Gandhi

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Segunda parte da aula 16 – CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 23 de agosto de 1977

 

O EGO e EU

Vamos falar das maldades morais agora, e não dos males físicos por enquanto. Eu me posso redimir das maldades morais, dos meus pecados. Repetindo: de todas as maldades não físicas, mas morais.

Mas, quem é que faz isto? O meu Ego ou o meu Eu?

Na época de Agostinho e Pelágio não se sabia distinguir nitidamente entre os dois polos da nossa natureza. Era conhecido melhor o Ego do que o EU.

A totalidade da natureza humana pode ser representada por uma cruzinha no centro de uma ou várias circunferências. As circunferências, que chamaremos de periferia, representa o Ego. E a cruzinha, no centro, representa o Eu. Não havia uma noção clara sobre os dois polos da natureza humana, isto é, sobre o polo Ego – a periferia, e o polo Eu – o centro. Por isso nunca chegaram a um acordo.  Pelágio dizia “eu me posso salvar”; agora, se ele chamava “eu” a cruzinha no centro ou a periferia, nós não sabemos. Não sabemos se Pelágio tinha entendimento sobre o Ego ou Eu…

Agostinho só conhecia o Ego. Tinha sido muito derrotado pelo seu ego na juventude, até os trinta e tantos anos, e devido às derrotas sofridas pelo poder do seu ego, não acreditava que o homem pudesse salvar-se a si mesmo. Identificava o homem com o seu ego.

Eu creio que Pelágio não falava do Ego, mas ele nunca afirmou isto. Creio que se referia ao Eu verdadeiro. E dizia: “eu, pelo meu Eu divino – interno –  (pelo meu Cristo interno,diríamos hoje), me posso redimir e salvar de todas as maldades”.

Naturalmente, Agostinho não conhecia este Eu central, ele conhecia muito bem o Ego periférico. Tinha sido derrotado por ele. E quando se converteu, atribuiu a conversão a Deus e não a si mesmo. “Eu não me converti, dizia, Deus me converteu”. Ele nunca aceitou que ele mesmo se pudesse converter; que se pudesse fazer bom. “Eu só me posso fazer ‘mau’, só Deus me faz bom”.

Agostinho só entendia da natureza humana o ego. E Pelágio parece que entendia tanto o Eu central positivo, como também o Ego. Por isso dizia: “sim, eu posso ser mau por minha conta e risco, mas eu também posso ser bom, posso fazer-me bom. Posso redimir-me dos meus pecados e das minhas maldades”. E neste caso ele não se referia ao seu Ego externo, porque o Ego é muito negativo.

O Ego, de fato, é o nosso pecador – o Ego é o que nos perde. O Eu é quem nos salva.

Hoje em dia a humanidade já abriu os olhos para os dois sentidos da palavra Eu, mas muitos ainda entendem por Eu, o Ego. O grosso da humanidade ainda pensa como Santo Agostinho. E nós também, hoje em dia, em pleno século XX, repetimos: ‘eu estou doente’. Eu, o quê? O meu Eu central está doente? Não, o Espírito de Deus em mim não pode estar doente. Isto não é possível. O meu Cristo interno não pode estar doente. Repetimos a palavra Eu – sem distinguirmos o que é que entendemos por Eu. Nós nos referimos geralmente ao nosso corpo, ao nosso Ego.

Chamamos o nosso corpo – Eu, o que é um modo de falar muito inexato. Mas, não temos outro modo. Não podemos dizer Ego, como em latim. Em latim, ‘Eu’ é ‘Ego’, mas só usamos o Ego latino para a parte negativa da nossa natureza. Dizemos: ‘eu vou morrer’ – eu quem? Não o Eu verdadeiro, o nosso centro, não vai morrer – este não vai morrer. O que vai morrer é o nosso corpo, a nossa periferia. O nosso EU central não está sujeito à morte. O nosso Eu central não tem câncer, não tem tuberculose, não pode sofrer acidentes e não morre.

