Real e Irreal

 

Primeira parte da aula 16 – CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 23 de agosto de 1977

 

Realidade e facticidade

O marido de uma das nossas alunas perguntou à esposa o que acontece na meditação:

– “Não acontece nada”.

“Bem”, ele disse, “se não acontece nada então vocês perdem o seu tempo”.

“Não”, disse ela, “nós não perdemos nosso tempo na meditação, porque há experiências íntimas, acontecimentos dentro de nós, em nossa consciência, de que não se podem fazer estatística”.

-“Bem”, ele insistiu, “estes ‘acontecimentos íntimos’, podem ser verificados, podem ser controlados, podem ser provados cientificamente?”

“Não”, ela disse, “isto não se pode, porque não pode chamar o computador e dizer: faça o favor de computar a que grau de espiritualidade eu estou. Isto o computador não pode fazer”.

Então aquele senhor disse:

“Bem, então não é real aquilo que acontece”.

“É real, mas não são fatos” – ela completou.

Ele não entendeu nada, porque muitos confundem a realidade com as facticidades. O homem profano só considera como real aquilo que se pode ver, ouvir e apalpar. Mas as experiências espirituais não se podem ver, nem ouvir, nem apalpar. Ele diz, “então não é real”.

Muitos pensam assim. Mas temos que distinguir nitidamente entre realidade e fatos externos. Os fatos podem ser verificados pelos sentidos. São facticidades. O conjunto dos fatos é as facticidades, mas os fatos não são reais.

Joel Goldsmith, no livro ‘A arte de curar pelo espírito’, faz uma nítida distinção entre realidades e facticidades. Ele pergunta: “as nossas doenças são fatos ou não são?” E responde – “doenças, infelizmente, são fatos”. Depois pergunta: “Então, as doenças são reais ou não são reais?” Ele mesmo responde,”não são reais mas foram realizadas”.

O que é realizado é um fato, mas não é real. “Real”, diz Goldsmith, “é somente aquilo que foi creado por Deus. Aquilo que nós fazemos é ‘realizado’, mas não é real”.

Os fatos são realizados. A doença é um fato – o câncer, a tuberculose, são fatos, fatos realizados – por quem? Deus não fez câncer, Deus não creou tuberculose. Quer dizer, estas coisas não são reais. Vamos chamar real só aquilo que o Creador fez.

O Creador não creou câncer, não creou tuberculose, não creou nenhuma doença, mas se estas doenças existem, quem as creou? É claro, alguém as creou. Será que nós também não somos creadores?

 

Os homens são creadores[i]

É claro que somos! Somos como dizem os gregos, demiurgos: Demi quer dizer meio; urgo quer dizer creador. Demiurgo = semicriador. O nosso ego humano é semicreador, é um demiurgo. Quer dizer que nós podemos produzir coisas – negativas, via de regra – pelo nosso ego, mas, as coisas positivas, benéficas são creações de Deus.

“Tudo era bom”, diz o Gênesis. No Gênesis, no fim do 1º período da creação, os Elohim viram que “era bom”; no fim do 2º período viram que “era bom”. E no 6º período, quando apareceu o homem, viram que era “muito bom”. A creação do homem era “coisa muito boa”. As outras coisas eram todas boas, e nenhuma vez se diz que Deus creou o câncer, a tuberculose… – isto seria o mal. Mas estas coisas ruins não foram creadas.

 

O que é REAL e o que é IRREAL

Vamos distinguir nitidamente entre aquilo que é real, creado por Deus (todas as coisas boas são reais e são creadas por Deus). E vamos distinguir entre aquilo que é apenas realizado pelo nosso ego humano, mas não são iguais às coisas reais que são positivamente boas. As coisas realizadas às vezes são boas. Mas nós realizamos, pelo poder do nosso ego humano, muitas coisas negativas. Portanto, não são reais.

Há certas orientações – também nos Estados Unidos isto é difundido – que dizem que as doenças são irreais. Que é simples ilusão. Não existe nenhum câncer, não existe nenhuma lepra, não existe tuberculose. Isto não é verdade.

Estas coisas não são irreais. Não vamos chegar a este ponto de dizer que não existe nenhum câncer, que não existe tuberculose, que não há lepra, que não há nem dor de cabeça. Estas coisas não são reais, mas também não são irreais. Há uma 3ª coisa que não é nem real, nem irreal. Isto é o que nós fazemos. O poder da nossa mente humana é demiurgo. É semicriadora. Nós, pelo poder do pensamento, podemos criar coisas negativas. Infelizmente nós criamos muitas doenças porque as mentalizamos, sem saber.

