Tag Archive: Drumond de Andrade


MAIS UM TEXTO DE DRUMOND DE ANDRADE. AGORA SEM NENHUMA “palhinha” MINHA.
ESTIMO QUE TENHA ESCRITO POR VOLTA DE 1969, MAS PARECE QUE ELE ESTÁ PAPEANDO CONOSCO EM NOSSA SALA DE ESTAR.

 

O SOBREVIVENTE

????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

                                                                                                                  http://www.dreamstime.com

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

 

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

 

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem fio.

Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda

falta muito para atingirmos um nível

razoável de cultura. Mas até lá, felizmente,

estarei morto.

 

Os homens não melhoraram

e matam-se como percevejos.

Os percevejos heroicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

 

DRUMOND de Andrade, Carlos – NOVA REUNIÃO, 23 livros de poesia, volume 1, Alguma Poesia, pg. 35.
Anúncios

Brasileiro

TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

DRUMOND de Andrade, Carlos – NOVA REUNIÃO, 23 livros de poesia, volume 1, Alguma Poesia, pg. 11.

 

Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

E aprendi na mesa dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

E todas as virtudes se negam.

 

Eu também já fui poeta.

Bastava olhar uma mulher,

pensava logo nas estrelas

e outros substantivos celestes.

Mas eram tantas, o céu tamanho,

minha poesia perturbou-se.

 

Eu também já tive meu ritmo.

Fazia isto, dizia aquilo.

E meus amigos me queriam,

meus inimigos me odiavam.

Eu irônico deslizava

satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.

Hoje não deslizo mais não,

não sou irônico mais não,

não tenho ritmo mais não.

 

 

NÃO SOU POETA E NÃO PRETENDO FAZER POESIA.

NEM COMPLETAR O QUE FOI DITO PELO DRUMOND DE ANDRADE.

MAS ME OCORREU UNS PENSAMENTOS, QUE VÃO ABAIXO EXPOSTOS.

 

Não na mesa dos bares

foi que aprendi

que o nacionalismo é uma virtude.

 

Milhões de brasileiros,

como eu, aprenderam

sobre esta e outras virtudes

no lar de gente humilde.

 

Hoje, querendo estão

fechar os lares de gente humilde,

e outros lares também.

Almejando, desconfio,

acabar é com a virtude.

Mais que isto,

querem a Pátria arreada

e a alma de meu povo.

Querem tudo de mão beijada,

Pra entregá-las, sem disputa,

pras comunas socialistas.