Quando dizemos: ‘eu sou inteligente’, o ‘eu’ a que nos referimos faz parte do nosso Ego. A inteligência é uma faculdade do nosso Ego, relacionada com o Eu, é verdade. Mas ainda tem sede no ego. Quando dizemos: ‘eu fui ofendido; fui tratado com ingratidão; fui vilipendiado’, a que “eu” nos referimos? Ao nosso Ego emocional, ao nosso Ego afetivo, que sofre com ingratidão ou injustiças. É claro – é o nosso Ego que sofre. O nosso Eu não sabe nada disto.

Às vezes aparece um homem que não se identifica mais com o seu ego. Mahatma Gandhi, em nosso tempo, chegou a este ponto. É o máximo a que um homem pode chegar. Ele tinha esquecido o seu ego e só se lembrava do seu Eu. Os homens avançados fazem do seu Eu uma coisa muito maior do que seu Ego. E o seu ego vai desaparecendo pouco a pouco.

Quando perguntaram a Gandhi se perdoava as ofensas que havia recebido em grande quantidade em toda a sua vida, respondia: “eu não perdoei nenhuma ofensa porque nunca ninguém me ofendeu”.

O homem, quando é mau, procura vingança. O homem quando é bom, perdoa as injustiças. Mas os dois são imperfeitos. Também aquele que perdoa não é perfeito – é melhor do que aquele que vinga, é claro. É melhor perdoar do que vingar, não há dúvida nenhuma. Mas por que ele perdoa? Porque se sente ofendido. E por que se sente ofendido? Porque ainda está na zona do seu Ego.

O nosso Eu não pode ser ofendido. O nosso Eu é inofendível. O nosso Eu é absolutamente inofendível. A minha alma não pode ser ofendida por ninguém. O meu Cristo interno não pode ser ofendido por ninguém. Deus em mim, o Pai em mim, que é o meu Eu, não pode ser ofendido. Logo, o meu Eu não tem que perdoar nada a ninguém. Porque o meu Eu não foi ofendido, o meu Eu é invulnerável, inatingível.

Mas, não temos a consciência da nossa invulnerabilidade.

Gandhi chegou à consciência da sua completa invulnerabilidade. O meu Eu não pode ser atingido pelos outros. Ninguém pode fazer mal ao meu Eu central. Todos podem fazer mal ao meu Ego periférico. E de fato fizeram. No fim o mataram. Um hindu o matou com 3 tiros de revólver. Mas, as últimas palavras de Gandhi ao cair ferido, baleado, foram: Namastê. Ainda fez a saudação ao seu assassino. Deus esteja contigo. O Deus em mim saúda o Deus em ti, como os hindus interpretam esta saudação bonita.

E foram as últimas palavras de Gandhi ao seu assassino. Meu querido inimigo, o Deus em mim saúda o Deus em ti. Isto está além da ofendibilidade. Não pôde ser ofendido nem com 3 tiros de revolver, nem com a morte. E ele ainda pediu, quando já estava morrendo, que não permitissem que seu assassino fosse punido. Eu não sei, mas o governo da Índia provavelmente o enforcou, como era costume lá. Mas Gandhi pediu que não o punissem porque o que ele necessitava era instrução e não punição. Porque ele tinha agido por ignorância. É claro, é pura verdade. Ele ignorava o seu Eu verdadeiro. Não ignorava o seu ego que agiu e matou. Mas, a verdadeira sabedoria não é do ego. Então Gandhi disse: é preciso instruir este homem porque ele agiu por ignorância, matando-me.

Quer dizer, hoje em dia aqui no ocidente, nós já estamos em grande parte passando da velha ideia da alorredenção para a nova ideia da autorredenção. Aliás, não é nova esta ideia. Está no Evangelho, 2000 anos atrás. As obras que eu faço, diz o Cristo, Jesus – naturalmente as obras boas, porque ele não fazia obras más – as obras que eu faço, não sou eu que as faço, é o Pai que está em mim que faz as obras. Porque de mim mesmo eu nada posso fazer.