Alguém está doente, então, nós temos a impressão que nós também temos que estar doentes algum dia. E temos que envelhecer antes do tempo porque acreditamos que isto é regra geral: então, entramos na regra geral e mentalizamos coisas negativas. Se nos habituássemos a nunca mentalizar coisas negativas, moral ou fisicamente negativas… As maldades são moralmente negativas. Crimes são moralmente negativos. Doenças são fisicamente negativas. Se nós nunca mentalizássemos coisas negativas nem na zona moral, nem na zona material – o mundo seria completamente diferente. Mas o nosso ego tem a mania de inventar coisas negativas. E pela força da mentalização nós realizamos coisas negativas.

Então, os fatos nem sempre são realizados por Deus… Fatos positivos são realizados por Deus, mas fatos negativos são realizados por nós. Não são irreais, mas também não são reais. São apenas “realizados”.

O que realizamos na meditação é real, mas não é uma facticidade, que se possa provar por meio de computador ou de que se possa fazer estatística.

 

Fatos e Valores – Ciência e Consciência

A humanidade está começando a fazer a distinção entre fatos e valores.

Essa distinção é de Einstein: “o mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, porque os valores vêm de outra região”.

Que são valores? Os valores são creações da nossa consciência. A nossa consciência pode crear valores positivos.

A ciência pode apenas descobrir fatos. A ciência não pode crear valores porque a ciência não crea nada. Ela somente descobre coisas que já existem. As leis da natureza podem ser descobertas pela inteligência através da ciência. Isto a ciência pode fazer. Agora, o que não pode fazer é crear valores.

Valores são da consciência[ii]. Fatos são da ciência.

A ciência é transitiva, a consciência é reflexiva.

Isto é o melhor meio de exprimir a diferença entre ciência e consciência: Na ciência eu estou ciente do objeto, duma pedra, duma planta dum átomo, dum astro (Eu tenho ciência disto, mas isto não é consciência); Consciência sempre é partir do sujeito e faz do próprio sujeito o seu objeto. Na consciência o sujeito é o seu próprio objeto.

Na ciência há diferença entre sujeito e objeto.

A consciência pode crear valores[iii], a ciência não crea valores, mas descobre fatos.

Do mundo dos fatos, diz Einstein, não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores – porque os valores vêm de outra região. Os valores são creados por nós. Onde não há consciência não há creação de valores. Existem valores positivos e existem valores negativos. Verdade, amor, justiça são valores positivos. Mas também existe o contrário: existe o erro em vez da verdade, injustiça em vez de justiça e maldade em vez de bondade. Então, há valores positivos creados pela consciência e há valores negativos, também creados pela consciência.

Somente uma creatura consciente pode ser boa ou pode ser má. Aqui na terra nós, os chamados humanos, somos as únicas creaturas que podem ser boas ou podem ser más. O animal não pode ser bom nem mau. A planta não pode ser boa nem má, uma pedra não pode ser boa nem má. Moralmente falando, é claro.

Os valores não existem na natureza. Só existem fatos, facticidades. Mas, é interessante, a palavra latina para fato, é “factum”, com ct, e o adjetivo de factum é factício… Pouco a pouco o ‘a’ passou para ‘i’, e deu fictício. Quando uma coisa é ilusória dizemos, isto é fictício. Isto não é real. Enfatizando: o adjetivo derivado de facto (ou fato) é factício. E factício quer dizer fictício. Ou seja, os fatos não são reais.

A própria palavra, a etimologia da palavra em latim prova que os fatos não são coisas reais. De ‘facto’  nós derivamos ‘fictício’. O radical é ‘facto’. Quer dizer, todos os fatos são fictícios. Os fatos não são reais.

Real não é fictício. Somente os valores são reais. Os valores são creações reais da nossa consciência ou da consciência cósmica.

A consciência infinita crea valores. Mas, a nossa consciência humana também pode crear valores.  Pela creação de valores positivos nós nos tornamos bons, e pela creação de valores negativos nós nos tornamos maus. Somos os creadores das nossas bondades e somos os creadores das nossas maldades.

Isto é único no ser humano. O animal não pode crear valores positivos, nem negativos. Um animal é apenas um facto, mas não é um valor. Valores são creações da consciência. Fatos são descobrimentos da inteligência.

 

Alorredenção e Autorredenção

Ultimamente nesta humanidade ocidental – mesmo na velha humanidade (estou fazendo distinção entre a velha humanidade, do EGO, e a nova humanidade, do EU) – está diminuindo cada vez mais a ideia de alorredenção. Alo, quer dizer o outro. Que o outro me possa redimir… Que o outro me possa salvar. Nas elites humanas – não nas massas. Está desaparecendo a ideia de que alguém me possa salvar. Isto está desaparecendo, graças a Deus. É um grande progresso.

