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ESTAVA TENTANDO RESUMIR UMA PALESTRA DE ROHDEN, QUANDO DEPAREI COM UMA PALAVRINHA DESCONHECIDA: INERME. FUI AO AURÉLIO QUE APÓS A DEFINIÇÃO (Não armado, indefeso), DÁ UM EXEMPLO CITANDO O VERSO CXI DO CANTO III DE LUSÍADAS. DAÍ MEU DESEJO DE BRINDÁ-LOS COM UMA PEQUENA PORÇÃO DESTA OBRA MÁXIMA DA LITERATURA PORTUGUESA. DIVIRTAM-SE!

 

CVIII

Entre todos no meio se sublima,

Das insígnias reais acompanhado,

O valoroso Afonso, que por cima

De todos leva o colo alevantado,

E somente co gesto esforça e anima

A qualquer coração amedrontado.

Assim entra nas terras de Castela

Com a filha gentil, rainha dela.

 

CIX

Juntos os dous Afonsos, finalmente

Nos campos de Tarifa estão defronte

Da grande multidão da cega gente,

Para quem são pequenos campo e monte.

Não há peito tão alto e tão potente

Que de desconfiança não se afronte,

Enquanto não conheça e claro veja

Que, co braço dos seus, Cristo peleja.

 

CX

Estão de Agar os netos quase rindo

Do poder dos cristãos, fraco e pequeno,

As terras como suas repartindo,

Antemão, entre o exército agareno,

Que, com título falso, possuindo

Está o famoso nome sarraceno;

Assim também, com falsa conta e nua,

À nobre terra alheia chamam sua.

 

CXI

Qual o membrudo e bárbaro gigante,

Do Rei Saul, com causa, tão temido,

Vendo o pastor inerme estar diante,

Só de pedras e esforço apercebido,

Com palavras soberbas, o arrogante

Despreza o fraco moço mal vestido,

Que, rodeando a funda, o desengana

Quanto mais pode a Fé que a força humana:

 

CXII

Destarte o mouro pérfido despreza

O poder dos Cristãos, e não entende

Que está ajudado da alta fortaleza

A quem o inferno horrífico se rende.

Co ela o castelhano, e com destreza,

De Marrocos o Rei comete e ofende;

O português, que tudo estima em nada,

Se faz temer ao Reino de Granada.

CXIII

Eis as lanças e espadas retiniam

Por cima dos arneses (bravo estrago!);

Chamam, segundo as leis que ali seguiam,

Uns Maamede e os outros Santiago.

Os feridos com grita o céu feriam,

Fazendo de seu sangue bruto lago,

Onde outros, meios mortos, se afogavam,

Quando do ferro as vidas escapavam.

 

CXIV

Com esforço tamanho estrui e mata

O luso ao granadil, que, em pouco espaço,

Totalmente o poder lhe desbarata,

Sem lhe valer defesa ou peito de aço.

De alcançar tal vitória tão barata

Inda não bem contente o forte braço,

Vai ajudar ao bravo castelhano,

Que pelejando está co mauritano.

CVX

Já se ia o sol ardente recolhendo

Para a casa de Tétis, e inclinado

Para o Ponente, o Véspero trazendo,

Estava o claro dia memorado,

Quando o poder do mouro, grande e horrendo,

Foi pelos fortes reis desbaratado,

Com tanta mortandade, que a memória

Nunca no mundo viu tão grã vitória.

 

 

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Ainda guardo em minha biblioteca um enorme volume de OS LUSÍADAS (por favor, não sejam indiscretos a ponto de indagarem quantas vezes o li). Folheando-o, dias atrás, deparei com um trecho que o torna extremamente atual – não cita os mensaleiros, mas fala de corrupção. Achei oportuno submetê-lo aos amigos.

XCVI

Nas naus esta se deixa, vagaroso,

Até ver o que o tempo lhe descobre;

Que não se fia já do cobiçoso

Regedor, corrompido e pouco nobre.

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assim como no pobre,

Pode o vil interesse e sede imiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

XCVII

A Polidoro mata o rei treício,

Só por ficar senhor do grão tesouro;

Entre, pelo fortíssimo edifício,

Com a filha de Acrísio a chuva de ouro;

Pode tanto em Tarpéia avaro vício,

Que, a troco do metal luzente e louro,

Entrega aos inimigos a alta torre,

Do qual quase afogada em pago morre.

XCVIII

Este rende munidas fortalezas;

Faz traidores e falsos os amigos;

Este a mais nobres faz fazer vilezas,

E entrega capitães aos inimigos;

Este corrompe virginais purezas,

Sem temer de honra ou fama alguns perigos;

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízos cegando e as consciências;

XCIX

Este interpreta mais que sutilmente

Os textos; este faz e desfaz leis;

Este causa os perjúrios entre a gente

E mil vezes tiranos torna os reis.

Até os que só a Deus onipotente

Se dedicam, mil vezes ouvireis

Que corrompe este encantador, e alude;

Mas não sem cor, contudo, de virtude.

XCVI A XCIX, Canto VIII, pg. 198/9.

OS LUSÍADAS – Camões, Luis – Edição Monumental, com notas do Instituto de Estudos portugueses da Universidade de São Paulo, Editora LEP, São Paulo, MCMLVI.

 

NOTAS:

XCVI

4. REGEDOR: o governador (catual).

7. IMIGA: inimiga; mantido por necessidade rítmica. Entenda-se: a sede inimiga da alma.

XCVII

  1. POLIDORO: filho de Príamo, rei de Tróia.

TREÍCIO: da Trácia. É Polimestor. Assassinou Polidoro para apoderar-se do resgate enviado por Príamo.

  1. POR: para
  2. FORTÍSSIMO: sólido.
  3. ACRISO: Acrísio; mantido por necessidade rítmica. É o rei de Argos. Sua filha é Dânae, a quem encerrou numa torre de bronze para evitar que se casasse.

CHUVA DE OURO: é Júpiter, que assim se transformou, para conceber, de Dânae, Perseu. Este assassinaria, posteriormente, seu avô Acrísio.

  1. TARPÉIA: jovem romana que,na esperança de conseguir ouro dos sabinos, abriu-lhes as portas da cidade e foi por eles morta.

XCVIII

  1. ESTE: o ouro.

MUNIDAS: fortificadas.

XCIX

2. TEXTOS:Entenda-se: os textos das leis.

5.6 Isto é, os sacerdotes.

8. COR: aparência.