Verdade

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Segunda parte da aula 14ª ministrada por Huberto Rohden em 9/ago/1977.

 

Eu sou o caminho a verdade e a vida.” “Eu vim para dar testemunho à verdade”.

E Pilatos ouviu aquela palavra “verdade” – veritas, em latim – encolheu os ombros e disse: ‘que história é esta, verdade… Será que alguém pode ter certeza da verdade’?

Pilatos era um grande cético, como vocês veem. ‘Este homem fala em verdade, mas verdade é uma utopia, ninguém pode ter certeza da verdade. A verdade não é uma coisa atingível por nós – diria Pilatos.

E nós todos somos Pilatos. No nosso ego todos somos Pilatos, porque o nosso ego é feito de sentido e de inteligência e fora disto não tem nada.

Quem não ultrapassa o seu ego humano, o seu ego sensorial e o seu ego mental, adeus verdade. Vamos desesperar. Vamos ser Pilatos e dizer, ‘Que história é esta, verdade? Eu conheço as facticidades’ – diria Pilatos. ‘Eu sei sobre o império romano da Europa, da Ásia e da África’ – mas, isto não é a verdade. Isto são apenas fatos, facticidades.

Então, quem não ultrapassou o seu querido ego de cada dia, o seu ego sensorial, o seu ego mental e o seu ego emocional, todos o conjunto do  ego humano, nunca vai chegar ao conhecimento da verdade.

E o maior dos iluminados e iniciados que este mundo conhece disse:

 “Conhecereis a verdade”.

Ele supõe que a gente possa conhecer a verdade. E nós dizemos que não é possível conhecer a verdade. Ele acrescentou:

conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Quer dizer, enquanto nós não conhecermos a verdade nós não estamos libertos. Nós somos escravos.

Quem não está liberto está escravizado. Estamos na cadeia. Não numa cadeia de ferro, mas em uma cadeia mental – muito pior que uma cadeia de grades de ferro. E todo ego vive na cadeia, 50 anos na sua vida, 80 anos de sua vida – e você pode morrer na cadeia. Nunca saiu da cadeia, da cadeia das aparências, da cadeia dos sentidos, da cadeia da inteligência. Eterna cadeia!… 50, 80 anos de cadeia terrestre.

Você anda na rua e vai para onde quiser e diz que é livre; pode fazer as viagens que quiser. Mas está escravizado. E não conhece a verdade.

 Disse o Nazareno, ‘conhecereis a verdade e quando conhecerdes a verdade,sereis livres. Enquanto não conhecerdes a verdade, sereis escravos’. Logo, o maior dos homens supõe que a gente possa conhecer a verdade. E nós estamos desanimados, pois não temos nenhuma esperança de conhecermos a verdade. Mas, esse homem que disse: “conhecereis a verdade” não falava dos sentidos e não falava da inteligência. Apelava para outra faculdade. Apelava para algo além dos sentidos. Algo além da própria inteligência analítica.

Como é que vamos chamar aquela faculdade que está para além dos sentidos e para além da nossa mente? Bem, é difícil dar um nome a esta faculdade.

E como é que ela funciona? Como é que a gente pode saber algo para além dos sentidos e da inteligência? Não é pelo ver, não é pelo ouvir, não é pelo tanger que podemos alcançar a verdade. Não é nem pelo pensar. Então, devemos ter alguma outra faculdade que esteja além dos sentidos, além do mundo sensorial, e além do mundo mental. E onde é que está esta faculdade que nos revela a verdade?

Está dentro de cada um de nós. Mas, é uma luz debaixo do velador, como diz o mesmo homem. É uma luz debaixo dum invólucro opaco, é uma pérola no fundo do mar, é um tesouro oculto num campo. Tudo isto ele diz há 2000 anos. Em nós existe a luz, existe a pérola preciosa, existe o tesouro oculto – e ele chamava o conhecimento da verdade – o reino de Deus. A verdade ele chama o reino de Deus.

Mas, mestre, tu falas sempre no reino de Deus, mas aonde é que está ele? Onde é que ele está? Eu nunca vi o reino de Deus. Abri os olhos por todos os lados, escutei por todos os lados, pensei tanto, estudei tanto, não descobri nada da verdade do reino de Deus – que ele chama isto; onde é que ele está?

E aquele homem que tinha a sabedoria dentro de si disse: ‘o reino de Deus não vem com observâncias externas’, quer dizer, não vem dos sentidos com o qual observamos os objetos; nem pelo pensamento. Nem se pode dizer: eis aqui está a verdade; acolá está a verdade, aqui está o reino de Deus, lá está o reino de Deus.