E está aumentando cada vez mais o conceito de autorredenção. Autos quer dizer eu mesmo. E está aumentando o conceito, em todo o ocidente, na Europa e nas Américas, que eu sou o meu redentor. Eu sou o meu salvador, não existe um salvador fora de mim. O salvador está dentro de mim.

Esta questão de alorredenção e autorredenção já começou no princípio do cristianismo.

No século V dois grandes pensadores, um africano e outro inglês – Agostinho era africano, e o monge britânico Pelágio, que vivia em Roma – mantiveram acirrado certame.  Escreviam cartas um ao outro e publicavam livros. Santo Agostinho escreveu 103 livros dos quais 20 falam de autorredenção e de alorredenção. E estes livros argumentavam contra as teses de Pelágio, que afirmava que o homem pode redimir-se a si mesmo. O homem pode salvar-se por forças próprias, dizia Pelágio, e Santo Agostinho contrapunha-se “Não… só Deus me pode salvar. Eu não me posso salvar, eu só me posso perder”, e completavaeu posso cair no poço, mas não posso sair do poço”.

“Eu me posso perde”, dizia Santo Agostinho, “eu posso ser mau, crear valores negativos, não preciso de Deus para isto – isto eu faço por minha conta e risco”. E Pelágio dizia, “não, o homem tem o poder de crear valores positivos (salvação, redenção), e tem também o poder de crear valores negativos”.  Brigaram por mais de meio século. Nunca chegaram a um acordo.

Porque era tão difícil chegar a uma compreensão de autorredenção e alorredenção? Porque naquele tempo, no século V, não havia uma noção exata da natureza humana. Esta noção nós temos hoje. A psicologia nos deu grandes progressos para conhecermos melhor a nossa própria natureza. Dizem os cientistas que continuamos a ser um homem desconhecido. E Pascal diz que somos um misto de grandezas e de misérias. E Teilhard de Chardin diz que o homem é um fenômeno paradoxal. Isto é verdade. Porque nós não conhecemos ainda o nosso centro. Conhecemos as nossas periferias. O nosso ego é conhecido, mas o nosso EU ainda continua um X, uma incógnita.

Então, como Pelágio e Agostinho não tinham conhecimento exato da bipolaridade da natureza humana, eles não chegaram a um acordo. Pelágio afirmando autorredenção e Santo Agostinho afirmando alorredenção, Cristo-redenção: redenção pelo Cristo é uma alorredenção. A questão era se eu, dentro da minha natureza humana, eu me posso redimir, ou, se eu somente me posso perder. E Pelágio afirmava: “Eu me posso perder pela minha própria natureza humana, mas Eu também me posso salvar. Eu tenho o poder negativo de me perder, e tenho o poder positivo de me salvar”.

Hoje em dia a coisa é mais fácil e a humanidade, depois de mais de um século de psicologia, já aceita a ideia de autorredenção: Eu me posso redimir dos meus males e das minhas maldades.

[i] Na filosofia temos que distinguir entre crear e criar.
Crear é a transição da essência para a existência e criar é a transição de uma existência para outra existência.
Eu não posso crear pela inteligência, mas posso descobrir pela inteligência.
Eu posso crear pela consciência. Posso crear valores dentro de mim mesmo, e também posso crear desvalores, (valores negativos). Posso crear maldades, que é um desvalor, como posso crear bondade.
[ii] Etimologia – Lat. conscientia de consciens p.pres. de conscire = estar cientes (cum = com, partícula de intensidade e scire = sei)[1] .Também encontramos uma possível raiz formada de junção de duas palavras do latim; conscius+sciens :conscius(que sabe bem o que deve fazer) e sciens(conhecimento que se obtêm através de leituras; de estudos; instrução e erudição[2] .
Este esclarecimento foi encontrado em https://www.wikiwand.com/pt/Consciência. O texto sobre o assunto é bastante interessante. 
[iii] Encontrei interessante reflexão sobre “fatos e valores”
https://www.wikiwand.com/pt/Consciência
Um pequeno trecho:
Se dissermos: “Está chovendo”, estaremos enunciando um acontecimento constatado por nós e o juízo proferido é um juízo de fato. Se, porém, falarmos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”, estaremos interpretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, proferimos um juízo de valor.
Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor – avaliações sobre coisas, pessoas e situações – são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião.
Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis.