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Segunda parte da décima sétima aula do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden, em 30/08/1977.

Coexistência de Inteligência e Espírito

Só existem no universo inteiro duas potências grandiosas: a inteligência e o espírito. Ambos são do universo. A inteligência é o polo negativo, e o espírito é o polo positivo do universo. Elas são contrárias uma à outra? Não. Tanto a inteligência vem da Divindade como o espírito também vem da Divindade. Vamos tentar usar a linguagem dos filósofos para explicar isto: Diremos que a Divindade é a tese. Em contraposição à Tese temos duas Antíteses (anti = contra): uma contraposição positiva – o Espírito; e uma contraposição negativa – a Inteligência. E estas duas podem se unir em uma composição, ou seja, em uma síntese.

Quando consideramos o Espírito (antítese positiva) e a Inteligência (antítese negativa), separadamente, nós temos a impressão de que uma é contrária à outra. Que não há compatibilidade entre Inteligência e Espírito.

A Bhagavad Gita afirma que a Inteligência é a pior inimiga do Espírito, mas o Espírito é o melhor amigo da Inteligência. Inteligência também se chama Ego (Antítese negativa), e Espírito se chama EU (Antítese positiva), a nossa alma.

Então, a Bhagavad Gita diz: “o Ego intelectual é o pior inimigo do Eu espiritual”. E isto é verdade. “Mas, por outro lado, o Eu espiritual não é inimigo do Ego intelectual”. E por causa disto pode haver um tratado de paz entre as duas antíteses. O tratado de paz não pode partir da Inteligência. O Ego não vai fazer tratado de paz com o Eu. Mas o Eu, o Espírito, que é amigo da Inteligência (embora a Inteligência seja inimiga do Espírito), pode influenciar a Inteligência ao ponto desta se conciliar com o Espírito. Esta é a única esperança. O menor não pode fazer as pazes com o maior, mas o maior pode convidar o menor para fazer as pazes.

E quando os dois fazem a paz, então, se dá a Síntese.

Quando nós olhamos como míopes, só por um lado, dizemos: “Inteligência e Espírito são irreconciliáveis, não há possibilidade de Síntese”. Mas não é verdade. A divindade não creou coisas incompatíveis. Os dois polos são sempre polos complementares.

 

A bipolaridade no universo

Toda a natureza está cheia de bipolaridade. Toda a natureza é feita na base de bipolaridade. Não existe nada na natureza que não tenham dois polos: polo positivo e polo negativo. Nem no mundo físico, nem no mundo orgânico, nem na metafísica, nem no mundo espiritual. Um átomo tem dois polos: o positivo que denominamos próton, e o polo negativo que denominamos elétron. Os astros têm dois polos: atração e repulsão. Não pode haver atração sem repulsão, nem repulsão sem atração. A atração é positiva e a repulsão é negativa. O universo é todo baseado em atração e repulsão. Toda a eletricidade é positiva e negativa – a luz é bipolar, é uma síntese entre o positivo e o negativo. E toda natureza é assim.

E na humanidade, em todos os seres vivos também há positivos e negativos: a um se chama masculino e ao outro se chama feminino. Existem as amebas, mas que não são organismos, são células; as bactérias que não são organismo são células isoladas: aí não há dois polos. Não, neste sentido. Talvez em outro sentido haja, mas neste não. Mas se vocês vão ao plano superior dos vegetais… – todo vegetal se multiplica por dois polos, pelo masculino e feminino. Pelos órgãos masculinos e femininos, em síntese.

 

A não síntese entre Inteligência e Espírito

Onde não há síntese entre as antíteses, não acontece nada. Esta mesma regra também vale para o nosso caso. Aqui está o Espírito – um polo da antítese. E aqui está a Inteligência que é outro polo da antítese. Nós pensamos sempre que sejam eternamente incompatíveis. Mas, isto é miopia nossa. A tese, que é a Divindade, não iria crear duas coisas eternamente incompatíveis. Temporariamente incompatíveis sim – porque isto é necessário para a evolução. Eternamente incompatíveis – não existe nada no mundo.

Tudo é temporariamente contrário, mas realmente complementar. O polo positivo e o polo negativo da luz são polos complementares. Não são polos contrários. O masculino e o feminino são polos complementares. Não são polos contrários. O Próton (positivo) e o elétron (negativo) são polos complementares para formar o átomo completo. A atração e repulsão na astronomia são polos complementares para formar o universo. E assim também é aqui no mundo metafísico. Estamos aqui falando do mundo metafísico, fora da física.

