na essência tudo é eterno, na existência tudo é temporário.

Agora, quem não sabe distinguir entre essência e existência, ou afirma que é eterno, ou afirma que é temporário; ou afirma que é infinito ou afirma que é finito. Ou afirma que é mortal ou afirma que é imortal. Por causa da confusão.

Na filosofia temos que compreender que todas as coisas deste mundo – não somente os homens – são eternos e também são temporários. Em que sentido? A essência é uma só em todos os seres. Nas pedras, nos vegetais, nos animais, nos homens, nos anjos, em outras entidades. É a essência do ser – não existem essências, no plural.

No vidros de cosméticos existem “essências”, no plural. Este é o significado físico da palavra “essência”. Mas não existe “essências”, no plural, na filosofia. Na filosofia usamos a palavra “essência” no seu sentido metafísico. O ser é a essência. O ser é absoluto. Não tem plural, não há seres. O ser é eterno. Em resumo: todas as coisas são eternas no seu ser, na sua essência, no seu absoluto; mas não são eternos na sua existência.

Agora já temos a célebre divisão entre essência e existência, entre ser e existir, entre realidade e facticidade. É preciso fazer esta acrobacia mental.

Eu chamo isto acrobacia mental. Fazer uma ginástica mental até chegar a uma perfeita clareza. D. Xênia hoje fundiu a cuca porque eu disse: Einstein disse que “a matemática é absolutamente certa enquanto ela ficar no abstrato.

Na linguagem comum, quando dizem “abstrato”, pensam em algo que é irreal. É só uma coisa pensada, imaginada, mas que não é real. Isto geralmente se considera “abstrato”. Concreto e o que julgam ser real é aquilo que se pode ver, pode-se ouvir, e até pode-se tanger. E pensam que este concreto é a realidade. O abstrato, neste caso, é mais ou menos irreal – é utópico, longínquo, mas não é muito sólido; é muito vaporoso e muito aéreo.

Mas Einstein usa a palavra ‘abstrato’ no sentido de puríssima realidade.

Quando dizemos que o homem é ao mesmo tempo abstrato e também é concreto, entendemos que abstrato é a realidade, eterna, infinita, absoluta do homem. E por concreto entendemos o seu corpo, as suas facticidades, o seu ego. O seu ego é concreto, mas o seu eu é absolutamente abstrato. Por isso, na nossa linguagem, abstrato é a puríssima realidade. E concreto não é a realidade. As coisas físicas são concretas, mas a metafísica é absolutamente abstrata. As coisas físicas não são reais. As coisas metafísicas são reais.

Usamos linguagem matematicamente certa. A mesma linguagem que se usa na matemática, usamos na filosofia. Afirmamos, pois, que o nosso ser, a nossa essência, o nosso eu, é abstrato… Ou seja, não podemos ver, não podemos ouvir, não podemos tanger, nem podemos analisar o nosso EU verdadeiro. O nosso eu verdadeiro é transcendental, é além da física, metafísico. Mas o transcendental, o abstrato, o metafísico é que é a realidade.

Temos que inverter completamente os nossos conceitos diários.

A madeira é real, para o homem comum; o papel é real… Esta é a linguagem comum. Mas nada disto é real. Porque o que se pode perceber pelos cinco sentidos, ou por um dos cinco sentidos, e o que se pode analisar mentalmente não é real. Também não é irreal. Então, o que ele é? Apenas realizado. Realizado é muito menos que o real, mas não é irreal. Nós não podemos dizer que esta madeira é irreal. Este metal é irreal. Não é verdade, mas também não é real. Veja como é necessário clarificar os conceitos: as coisas que podemos perceber com os 5 sentidos e analisar com a nossa inteligência, não são coisas reais. Mas também não são irreais.

A filosofia oriental chama isto maia, quando quer dizer que é realizado, mas que não é real. Real, a filosofia oriental diz, é somente Brahman. Brahman eles chamam a essência, a realidade infinita, a realidade absoluta, a realidade eterna. Na filosofia da China, o Eterno, o Infinito, a Realidade, o Absoluto se chama Tao. Entre os hebreus, a Realidade Infinita se chamava Yahve, falsamente pronunciada Jave, ou Jeová. Mas a pronúncia hebraica é Yahve, com y no princípio. Isto eles chamavam a realidade.

Alguns pensam que se pode chamar a Realidade de Deus, mas não está muito certo. Devemos chamar a Realidade de Divindade. A Divindade é abstrata. A Divindade é realidade, a Divindade é absoluta, é infinita, é eterna. Isto nós podemos substituir por Realidade. Mas na filosofia nós não usamos muito o termo “Divindade” – usamos os termos Realidade, Absoluto. O contrário de absoluto é relativo. O contrário de eterno é temporário. O contrário de infinito é finito.

Logo: Todas as coisas que nós podemos ver, ouvir, tanger, analisar mentalmente, são coisas finitas, são coisas temporárias e são coisas relativas; Mas não podemos ver o Absoluto – nem ouvir, nem tanger. Os nossos cinco sentidos não atingem a realidade, atingem as facticidades.