Quando falava assim, se referia a isto: ao seu Eu positivo, ao seu Eu central. As obras que eu faço através do meu ego, mas, nascidas do meu Eu divino, as obras que eu faço não sou eu, o meu ego que faz estas obras, mas o meu Eu divino que faz estas obras. E o seu Eu divino ele sempre chama o Pai. O Pai está em mim e eu estou no Pai. O Pai também está em vós, ele diz a seus discípulos. O Pai também está em vós, e vós estais no Pai.  Quer dizer, Pai, ele chama isto: o Deus interno, o Cristo interno, muito mais poderoso que o seu ego. O ego nunca desaparece completamente porque faz parte da natureza humana. Mas, o ego pode ser menor que o Eu. Eu posso aumentar a tal ponto a consciência do meu Eu real, do meu Eu divino, do meu Eu espiritual, do meu Cristo interno, que praticamente esqueço do meu ego humano. E quando alguém tem 99% de consciência do seu Eu verdadeiro e apenas 1% de consciência do seu ego ilusório, então, ele se sente completamente liberto. Ninguém o pode ofender porque ele não é mais ego, deixou de ser ego praticamente e se identificou com seu Eu. E por isto Gandhi podia dizer: eu não preciso perdoar a ninguém porque ninguém me ofendeu.

Nós falamos muito autorredenção hoje em dia, mas os dogmas, as teologias, ainda não entraram nesta zona de conhecimento. Ainda pensam que há um fator externo que me faz mau, a que chamam de diabo. E também há um fator externo que me faz bom, ao que chamam de Cristo. Mas não entendem o Cristo interno do Eu. Entendem do Cristo lá do outro lado do Mediterrâneo, que viveu há 2000 anos. Entendem que a salvação vem de longe, vem de fora para dentro.

Pouco a pouco nós nos convencemos: Toda a redenção, toda a salvação, todo o melhoramento moral, espiritual não vem de fora de mim. Também as maldades não vêm de fora. A bondade vem de dentro e a maldade vem de dentro. Pergunta-se: ‘dentro de quê?’ Dentro de minha natureza. Mas eu sou tanto ego como Eu. Na minha periferia eu sou ego e daí podem vir os males, as maldades, os crimes, os pecados; todos vêm do meu ego, mas fazem parte de mim; fazem parte da minha natureza, do meu ego.

Mas se eu cultivar o meu Eu central, então o meu ego praticamente fica eclipsado. Ele continua a existir, é claro, faz parte de mim, mas ele não pode dar ordens, ele não pode dominar a minha vida. E então eu posso dizer: eu me faço bom porque eu quero e o ego não me faz ‘mau’, porque o meu Eu não deixa o meu ego funcionar. Ele dá ordens ao meu ego e o meu ego não dá ordens ao meu Eu. É uma grande vantagem.

Suponha que alguém tenha 90% no seu Eu central e apenas 10% no seu Ego. Se ele está com 90% de consciência do seu Eu, sobra apenas 10% de consciência do seu ego. Então, praticamente ele está livre. Ele não tem mais obrigação de ser mau porque 90 dominam 10. Mas, se o contrário acontece, se ele é 90% no ego e apenas 10% no Eu – então o seu ego dá ordens ao ego e ele se torna ‘mau’. Mas, a culpa não é do diabo, é minha. A culpa é do meu ego humano. Mas o contrário também acontece e o merecimento é da minha natureza humana, do meu Eu humano; também faz parte da minha natureza.

Estamos chegando pouco a pouco a esclarecer as nossas ideias. Mas as igrejas e as teologias, geralmente não aceitam ainda que o homem possa passar por uma autorredenção. Ainda se aferram na alorredenção. E quando dizemos que a autorredenção é possível, entendem que nos referimos a uma ego-redenção.

Não há ego-redenção, só há ego-perdição. Mas há Eu-redenção. O Eu é autos, em grego. Há autorredenção, mas também há ego-perdição. Mas nós somos responsáveis pelos dois. Porque quem disse que o meu ego devia ser mais forte que o meu Eu? A culpa é minha. Se eu não desenvolvi o meu Eu bom, e desenvolvi por demais o meu ego negativo a culpa é minha, porque eu não me eduquei devidamente para ser bom.

Mas é claro, estamos entrando numa nova zona de compreensão pouco a pouco, de  que tudo está dentro de nós, tanto o bem como o mal; tanto o positivo como o negativo; tanto a redenção como também a perdição. Está tudo dentro de cada um de nós e nós somos responsáveis por isto.