Rohden                                                                             eu-maior.blogspot.com

Resumo da 15ª aula (primeira parte) do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 16/08/1977.

 

Existem coisas difíceis em toda filosofia, mas, sobretudo na filosofia Univérsica.

Ver a unidade em toda a pluralidade. É um problema.

            Ver o monismo absoluto no pluralismo relativo.

Ver a essência única nas existências múltiplas. Quem não consegue isto vai rastejando eternamente e ciscando aí como as galinhas, mas não vai voar como as águias.  Mas, se alguém consegue compreender a unidade em toda a pluralidade, ou o monismo absoluto – como nós diríamos – então todo o resto é café pequeno.

As facticidades são concretas e nós estamos habituados a elas, aos fatos. Os sentidos só percebem os fatos. A inteligência só analisa os fatos. Mas nós não podemos chegar à realidade pelos sentidos, nem pela inteligência. Como é que vamos chegar lá? Só pela intuição. Mas a intuição não está desenvolvida na maior parte das pessoas. A intuição existe em cada um de nós, mas é uma criança nascitura, que ainda não nasceu. É preciso fazer nascer esta criança da intuição cósmica.

Bem, pela meditação a gente favorece um pouco o nascimento desta criancinha: a intuição cósmica. Somente pela intuição cósmica vocês podem ver a unidade da essência na pluralidade de todas as existências. É fácil dizer isto, mas não é fácil realizar.

Vamos tentar concretizar um pouco esta coisa abstrata, que é a realidade.

Imaginemos um desenho em cujo centro está uma cruz – a cruz é a essência; ao redor da cruz coloquemos diversos círculos, de diversas cores e diversos tamanhos. Os círculos representam as existências. Temos aí o diagrama do monismo. Termos uma única essência e, ao seu redor, inúmeros círculos – são as existências. A essência é infinita, é a unidade, o Criador.  As existências são as pluralidades, são finitas, são as creaturas.

É fácil imaginar isto, mas não é fácil ter a experiência do monismo absoluto, da realidade, porque os nossos sentidos não sabem nada da essência. Para os nossos sentidos a essência é um puro nada – quando, de fato, é a própria realidade. Mesmo pela inteligência nós não chegamos até lá – ela para no meio do caminho, vai mais longe do que os sentidos – mas não vai até o fim, porque ela está baseada nos sentidos.

Então, quando nós só trabalhamos com a inteligência e com os cinco sentidos, nós nada sabemos da realidade. Nós confundimos as facticidades com a realidade e dizemos que isto é real, aquilo é real. Na filosofia isto é heresia pura. Nós não sabemos nada da realidade, a não ser por uma intuição cósmica. A intuição cósmica, a qual sabe da realidade, vai infinitamente além dos sentidos e além da mente. Na mística chamam-na de Realidade – Deus. E esta experiência se chama consciência cósmica. A intuição, como a chamamos na filosofia, em termos religiosos se chama consciência cósmica.

Nunca se chegara até a consciência cósmica pelos sentidos, nem pela inteligência. Somente esvaziando-se completamente do conteúdo dos sentidos e também do conteúdo da mente se chegará à consciência cósmica – aí se terá a experiência da realidade – antes, não.

Imaginem agora a ESSÊNCIA, a REALIDADE, a DIVINDADE – se preferirem BRAHMAN, TAO, YAHVÉ. Mas isto não é objeto dos sentidos. Isto é da intuição cósmica, isto é da experiência mística, se preferirem.

O que nós sabemos é sobre as existências, do mundo mineral, do mundo vegetal, do mundo animal e do mundo hominal. É o que vemos todos os dias. Mas, as existências não estão em um vácuo. As existências só existem com a essência dentro. Mas nós não temos consciência disto. Nós só temos consciência das existências; os sentidos nos apontam as existências; a inteligência analisa as existências – existências minerais, vegetais, animais, hominais.

A não ser pela intuição cósmica ou experiência mística, a essência não existe. Mas dentro de cada existência está a essência. Em outras palavras, dentro de cada creatura está o Creador. A creatura eu vejo, eu sinto, e dentro de cada creatura está o Creador, mas para mim este Creador é inconsciente.

Há poucos anos atrás eu recebi a visita de dois estudantes luteranos, dos Estados Unidos, que estudavam teologia em Campinas. E falamos muito em filosofia e chegamos a isto: que Deus está presente em todas as creaturas.

-“O que?” disseram os dois, “Deus está presente nas creaturas?” “Deus está no céu. Deus não está aqui”.

Eram completamente ignorantes em matéria de filosofia. E achavam que Deus mora do outro lado da via Láctea, e nunca esteve aqui e não está presente na terra, segundo eles.

Eu disse: “Mas Deus está onipresente, Deus é isto aqui. Está onipresente em qualquer lugar e em qualquer creatura.”