Há uma possibilidade de síntese entre o positivo do Espírito e o negativo da Inteligência, porém, não é fácil de acontecer. E o primeiro casal, de que fala o Gênesis, não fez a síntese, ficou na antítese, estagnando. A inteligência cometeu uma sabotagem quando disse: ‘não vos deveis sintetizar com o Espírito’. O Espírito se chama o sopro de Deus, no Gênesis – é polo positivo, a antítese positiva. Deus aplicou o seu “sopro” no homem para que ele se tornasse a imagem e semelhança de Deus. O sibilo da serpente, a fala da serpente é a antítese negativa. A serpente é a Inteligência transcendente, que falou a Eva disse: “não, vós sois somente inteligência, não tendes nada que ver com o espírito”. Quer dizer, isolou a Inteligência do Espírito. Esta é a sabotagem e não é um ato individual, é uma tentativa de sabotagem cósmica.

O corpo do homem é animal – imagine isto como uma linha horizontal.

Mas, recebeu o espírito, o sopro de Deus. Imagine o sopro de Deus como uma linha vertical descendo perpendicular sobre a linha horizontal que significa o corpo animal do homem. É o sopro de Deus penetrando no corpo animal para iniciar uma evolução. Se a vertical se une à horizontal deve acontecer o início da evolução.

Só na horizontal não há evolução. Aqui há zero. Na linha vertical teremos 90º, que é o ângulo reto. Na horizontal do animal, grau zero. Mas entre 90º e zero, há muitos outros graus. A evolução começa então com 1º; depois sobe um pouco mais… 2º; sobe um pouco mais, 3º. vai subindo… rumo ao espiritual, ao vertical. O espiritual é o vertical. Isto é a trajetória da evolução do animal para o homem sob o impacto do espírito. Vocês podem representar isto geometricamente com muita facilidade. Se aqui está o espírito de Deus, que exerceu o seu impacto sob o corpo animal, deu ao corpo animal a possibilidade de sair do zero, que é pura animalidade e subir 1º grau, pelo menos, eu chamo isto hominal, em vez de humano.

Animal é zero. Deixando o zero e subindo até 90º na vertical, é o Hominal. Se um homem ainda tem 89º de animalidade e apenas um grau de hominalidade é um homem muito primitivo, apenas um pouquinho acima do animal. Mas existe a possibilidade dele chegar aos 90º de Espiritualidade; porque a evolução pode ir até vertical – O homem perfeito, o homem integral, vamos dizer, o homem cósmico.

Na horizontal está o homem animal. Quando atinge 45º de Espiritualidade já está a meio caminho da sua evolução definitiva. 45º é a metade de 90º. Então a evolução veio do zero, passou pelos 45º, e continuou subindo até chegar aos 90º. Este é o plano cósmico da divindade: o animal recebeu o sopro divino e deve começar a sua homificação, a sua humanização – se quiserem. Esta foi a ordem de Deus.

 

A Sabotagem

O que fez a inteligência? A inteligência em vez de fazer evolução, fez involução, para baixo. É evidente pelo texto do Gênesis. Todo o pecado da inteligência é que ela frustrou, sabotou a evolução espiritual e preferiu a involução, não animal, mas infra-animal. Se fosse apenas animal não seria involução, seria estagnação. Se o homem ficasse no plano do animal, então, estaria estagnado, ficaria parado na horizontal. Se ele fosse acima do animal ele faria uma evolução – a evolução é para cima. Mas se ele caísse debaixo do animal, então seria uma involução. E se o homem começa a fazer uma involução, quando é que ele vai começar a evolução?

E a inteligência quis barrar e frustrar a evolução humana. Convidou os homens a involver em vez de evolver. Involver é para baixo. Evolver é para cima. Estagnar é no meio. Tudo que está no Gênesis é uma tentativa de involução. Isto é o grande crime cometido pela inteligência, seja inteligência transcendente, seja inteligência imanente, não vamos decidir isto agora. O certo é que um poder muito grande que é a inteligência se opôs à evolução espiritual e induziu os homens a uma involução infra-animal

Por que infra-animal e não estagnação animal? Porque se a inteligência aconselhasse a ficar apenas no plano animal, ainda havia perigo de poder subir para a evolução. Mas se a inteligência convida o homem a descer abaixo do plano animal, portanto, não estagnação, mas involução… (o Gênesis supõe uma involução) – então, não há nenhuma esperança do homem alcançar uma evolução. Se a inteligência apenas deixasse o homem na estagnação e dissesse: ‘vocês não precisam ser seres espirituais, não precisam ir rumo à vertical. Fiquem paradinhos aqui no plano animal, puro animal’. Isto já seria um crime. Seria uma rebeldia contra os poderes espirituais. Mas isto não aconteceu. Pelo que o Gênesis diz, a inteligência não convidou o homem para estagnar no ponto zero, no ponto do animal.