Ele diz que a verdade não tem nenhuma localização. Ela não está no norte, não está no sul, não está no leste, não está no oeste, não está no céu e não está na terra. Não tem lugar nenhum onde ela esteja. Depois ele acrescenta: “o reino de Deus está dentro de vós. Está dentro de cada um de vós, mas, é um tesouro oculto. É um tesouro que está dentro de vós e vós não sabeis nada deste tesouro”. Depois ele diz: “é uma pérola preciosa no fundo do mar, mas ninguém mergulhou bastante fundo para descobrir a pérola que cresce no fundo do mar, nas conchas”. Depois diz: a verdade é uma luz, mas está debaixo de um velador opaco’.

Quando vocês emborcam uma coisa opaca por cima de uma luz e ela não apaga, ao redor fica tudo escuro. Não ha mais luz lá fora. A verdade é assim, a verdade está dentro de cada um de nós, mas nós não descobrimos aquilo que está dentro de nós. “Nós descobrimos o que está fora”. Os fatos estão fora de nós. A realidade está dentro de nós’.

E quando alguém descobre a realidade dentro de si, então, ele se liberta de toda escravidão. Quer dizer, o único modo da gente se libertar realmente é pelo descobrimento da realidade. Isto se chama verdade.

Cuidado! Não confundais verdade com realidade – todo o mundo confunde. A realidade é eterna, infinita, absoluta. A realidade que não tem nada que ver conosco – nós não fizemos a realidade. Ela existe desde o princípio do mundo. Mas, a verdade é a consciência que eu tenho da realidade. Quando eu conscientizo a realidade dentro de mim, desperta a consciência da realidade, então, eu estou na verdade. Portanto não vamos confundir verdade que é uma relação entre a nossa consciência da realidade e a própria realidade. Nós não podemos fazer a realidade. Mas nós podemos conscientizar a verdade. Nós somos autores da verdade, não somos autores da realidade. Podemos somente ser autores da verdade.

E quando é que eu sou autor da verdade? Quando eu tenho uma noção direta e imediata da realidade que não está do outro lado das nuvens, mas que está dentro de mim mesmo. Em mim, no meu centro existe a própria realidade. Em mim existe o eterno, em mim existe o infinito, em mim existe o absoluto, mas nós não enxergamos. Quer dizer, não é por não estar presente que nós não enxergamos a realidade. É porque nós não abrimos os olhos da consciência para enxergar a realidade.

Então, o importante é abrirmos os olhos da consciência. Mas, que coisa é a consciência? A consciência é a realidade dentro de nós mesmos. A consciência em nós é o Eterno, é o Infinito, é o Absoluto. A consciência em nós é Brahman, é Tao, é Yahve, é a Divindade. Isto é a consciência. Quando então a nossa consciência começa a funcionar e nós não vemos só com os olhos, e nem ouvimos só com os ouvidos, nem tangemos só com as mãos, nem só analisamos pela inteligência… – mas quando temos uma revelação, uma intuição, uma inspiração, então, nós entramos em contato com a realidade. Quando somos inspirados, quando temos intuição e quando recebemos uma revelação do Infinito, do Eterno, do Transcendente – então, nós conhecemos a realidade, estamos na verdade.

E por que quase ninguém recebe a intuição e quase ninguém tem a revelação da realidade e quase ninguém está na verdade?

Porque o grosso da humanidade não consegue a consciência da realidade que se chama verdade. A verdade é a consciência que eu tenho da realidade – isto se chama verdade. Porque é que quase ninguém chega à consciência da realidade… Sabeis por quê? Porque nós estamos saturados, supersaturados, hipertrofiados de facticidades. As facticidades são dos sentidos, dos olhos, dos ouvidos, do tato e da inteligência que são fatos. Enquanto nós estamos hipertrofiados de facticidades estamos vazios da realidade. Quer dizer, onde há muitas facticidades dos sentidos e da inteligência, nós não chegaremos ao conhecimento da realidade.

Se nós conseguíssemos esquecer por 5 minutos, por 10 minutos, por 20 minutos, por meia hora, todas as facticidades e não tivéssemos mais nenhum pensamento, nenhuma visão, nenhuma audição, nenhum tato e nenhum desejo; então estaríamos livres das facticidades. Mas isto é uma coisa impossível para o homem comum. Entre 1 milhão de homens não há 1 que consiga isto. Mas se ele consegue libertar-se das facticidades por algum tempo, ao menos meia hora por dia, ele vai ter a maior revelação da realidade.

A realidade é  a Divindade. A realidade é o infinito. Mas, só se pode ser plenificado pela realidade quando se é esvaziado das facticidades. O nosso ego é entupido de facticidades e por isso ele não chega ao conhecimento da realidade. É um processo muito difícil, a gente se deixar invadir pela realidade. Nós não podemos invadir o infinito, mas o infinito nos pode invadir.

Eu não posso invadir a Divindade, mas a Divindade me pode invadir. Eu não posso invadir o Absoluto, mas o Absoluto me pode invadir. Eu posso ser invadido pela realidade, mas eu não posso invadir a realidade

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Aqui está o diagrama. O centro é a realidade; os raios que vão para todos os lados são as facticidades. Fiz alguns raios reversivos – são a conscientização da realidade.

Os outros seres que vão para fora, mas não voltam são as creaturas fora de nós, o mundo mineral, o mundo vegetal, o mundo animal. Mas nós temos esta possibilidade: viemos do centro da realidade e podemos voltar para o centro da realidade.

Quando alguém só vem da realidade ele não tem consciência da realidade, mas se alguém sai da realidade e volta conscientemente para a realidade – então ele está na verdade. Só nós podemos estar na verdade. Os outros seres não têm a faculdade de conhecer a realidade. Portanto os outros seres não podem atingir a verdade e por isto os outros seres não se podem libertar. Só nós podemos libertar-nos da ilusão das facticidades. Os outros seres vivem na mesma ilusão, mas não sabem.

O mineral também vive nas facticidades. O vegetal vive nas facticidades. O animal vive nas facticidades. Estão escravizados, mas não sabem nada da sua escravidão, porque nos outros seres acontece tudo automaticamente. Nós somos os únicos seres, aqui na terra pelo menos, que podemos conhecer o que somos, isto é, eu sou esta realidade. Aqui eu estou nas minhas facticidades. Mas dentro das minhas facticidades do meu ego eu conheço que eu tenho a minha origem na Realidade. Então, eu volto para a Realidade donde vim. É ida e volta, os outros só têm ida, não têm volta. Eu venho da realidade e eu volto conscientemente para a realidade. Isto se chama autoconhecimento e autorrealização, palavras tão usadas atualmente. Se eu faço este movimento eu tenho a consciência, a minha origem é também o meu destino. A minha origem tem que ser o meu destino final.

Mas, os outros seres não podem conhecer, eles não sabem que vieram da realidade. Vieram da realidade inconscientemente. O animal também veio da realidade, a planta veio da realidade, o mineral também veio da realidade – mas não podem saber; porque não têm consciência suficiente para saber isto. Nós somos os únicos seres que depois de terem emanado da realidade podem ter a consciência da sua fonte. Podem ter a consciência e dizer, eu vim da Infinita Realidade. Agora estou aqui, aparentemente fora da Realidade, mas eu descobri que eu posso conscientemente, livremente, voltar para donde eu vim. Isto se chama autoconhecimento, autorrealização que produz imortalidade.

A imortalidade não é possível sem isto. Quem apenas sai do Infinito como os animais, não se imortaliza. Mas quem saiu do Infinito como nós e está aqui nos finitos, e nele desperta a consciência: eu vim do Infinito e eu posso conscientemente voltar para o Infinito… Ele se imortaliza. Isto então é a nova humanidade.

Os supraterrestres, os terrestres e os infraterrestres – é a divisão que São Paulo faz dos seres conscientemente livres. Ele chama isto as creaturas celestes, terrestres e infraterrestres. Ele atribui livre arbítrio e consciência os três grupos de seres conscientes: os supraterrestres que ele chama os celestes, os terrestres que somos nós e os infraterrestres as outras humanidades abaixo de nós, que não sabemos, mas eles podem ter autoconhecimento.

Os seres celestes – vamos dizer, os anjos – nós sabemos o que são – podem ter conhecimento de si mesmos. E os terrestres, que somos nós, podem ter autoconhecimento e autorrealização. E os infraterrestres, talvez muito atrasados, mas ainda podem ter autoconhecimento e autorrealização. Uns mais cedo, outros mais tarde, mas isto é questão de tempo.

Onde existe uma potencialidade creadora existe a possibilidade de autoconhecimento e autorrealização. Em qualquer ser livre dotado de livre arbítrio e consciência existe a possibilidade do autoconhecimento e de autorrealização. E os mestres atribuem isto à libertação.

Conhecereis a verdade sobre vós mesmos e o conhecimento da verdade vos libertará de toda ilusão.