– “Vocês admitem onipresença de Deus ou não?”

-“Admitimos.”

-“Está bem, em palavras, vocês admitem.” “Na realidade vocês negam.” “Porque se Deus está ausente desta pedra, já tem um buraco lá, um buraco da presença dele”.

-“E se Deus está ausente duma barata, ausente duma aranha e ausente duma galinha e ausente de um porco – então Deus não está onipresente.” “Porque vocês estão dizendo que está onipresente”.

-“Eu vou dizer mais ainda. Deus não está presente na pedra. Deus é a própria pedra, em forma de pedra”.

-“Mas isto é panteísmo puro.”

É pena que naquele tempo eu não houvesse ainda lido o livro de Joel Goldsmith: “A arte de curar pelo espírito”. Lá ele insiste na unidade da realidade. O poder único, é como ele chama a unidade da realidade. E ele curou todos os doentes durante trinta e tantos anos pela consciência da presença de Deus em tudo. Em tudo, não só em nós. Também nas plantas, também nas pedras.

Então, Joel Goldsmith em seu livro diz:

“Eu tomo nas mãos uma planta e digo: isto é Deus, com aparência de planta.” “Eu tomo na mão uma pedra e digo: isto é Deus em forma duma pedra. A essência é Deus, a existência é pedra”.

“Em mim, a essência é Deus e a existência é esta pessoa humana.”

É um ótimo tratado de filosofia monista, porque ele tem uma certeza absoluta da onipresença de Deus. Seja aonde for, a essência está presente em todas as existências.

Nós não devíamos dizer: a essência está presente em todas as existências. Nós devíamos dizer: todas as existências são a própria essência. Isto estaria certo. Todas as existências, todas as creaturas são a própria essência divina, mas não é visível para nós.

Francisco de Assis (século XIII) nunca estudou filosofia, mas por natureza tinha uma intuição cósmica. Eu não sei como alguns homens são tão felizes e veem Deus em tudo. Veem Deus numa planta, num peixinho, num passarinho, veem Deus em tudo. Até no irmão lobo, como dizia Francisco de Assis… Até na morte, em tudo. No sol e na lua… Em tudo. Eles têm uma visão cósmica. Eles veem através dos invólucros existenciais e enxergam a realidade essencial.

É interessante! Alguns são tão felizes como Francisco de Assis (e muitos outros) que já

nascem com uma tremenda facilidade de intuição cósmica. Eles veem os invólucros duma pedra, mas não dizem que isto é uma pedra. Eles dizem: isto é Deus em forma duma pedra. Depois veem uma flor e dizem: isto não é uma flor – isto é Deus em forma duma flor. E veem um passarinho e dizem: isto é Deus em forma dum passarinho. E veem um peixinho e dizem: isto é Deus em forma de um peixe.

Por isso Francisco de Assis falava com os passarinhos. E os passarinhos o entendiam. Os peixes o entendiam. E uma vez falou com o irmão lobo que estava matando ovelhas[i]. E disseram: estes lobos estão matando todas as ovelhas aqui embaixo, Francisco, pode matar este lobo? – “Matar?” Ele disse, “não vão matar o lobo, não”. “Vou falar com ele, que ele não faça estas bobagens. Deixe-me subir o morro onde ele mora.”

Finalmente chegou diante de uma caverna e disse: “irmão lobo, parece que tu moras aqui”. O lobo saiu da caverna e ficou diante de Francisco de Assis que lhe disse:

– “Irmão lobo, eu vi dizer muitas maldades de você. Você está matando as ovelhas dos aldeões. Olha, há tantos animais selvagens aqui no mato que não fazem falta a ninguém, por que você não os caça  e deixa de lado as ovelhas? Tenha um pouco mais de trabalho e vá caçar uma coisa aqui no mato!…”

E irmão lobo fez “Uh!” E foi-se embora. E desde então ele nunca mais matou nada.

Para um homem que chegou à consciência cósmica de ver Deus em tudo, é claro que ele falou com Deus em forma dum lobo. Deus não fazia estas maldades. A essência não fazia estas coisas, mas a existência do lobo é que fazia estas coisas que ele não devia fazer. Então ele falou com a existência do lobo, mas sabia que a essência divina estava nesta existência visível.

Empenhemo-nos em chegar à visão cósmica, enxergar a realidade ou a essência, ou a Divindade em todas as facticidades, em todas as existências, em todas as creaturas. Isto seria o nascimento da nova humanidade.

A nova humanidade não vai aparecer no 3º milênio, nem no 4º , nem no 10º milênio…

A nova humanidade é fenômeno individual. E Francisco estava na nova humanidade.

 

[i] Veja isto: http://muralanimal.blogspot.com.br/2013/10/sao-francisco-de-assis-e-o-lobo.html