Convidou os homens a regredir, a decair. Ir abaixo de zero, abaixo da animalidade, para garantir a impossibilidade de subir até a espiritualidade. Ele dificilmente chegará aos 90º da Espiritualidade.

Quem começa uma involução dificilmente vai chegar à evolução. Porque entre a involução e a estagnação já há um espaço muito grande, e entre a estagnação zero e a evolução espiritual, há mais uma distância enorme. Então, o que a inteligência transcendente fez foi conduzir – ou seduzir, propriamente – o primeiro casal a passar da animalidade para a infra-animalidade, da estagnação para a involução, para que ele nunca chegasse à evolução.

Este é o tal crime. É a sabotagem, uma sabotagem luciférica.

 

O poder das trevas

A humanidade foi sabotada desde o princípio por um poder misterioso chamado serpente, de se afastar de seu verdadeiro destino; e regredir para baixo. Agora não pensem que eu tenha inventado isto. Vou citar as palavras do Cristo para comprovar isto.

O maior homem da história, Jesus o Cristo denomina a inteligência de ‘o dominador deste mundo’ e depois ele acrescenta, a inteligência é ‘o poder das trevas’. Porque o espírito é o poder da luz. O positivo é o poder da luz: “Eu sou a luz do mundo.” E o contrário de luz é as trevas. O contrário de positivo é negativo. Como a inteligência é treva, a inteligência domina o mundo, mas é o poder das trevas.

Jesus disse a seus discípulos: “O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. Ele declara que o poder das trevas que é o dominador deste mundo, que é a inteligência antiespiritual, tem poder sobre seus discípulos e sobre todo o mundo. Imaginem, no tempo de Jesus ainda o mundo está sobre o poder das trevas. Toda a humanidade está escravizada pelo poder da inteligência e não do espírito.

Depois Jesus acrescenta: “O poder das trevas tem poder sobre vós, mas sobre mim ele não tem poder, porque eu já venci este mundo”. Isto ele podia dizer, nós não podemos dizer isto. Nenhum de nós pode dizer que o poder das trevas que é a inteligência, contrária ao espírito, não tem poder sobre nós, porque nós somos todos escravizados pelo poder das trevas. A humanidade toda.

 

Nova tentativa de sabotagem

Depois, na tentação a que todos os Evangelhos se referem – a tentação de Jesus -outra vez o conflito entre as duas potências. Entre a inteligência e o espírito. Depois de 40 dias de jejum no deserto Jesus enfrenta o poder intelectual, que se chama satanás, que também se chama diabo. Diabo, satanás, inteligência, serpente, tudo isto é a mesma coisa. No Apocalipse se chama o dragão, que é a antiga serpente.

Então, na tentação aparecem as duas maiores potências do universo: a inteligência tentadora e o espírito tentado. Cristo é o espírito. E o anticristo, que o tenta, é a inteligência. Então, o que é que diz a inteligência ao espírito. O que é que, na tentação, a inteligência diz ao espírito; o que é que o intelectual diz ao espiritual. O que é que o poder das trevas diz à luz do mundo. Diz o seguinte: eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória – é a inteligência que fala, talvez a inteligência transcendente. Eu te darei, Jesus, todos os reinos do mundo e sua glória, (porque a inteligência se interessa por isto) porque são meus. Vejam bem, quando eu ouvi isto pela primeira vez eu disse: ‘mas que mentira é esta. A inteligência afirmar que todos os reinos do mundo e sua glória são da inteligência’. Mas, é claro que são, quem fez tudo isto?

Não foi a inteligência que fez todos os reinos do mundo e sua glória? Não foi o espírito que fez. A inteligência é que faz isto. Então, a inteligência oferece ao espírito. O anticristo oferece ao Cristo todos os reinos do mundo e sua glória porque são meus, diz a inteligência. O tentador é a inteligência. E o tentado é o espírito. Todos os reinos do mundo e glória são meus e eu os dou a quem eu quero. Eu sou o dono do mundo. Eu dou o reino do mundo a quem eu quero. Portanto, é a inteligência que confirma o que Jesus tinha dito: “O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”.

Mas, pela primeira vez a inteligência encontrou um homem sobre o qual ele não tinha poder. A inteligência não tinha poder sobre o Cristo, porque o Cristo já havia vencido o mundo. Lá estava um homem 100% espiritual. Um homem que está na vertical de Espiritualidade – o Cristo, sob o domínio absoluto do Espírito. Pela primeira vez a inteligência encontrou um homem que não a quis obedecer.

A inteligência convidou o espírito do Cristo: “prostra-te em terra e adora-me”. Porque a inteligência prometeu todos os reinos do mundo e sua glória, mas não de graça. A inteligência não dá nada de graça. Isto não é bom. Isto é impossível para a inteligência. A inteligência cobra caro. Se ela promete coisas grandes ela cobra muito e ela cobrou o maior preço que ela podia cobrar. “Jesus, tu estás de pé, faça o favor de ajoelhar diante de mim e dizer, inteligência, tu és a minha divindade”. Isto é o que ele queria. Que Jesus caísse de joelhos diante do tentador e adorasse o tentador como seu Deus. E pela primeira vez ela se enganou.

Quando ela faz isto conosco, nós aceitamos. Se a inteligência nos promete todos os reinos do mundo e sua glória, será que nós não vamos aceitar um negócio destes? Nós aceitamos um negócio muito menor. Não precisa ser todos os mundos e sua glória. Basta um farrapinho qualquer. Um farrapinho qualquer chega. Um pouquinho só. Não 100%, 10% chega, 1% chega. A nossa inteligência capitula com armas e bagagens diante de qualquer farrapinho deste mundo. É porque nós somos fracos. Estamos muito perto da animalidade.

Eu explico isto para vocês verem que eu não estou inventando que a sabotagem foi desde o princípio feito pela inteligência. Ela sabotou o primeiro casal, não conseguiu sabotar o Cristo. Porque já era outra coisa, Adão e Eva não eram homens altamente espirituais. Eles estavam rastejando próximos ao ponto zero da animalidade. Talvez tivessem 1º de evolução, talvez 2º de evolução. Mas, estavam perto da animalidade. Não estavam muito acima da animalidade.

 

A vitória final

Os nossos bons teólogos, nos querem fazer crer que Deus fez o homem perfeito. Fez um Cristo. Adão era um Cristo para eles – perfeitíssimo. E, contudo foi derrubado. Um homem que fosse da perfeição do Cristo, nunca podia ser derrubado pelo tentador.

Mas, Adão foi derrubado. Primeiro a mulher, e depois ele – o homem – através da mulher. Caíram os dois. Quer dizer que capitularam diante da inteligência antiespiritual. Isto eu chamo a sabotagem luciférica, que a inteligência quer fazer em todos os tempos e que ela conseguiu fazer no Gênesis, com os primeiros homens. Ela tentou pela segunda vez fazer isto com o Cristo, mas ela não conseguiu.

Jesus não caiu de joelhos diante da inteligência e disse: “Eu te adorar? Eu o Espírito, te adorar, Inteligência?”. Não, ficou de pé e disse: “Vai à minha retaguarda, tu pões-te na vanguarda? Na vanguarda vou eu, o Espírito. A Inteligência tem que ir à retaguarda”. A tradução é muito infeliz, eles dizem: “Vai-te embora”. O espírito não pode mandar a inteligência embora. Ele só pode mandar a inteligência para a retaguarda. “Vá de retro” – em latim. Retro é o radical de retaguarda. Inteligência põe-te na retaguarda e não te ponhas na vanguarda. Na vanguarda vou eu. Esta foi a resposta do Cristo.

Mas, a resposta do primeiro casal não foi esta. O primeiro casal adorou a inteligência e se deixou derrotar pela inteligência antiespiritual. “Porei inimizade entre ti e a mulher” – disseram os Elohim. Entre ti serpente e a mulher. Não esta mulher que agora caiu vítima da inteligência. A mulher futura. “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre teu descendente e o descendente dela”.

Ele – a Vulgata diz “ela”, mas em grego está “ele”, Ele, o descendente da mulher, Ele, o descendente da futura mulher, não desta mulher Eva, mas da futura mulher, é o Cristo. “Ele te esmagará a cabeça”. Isto está na Vulgata, mas no texto grego não tem. Em toda Vulgata está – ele, o Espírito sujeitará a Inteligência. Ele esmagará a cabeça, o Espírito será mais poderoso que a Inteligência. O Espírito não vai adorar a Inteligência; a Inteligência tem que adorar o Espírito.

Estou explicando isto para vocês verem que a razão das 3 maldições terríveis não é uma razão ridícula. É uma razão muito séria. Porque a tentativa que se fez é estragar toda a história da humanidade. O tentador não queria que o homem chegasse a sua evolução, mas o convidou para fazer o contrário, a involução.