Aquilo que é derivado da realidade chamamos as facticidades, os fatos. As coisas concretas são os fatos. A coisa abstrata é a realidade. Podemos até dizer que a alma do universo é a realidade e o corpo do universo é as facticidades. Esta é a linguagem de Spinoza, o grande pensador do século XVII. Ele chama Deus a Alma do universo – e isto que nós vemos, ela chama o corpo de Deus. Deus como Deus ninguém pode ver. Nunca ninguém viu Deus com os olhos. Nunca ninguém ouviu a Divindade. Nunca ninguém tangeu a realidade, porque isto não é objeto dos sentidos. Isto não é objeto nem do pensamento. Isto é além de todos os sentidos e além de todos os pensamentos. Isto é a realidade.

Portanto, na vida comum nós nunca chegamos à realidade. Na vida de cada dia nós só lidamos com fatos, com facticidades. Lidamos com derivados, com relativos, com coisas temporárias. Lidamos com coisas finitas e erradamente chamamos isto de “ real”. Nada disto é real. Tudo isto é apenas realizado. O efeito da realidade se chama o realizado. A causa é a realidade. Os efeitos são o realizado. Quando uma coisa sai da realidade invisível, eterna, absoluta, transcendental e entra na zona dos realizados, então se torna perceptível para nós e analisável. Podemos, então, perceber, ver, ouvir, tanger e até analisar cientificamente as coisas realizadas. Toda ciência trata disto. A ciência não trata da realidade.

É claro que os cientistas não gostam que se diga isto. Mas é pura verdade. Nenhuma física, nenhuma química, nenhuma biologia, nenhuma eletrônica, nenhuma ciência atômica trata da realidade. Tratam de fatos, tratam de facticidades, tratam de derivados, tratam de efeitos, mas não tratam da causa. Não tratam da realidade.

Então, na filosofia nós temos que ver qual é a relação entre a realidade e as facticidades. Alguma ponte que possa unir a realidade com as facticidades, que possa unir o Absoluto com os relativos, que possa unir o infinito com os finitos, que possa unir o eterno com os temporários, que possa unir o Creador com as creaturas.

Aqui estão os dois polos. O polo da realidade e o outro, o polo das facticidades. E estes 2 polos juntos se chama universo – Uni – verso.

Neste diagrama, há um ponto central, e muitos raios que partem dele. O ponto central seria o que chamamos de “Realidade”. E os raios são as facticidades. O centro seria o Eterno, o Infinito, o Absoluto, a Divindade, Brahman, Tao, Yahve, a alma do universo.

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O ‘UNIVERSO’ seria o todo. Os raios seriam os VERSOS e o centro seria UNO.

É claro que isto é um símbolo, muito imperfeito. Mas dá mais ou menos uma ideia. Tudo vem do centro, tudo vem da Alma do universo, mas a Alma do universo não é visível. A Alma do universo nunca foi vista. E nunca foi ouvida e nunca foi tangida por ninguém. Nem foi pensada. Ninguém pode pensar a realidade. Ninguém pode pensar o infinito. Então, praticamente parece que estamos eternamente separados da realidade; que  nunca podemos saber o que é a realidade. No princípio a gente entra em desespero – tem vontade de jogar tudo fora e não fazer mais nada; porque se não posso atingir a realidade, eu vivo eternamente nas facticidades, eu vivo numa eterna ilusão. Porque os fatos, as facticidades não são a realidade.

Estamos, assim, numa espécie de pessimismo universal. Mas graças a Deus podemos nos salvar do pessimismo universal. Apesar de não podermos ver, nem ouvir, nem tanger, nem sequer pensar a realidade – contudo podemos ter plena certeza da realidade.

De que modo? Porque o homem comum pensa que a certeza vem do ver, do ouvir, vem do tanger – para o homem comum… Para o cientista, a certeza vem do analisar, do demonstrar na física, na química, na eletrônica. A certeza é do laboratório.

Mas, para a filosofia a certeza não é dos sentidos, a certeza não é dos ouvidos, a certeza não é do tato, a certeza não é da inteligência, e apesar disto podemos ter certeza.

Existe alguma coisa em nós além dos sentidos, além da inteligência? Aparentemente não; realmente, sim. Se fôssemos apenas sentidos e inteligências, viveríamos eternamente na ilusão e nunca chegaríamos a perceber a realidade. Mas podemos ter plena certeza da realidade, não através dos sentidos, não através da visão, não através da audição, não através do tato, não através do pensamento, da inteligência. Estes caminhos não nos levam à realidade. São preliminares, provisórios, mas não chegam até o fim.

Então, estamos diante deste estranho impasse: Se os sentidos e a inteligência não nos revelam a Realidade, o Absoluto, o Eterno, a Divindade, Brahman, Tao, Yahve, como é que vamos descobrir a realidade? Estamos diante deste impasse. E no princípio nos tornamos pessimistas e céticos universais. Dizemos: Bem, é inútil querer ter certeza sobre a realidade, porque a realidade não é um objeto dos sentidos, e não é nem sequer um objeto da inteligência. De que coisa a realidade é objeto?

Aparentemente de nada, porque o homem comum não sabe nada fora dos seus sentidos e fora da sua inteligência. Ele pensa que o mundo todo é do sentido e da inteligência. E nós negamos que a Alma do universo possa ser descoberta pelos sentidos, nem sequer pela inteligência. Ela não pode ser descoberta fisicamente, nem mentalmente. Se não pudermos ultrapassar os sentidos e a mente, estamos perdidos. Nunca teremos certeza de coisa nenhuma. Tudo é duvidoso. Tudo que os sentidos nos dizem não é a verdade. O que a inteligência nos diz não é a verdade.

E nós queremos a verdade.Novo Universo