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Enquanto eu coletava as bagas de prata da estrela lacrimejante, demorei-me no caminho, procurando descansar.

O vale derramou o vento perfumado sobre o campo, e eu quase não percebi.

Saíra fascinado pela noite, buscando a paz; e, embora a quietude, eu sentia minha agitação, sacudindo o panorama deslumbrante

Antes, eu supunha que a felicidade fosse uma donzela adornada de gemas e, desejando-a, fiz-me ladrão. Reuni moedas, guardei pedrarias, e minha ansiedade roubou-me a paz.

Pensei que a ventura viesse com o amor, e quando lhe fruí os anelos, descobri que perdera a serenidade

Desejei o monte, sem vencer a várzea.

A fortuna escorregou pelos meus dedos, como as águas do rio pelas frinchas das rochas, e o amor partiu, ligeiro, buscando novas emoções.

Fiquei só, dentro da noite, com a noite dentro de mim. . .

Peço à estrela solitária que me entenda, e ela, com lágrimas de prata, me diz:

– Segue adiante. . . Segue adiante. . .

Enamoro-me da esperança, tomo o arnês do trabalho, e sigo adiante, buscando no silêncio do dever a paz que eu perdi. . .

 

FILIGRANAS DE LUZ – TAGORE, Rabindranath (pelo espírito de), FRANCO, Divaldo Pereira, Salvador, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1986, 3ª edição, pg 70.
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Conheci RABINDRANATH TAGORE (maio/1861 – agosto/1941), poeta, romancista, músico e dramaturgo, Prêmio Nobel de Literatura (1913, pelas leituras de Huberto Rohden. Seus escritos são de muita delicadeza e profundidade. E nas poucas coisas que li deste autor, algumas falam de silêncio.  Aqui vai uma delas.

 

Mocidade

Passava leve, qual uma chama de oiro a arder em castiçal de prata, no silêncio da solidão.

E era tão bela e pura que, encantado, a segui, na poeira que se erguia à sua passagem.

 

Fascinado, após contemplar-lhe o vulto, de muito perto, atirei-me à frente e, ajoelhado, roguei-lhe a caridade de um sorriso seu.

 

Havia um límpido silêncio do ar, somente interrompido pelo estalido leve das estrelas ridentes, longe, muito longe. . .

Fiou-me, e notei-lhe a tristeza infinda:

 

– Não posso acariciar-te mais, amigo. .   Vou além. . . Os anos coroaram-te a fronte de sabedoria. . . Deixa-me seguir!

– Quem és?

 

MOCIDADE, vestida de ilusão!

 

FILIGRANAS DE LUZ – TAGORE, Rabindranath (pelo espírito de), FRANCO, Divaldo Pereira, Salvador, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1986, 3ª edição, pg 93.